Espada e Cimitarra


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Espada e Cimitarra”

Espada e Cimitarra, de Simon Scarrow, é um hino à liberdade e ao espírito de sacrifício. O meu volume, da Edições Saída de Emergência, é um exemplar com mais de 400 páginas, um intenso combate de ideais e de crenças, uma batalha privada de valores e motivações. Simon Scarrow é um professor apaixonado pela época romana, conhecido do grande público pela Saga da Águia que segue a vida de dois centuriões romanos. Segundo Bernard Cornwell, na minha opinião o melhor romancista histórico da actualidade, não precisava de concorrência como a que Scarrow lhe traz. A meu ver, Scarrow não transmite nem o arrebatamento nem a intimidade que autores como Cornwell, Druon ou Follett nos oferecem, mas posso dizer que o texto dele abunda em detalhes e é competente em toda a sua prosa.

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Capa Saída de Emergência

Espada e Cimitarra é um volume isolado, que relata coerentemente o cerco a Birgu no ano de 1565. A Europa encontra-se extremamente debilitada, com os avanços do Islão e das forças do sultão Solimão. A Ordem de Malta responde como pode, mas será preciso um milagre para travar as investidas do Inimigo. Frágil, a pequena ilha de Malta é a grande esperança não só da Ordem como de toda a Europa, aparentemente em declínio. E o rosto dessa esperança é um homem que há muito foi relegado pela Ordem. Na Inglaterra Protestante vive Sir Thomas Barrett, um opulento senhor que em outros tempos serviu sob as ordens de La Valette, hoje o Grão-Mestre da Ordem de Malta.

Vive mergulhado na resignação do seu destino, tentando esquecer o amor de uma jovem bem-nascida que salvara das mãos do inimigo e por quem se apaixonara, o amor que levara ao seu humilhante afastamento da Ordem, por conta dos votos de castidade que proferira. Não é mais o jovem enérgico e guerreiro que fora em outros tempos, mas sem dúvida continuaria a ser valoroso em comparação com a maioria dos guerreiros que hoje compunham a Ordem. Em dias tão negros para Malta, o Grão-Mestre La Valette envia um pedido escrito a Thomas, pedindo-lhe que regresse pois todos os homens fazem falta.

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In a Hole in the Ground (Magali Villeneuve)

Sentindo o chamamento do dever, o chamamento da honra e da causa por que ele jurou servir, Thomas acede ao pedido, mas antes de partir é ameaçado e chantageado por Cecil e Walshingham, conselheiros e poderosos mestres de espionagem a trabalhar para a Rainha de Inglaterra. Eles obrigam-no a levar consigo para Malta um jovem rapaz, Richard, com o intuito de recuperar um documento poderosíssimo que se encontra nas mãos da Ordem. Sem ter como negar, Thomas Barrett ruma a Malta ao lado deste rapaz, que toma como seu escudeiro, e a relação entre ambos vai atingindo picos de ódio e de verdadeira amizade. Em Malta, Thomas reencontra o amor à causa, velhos amigos como La Vallette e antigos inimigos como Sir Oliver Stokely, mas também Maria, a mulher que lhe roubara o coração. Mais do que pessoas, Thomas encontra uma ilha em estado de sítio, alertas constantes, encontra um amor que julgava adormecido, encontra a causa por que tanto lutou, mas também um vazio de alma enorme que se traduz na falta de fé num Deus pelo qual ele supostamente luta.

É um livro repleto de vivas descrições de batalha, de sentimentos à flor da pele. É um romance consistente, coerente e competente, que alterna as batalhas morais às batalhas de carne e osso com um ritmo crescente. Os principais pontos positivos do livro são a forma como Scarrow encara a história, e como a conta com detalhe, minúcia e solidez, sem perder o foco dos principais assuntos que assolam as mentes dos personagens. O livro tem, no entanto, várias lacunas sob o meu olhar. Precisei de três meses para ler o livro, o que significa que por vezes perdi nele o interesse. Para conquistar o leitor, a competência não chega, é preciso arrebatá-lo, e Scarrow não me arrebatou minimamente neste livro.

Achei que a história poderia explorar outros personagens, e que passagens foram desnecessárias. 400 páginas a debaterem um mesmo dilema de um mesmo personagem é cansativo, e as descrições de batalhas sucediam-se ininterruptamente, quase sem intervalos. Sir Oliver Stokely prometia ser um vilão horrível, mas a sua maldade baseou-se apenas em ódio e mentiras. Cheguei ao final do livro a odiar o protagonista, pela forma arrogante como ele menospreza a causa por que lutou, para ele era apenas viver ou morrer, e lutar para manter vivas as pessoas que amava. Ainda que não acreditasse em Deus, não precisava renegar com tanta força a existência do mesmo. O seu desespero coincidiu com uma falta de fé e uma falta de vontade, e essa amargura resultou no seu desaire. Relativamente à escrita de Scarrow, cumpre mas não nos seduz. Tenciono ler outros livros de Scarrow, mas decididamente, não nos próximos tempos.

Avaliação: 6/10

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