Texto do Mês – Dezembro


DEZEMBRO

Sem título

O ambiente era húmido. As tábuas de madeira soltas davam uma certa sensação de perigo, mas o que realmente preocupava Joanne era o asfixiante odor a madeira molhada que lhe atrofiava a respiração. Pregos entorpecidos seguravam as tábuas ao solo. Ela sempre suspeitou que aquele celeiro teria uma cave. Ali perto, o seu pai batia com força num prego, na tentativa desesperada de tentar recolocar uma das tábuas que servia de janela e que fora arremessada com a força do vento no seu devido local, impedindo que a chuva entrasse no celeiro.

Após a sua tarefa estar concluída, o senhor Perrier soltou um esgar de satisfação. De mãos em volta da cintura, procurou com o olhar a sua pequena filha. Não a viu. Tudo à sua volta era um aglomerado de fardos de palha, máquinas agrícolas e uma ou duas sacas de ração para os animais. Um comprido gancho servia de elevador para o primeiro andar do celeiro, coberto pelas sombras. Ouviu um ranger de madeira, lá atrás, e viu o seu corpo impulsionar-se para lá.

― Joanne! ― Gritou.

Não obteve resposta. Sentia o sangue a galgar-lhe as veias com mais intensidade. O senhor Perrier era um homem alto, um pouco roliço, um certo quê de camponês na sua postura atarracada. Vestia umas calças de ganga coçadas e uma camisa branca, mal engomada, salpicada por fios de palha e coberta por uns largos suspensórios. Não faria a barba há mais de uma semana. Desde a morte da mãe de Joanne, ele desistira de se olhar ao espelho. Não valia a pena.

Quando circunscreveu o pilar central do celeiro, viu a sua pequena filha, brincando sentada num fardo de palha com um aviãozinho em miniatura. Sorriu para ela, aliviado por ver que ela estava bem.

Nada disse. Limitou-se a ficar ali, vendo-a brincar, contemplando o seu rosto cândido e meigo. Era uma menina redondinha, de cabelo ruivo e pele sardenta. Os olhos eram esverdeados, cor de azeitona. Parecia uma fotocópia da mãe, a mulher que amara. E era a sua singela existência a única coisa que o agarrava à vida. E então, a menina deu pela sua presença e, com um sorriso florescendo-lhe no rosto molhado, exclamou:

― Papa!

 

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