O Palácio da Meia-Noite


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Palácio da Meia-Noite”, segundo volume da série Trilogia da Neblina

Literatura juvenil mascarada de literatura para adultos, ou literatura para adultos mascarada de literatura juvenil? Nem eu mesmo consigo definir este livro, que parece não conseguir adquirir a sua própria identidade, ou é uma identidade para mim tão estranha que sinto dificuldades em defini-la. Carlos Ruiz Zafón é um renomeado autor espanhol, lido em mais de trinta línguas, que atingiu o seu estrelato em 2001 com o seu grande sucesso A Sombra do Vento. Este Palácio da Meia-Noite, no entanto, não me convenceu.

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Capa Planeta Manuscrito
Sinopse:

Um comboio em chamas atravessa a cidade. Um espectro de fogo semeia o terror nas sombras da noite. Mas isso não é mais do que o princípio.

Numa noite obscura, um tenente inglês luta para salvar a vida a dois bebés de uma ameaça impensável. Apesar das insuportáveis chuvas da monção e do terror que o assedia a cada esquina, o jovem britânico consegue pô-los a salvo, mas que preço irá pagar? A perda da sua vida. Anos mais tarde, na véspera de fazer dezasseis anos, Ben, Sheere e os amigos terão de enfrentar o mais terrível e mortífero mistério da história da cidade dos palácios.

Opinião:

Comecei a ler este volume, da Planeta Manuscrito, edição de 2013, no passado mês de Agosto, com curiosidade e com os olhos meios toldados acerca do que falaria ao certo. O livro começou para mim como um enigma, e ao fim das 280 páginas, não fiquei muito agradado.

Em relação à escrita de Zafón, não tenho nada a apontar. Há escritas muito melhores, mas penso que, nesse parâmetro, o autor cumpre bastante bem e consegue cativar os leitores. É a escrita dele, à maneira dele, sem que nesse ponto, me tenha desiludido. A história, porém, deixou muito a desejar, roçando até o infantil.

Começo o livro a conhecer um grupo de amigos num orfanato que têm uma espécie de confraria secreta e um local onde se encontram, algo que me remeteu de imediato para os livros para crianças como Os Cinco ou Uma Aventura. À medida que vou percebendo que os irmãos Ben e Sheere são o centro nevrálgico da obra, congratulo o autor pelo misticismo indiano que nos consegue transmitir. Mas não mais. O livro de Uma Aventura transforma-se numa perseguição – afinal, um assassino incendiário anda à procura dos irmãos e foi por isso que eles foram separados à nascença.

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Ben e Sheere (deviantart)

Surpreendi-me quando percebi que o “assassino” é, na verdade, uma alma penada. Fiquei sem perceber o porquê de separarem os bebés à nascença (as almas não sabem onde estão as pessoas?), o porquê de esse “espectro” negociar com o diretor do orfanato e querer que ele lhe dissesse onde tinha a criança (se ele sabia que o bebé estava lá dentro, não seria fácil para um fantasma entrar no orfanato?), e o mais incrível, mais de uma vez ele fez questão de garantir que chamaria a polícia e tinha influências no poder.

Pode ser algum erro de análise da minha parte, mas a impressão que me ficou foi que o livro estava a tomar um rumo, o autor mudou de ideias e resolveu transformar um thriller num livro de fantasia a meio da obra. O vilão tornou-se cliché de desenho animado, os amigos do protagonista foram tão pouco desenvolvidos que cheguei ao final do livro sem saber quem era quem, e o final do livro foi tão trágico que pareceu ter sido assim propositadamente para “esconder” a infantilidade do mesmo e dar-lhe uma cobertura adulta.

Ainda assim, este foi apenas o seu segundo livro. Darei uma segunda oportunidade ao autor e daqui a uns tempos admito adquirir o seu grande sucesso, A Sombra do Vento.

Avaliação: 3/10

Trilogia da Neblina (Planeta Manuscrito):

#1 O Príncipe da Neblina

#2 O Palácio da Meia-Noite

#3 As Luzes de Setembro

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