Espada Que Sangra: Excerto


Aqui fica um excerto do meu livro “Espada Que Sangra”. Atrevam-se.

Sem título 2

PREÂMBULO

Num tempo remoto, imemorial, nasceu um mundo nu e cru, a que chamaram de Zallar.

Todos os relatos sobre a Zallar primordial foram-se adulterando com o suceder de milénios e milénios onde povos desiguais traçaram as suas próprias culturas e crenças, mas num olhar amplo, a tónica da conceção deste mundo sempre esteve ideologicamente assente na aparição de uma figura omnipotente. Numa era antiquíssima em que tudo o que existia era um imenso oceano, surgiu um ser singular, dotado de um poder alienígena desmesuradamente superior às forças dos seres unicelulares que com ele coabitavam. Este inexorável organismo era tão poderoso, que da sua fúria eclodiu uma imensa explosão marinha, revolucionando o sistema tectónico do planeta. Essa transformação resultou na formação da terra.

Exilando-se do seu domínio náutico, esse ser ufano subiu a solo firme, e como mestre esboçou o plano do que viria a ser a sua magnânime obra de arte. Em três mil anos edificou espinhosas montanhas, pelo seu mundo distribuiu mares fundos e escuros, córregos límpidos como cristal, opulentas florestas de um verde vivo, desertos áridos e pântanos fétidos de fungos; desenvolveu o fogo, o ar, a água e o metal e juntou-lhe uma complexa gama de plantas e de animais. A esse organismo criador chamaremos O Ente, embora muitos tenham sido os nomes que lhe foram atribuídos pelos humanos, deturpando-se de zona para zona e modificando-se com o passar dos tempos.

No equilibrado conjunto que criara, houve uma espécie de animal que reclamou a supremacia: uma ave de rapina gigantesca, de penas brancas, com um bico belíssimo do qual brotavam severas rajadas de fogo: jorros da cor do ouro e do sangue, acompanhados por nefastas nuvens de fumo e de enxofre. Hasteava o seu longo e arqueado pescoço com graciosidade, dobrava-o vaidosamente para a frente e para trás e usava-se do seu fogo essencialmente para a sua própria sobrevivência, queimando animais menores na cada vez mais complexa cadeia alimentar. As dúvidas sobre a existência dessa mítica ave fizeram os humanos chamá-lo de nebuloso, e a beleza com que relatos antigos e imensas pinturas o reproduziam, intitularam-no de feérico. Ainda O Ente não terminara a sua obra, já os nebulosos feéricos imperavam nesse mundo sem fim.

Ao perceber que a sua obra florescia naturalmente e sem a sua influência, o ser criador decidiu que nada mais ali havia a fazer e encontrou um novo caminho: rumou aos céus, deixando o seu mundo ao cuidado de deuses menores – muitas crenças salientaram que esses deuses seriam múltiplas faces do próprio Ente; outras garantiam que os deuses seriam os seus filhos.

O dealbar do homem – não como o conhecemos hoje, não como o imaginamos quando ouvimos a palavra “homem” – ocorreu aproximadamente dez mil anos após a Criação de Zallar. Eram os nebulosos feéricos os donos e senhores do mundo quando eles se revelaram. A maioria das narrações indicam que, percebendo as potencialidades alimentares da terra, pequenos anfíbios e répteis haviam galgado as margens, abandonando o patrono dos mares, enquanto as aves teriam deixado o seu senhor dos céus, buscando subsistência na terra. Os deuses decidiram castigar esses mesmos animais por aquilo que consideravam alta traição e explícita violação dos seus dogmas, e o resultado de um presumível concílio divino abalou as próprias fundações de Zallar. Unindo os seus esforços, os deuses fizeram uma grande tempestade de cem anos se abater sobre Zallar. Oriundo da força singular do relâmpago, emergiu uma nova criatura: exibia um corpo reto, uma cabeça, um tronco, dois braços e duas pernas. Diz-se que todos os animais que abandonaram os seus patronos foram destruídos, e parte dos seus traços físicos foi agregada a esta nova e sublime espécie.

Os Homens Demónio foram a primeira raça de homens. Eram criaturas andróginas, de seios oblongos e sexos viris, com uma cabeça sem orelhas, narinas muito dilatadas e pares de olhos grandes e facetados. Possuíam línguas viperinas, caudas e dentes de réptil e os seus rostos assemelhavam-se a lagartos, embora a sua pele fosse completamente coberta por penas de muitas e variadas cores. Os seus pés eram robustos e adequados para a corrida, muito semelhantes às velozes patas de uma avestruz, distinguindo-se destas pelos quatro dedos que se moldavam em cada pata, unidos por finas membranas flexíveis de aparência viscosa. Por sua vez, os braços dos Homens Demónio eram compridos e cobertos de penas, embora as suas mãos de cinco dedos com unhas fossem próprias de um primata: maleáveis de dobrar e capazes de pegar em objetos. Estes hominídeos não tinham asas para voar, nem capacidade para sobreviver sob a água, pois o pecado de que resultara a sua criação impedia-os de regressarem aos domínios antigos. A forma como estes seres se reproduziam numa fase inicial da sua existência tornou-se um intricado mistério para o humano, um mistério que pode encontrar resposta através da análise detalhada aos mais antigos registos fósseis desta espécie. Algumas versões apostam numa espécie de membrana sexual feminina junto ao sexo varonil do Homem Demónio, o que implicava uma espécie de útero no seu íntimo – o Homem Demónio primordial seria hermafrodita; outras versões, mais consistentes e também mais contestadas, apontavam-no como ovíparo, reproduzindo enormes ovos pela boca. Pinturas rupestres apontam ritos de acasalamento inóspitos, com cânticos, sangramentos e cópulas grupais. Numa época posterior, a natureza desagregou o seu único género, dividindo-os em masculino e feminino. Viveram séculos difíceis, procurando climas favoráveis à sua natureza, mas as contrariedades com que se depararam obrigaram-nos a evoluir, abundando e sofisticando-se na natureza de uma forma exponencial.

Com as suas mãos, os homens aprenderam a fazer fogo. Pegaram em pedras e conceberam as suas casas; nos seus instrumentos rudimentares, e criaram a agricultura; nos seus animais, e inventaram a pastorícia. Usavam-se dos recursos mais básicos para gerar magia – o controlo daquilo que os rodeava. Nesse processo evolutivo, conseguiram um feito imprevisível, que se diz, surpreendeu os próprios deuses. Aprenderam a montar a excelsa raça dos nebulosos feéricos, tornando-os seu transporte, seu tesouro e sua arma. As aves sentiam-se honradas. Os homens sentiam-se triunfantes. Urros de contentamento guturais retratavam a glória que um hominídeo tão primitivo alcançava ao dominar ser tão sublime. O passar das décadas, dos séculos, desvalorizou o gesto, e os nebulosos feéricos foram, gradualmente, perdendo a sua hegemonia. O uso da ave passou a ser um mero – mas importantíssimo – meio de transporte. Como se isso não fosse suficientemente mau, a fome despertou os ímpetos destrutivos dos Homens Demónio. Colónias de abelhas tornaram-se indisciplinadas e agressivas, e o seu mel deixou de ser produzido em quantidades suficientes para alimentar aqueles povos. Culturas de grão pareciam escassear, o mesmo com as plantações de uma espécie de trigo chamado kusfhfur. Quando outras raças de ovíparos e até mesmo de pequenos mamíferos que até ali haviam alimentado os homens se começaram a extinguir, a fome obrigou-os também a caçar os nebulosos feéricos. Deixaram de ser as suas montadas, para se tornarem as suas presas. Em tempos idos, os nebulosos feéricos teriam mostrado resistência, travado uma guerra contra os homens e provavelmente os teriam queimado a todos, mas os homens os haviam adocicado, as aves tinham também evoluído e perdido alguma da sua fúria antiga; e a espécie um dia soberana foi, subtilmente, desaparecendo da face de Zallar. Os nebulosos feéricos extinguiram-se, transformando-se em lenda, e com eles, terminou a Primeira Era do mundo.

Os primeiros tempos da nova economia consistiram na construção das primeiras vilas e cidades. Nelas surgiu a estratificação dos homens em classes sociais e, mais tarde, a conceção do trabalho especializado. O esqueleto do mundo civilizado emergiu de uma densa sequência de obras complexas assentes num profundo conhecimento do cálculo e do nivelamento de terras, das estações do ano e das suas culturas de cultivo. Elaboradas redes de drenagem e sistema de águas, o molde do barro e o trabalho do ferro, assim como o próprio desenvolvimento do seu léxico contribuiram em muito para um incrível crescimento demográfico no centro de Zallar. Na peugada das famigeradas condições de vida que estas sociedades agropastoris ofereciam, povos meridionais confluiram para o centro do mundo, onde os climas temperados já haviam chamado outras tribos e clãs. Tal expansão provocou um choque de culturas que muitas vezes resultou em guerras, mas esse choque promoveu um maior aperfeiçoamento dos seus materiais, utensílios e técnicas. Os Homens Demónio tornaram-se donos e senhores de Zallar.

Os tempos voaram e surgiram outras espécies de hominídeos, sem qualquer vestígio anfíbio, réptil ou aviário na sua fisionomia. Os novos homens – que chamaremos, estes sim, de humanos – cruzaram o oeste, apoderaram-se de terras e viveram as mesmas dificuldades de progresso que os demónios haviam experimentado. Quando se deu o primeiro impacto entre os humanos e os dominantes Homens Demónio, os sentimentos não foram de afeição. Estes já haviam erguido os seus domínios, construído reinos e alcançado uma sofisticação mental notável, muito superior à dos novos homens, e não estavam dispostos a partilhar o que demoraram tanto a construir. Mas os recém-chegados não se subordinaram. Aparentemente, os novos homens evoluíam bem mais rapidamente que os seus parentes, e habilidosas empresas territoriais mostraram o que seriam eles capazes de fazer para reclamar aqueles domínios. Evitando enfrentar os bem armados Homens Demónio em guerras abertas, os humanos montavam ardis estratégicos para se internarem nos muros dos seus inimigos, e quando alcançavam o âmago dos territórios, os líderes demónios sabiam que tinham a sua cabeça em risco e as suas propriedades perdidas.

Tal afronta incutiu nos demónios um instinto de vingança ainda mais acirrado do que alguma vez haviam demonstrado, mas apesar de tudo, eram tão ou mais inteligentes que os novos homens, e os Reis-Demónio uniram-se para o provar. Obstinados na preservação do seu domínio, recorreram a forças mágicas e fizeram despertar as gigantescas serpentes vermelhas dos desertos, que atacaram as povoações primitivas dos humanos. Tais bestas provocaram centenas de vítimas mortais, inflamando nos sobreviventes o seu fogo interior.

O fogo da guerra.

Homens Demónio colocaram de pé novas muralhas, mas as linhas do poder estavam seriamente corroídas. Gourjulea – cerne do mundo –, o centro nevrálgico do seu império, talhado com os emblemas da sua sabedoria, tornou-se o grande alvo dos novos homens. As duas espécies digladiaram-se e muitas raças humanas desapareceram, figurando na História pontualmente, deixando não mais que ténues memórias para os principais povos humanos.

Castelos foram erguidos, armas e armaduras foram forjadas, e os humanos abandonaram os seus modos de vida recoletores, fixando-se em pontos-chave estratégicos para defenderem os seus domínios. Lâminas embateram ruidosamente e o solo foi pintalgado de sangue.

A envolvência de séculos em guerra fez humanos e demónios acabarem por se conhecer mutuamente. Os novos homens começaram a assimilar a cultura dos Homens Demónio, e se fascinaram com as lendas sobre nebulosos feéricos e sobre a génese do mundo, criando as suas próprias versões da História e dos Deuses. A conquista de todo o território pelos humanos marcou o início da Terceira Era. O resultado de todos esses despiques territoriais foi a vitória do ser com maior capacidade de adaptação – o ser humano –, e os impiedosos Homens Demónio, outrora senhores de Zallar e empreendedores dos primeiros castelos e cidades, tornaram-se apenas uma sombra do que um dia foram. Reduzidos a comunidades errantes, nómadas e selvagens, os seus descendentes de penas negras, designados mahlan, começaram a alimentar-se de carne humana, e a espécie regrediu imenso a nível intelectual, afastando-se para os desertos. Já os humanos, herdando os amplos conhecimentos dos antigos Homens Demónio, descentralizaram o seu poder, dividindo-se em grandes cidades-estado, a que chamaram de espadas.

CAPÍTULO UM

Hyldegard

Primavera de 1297

― As Po…ortas do Palácio abriram, Minha Alteza… ― Natonios falava com alguma gaguez, nada a que Lazard Ezzila, a Rainha de Hyldegard, já não estivesse habituada; ele era um velho escravo, um pobre diabo. Mas hoje, talvez tivesse razões para se preocupar. Ergueu-se lentamente da cama e afastou o cabelo dos seus olhos severamente argutos, olhos de um azul celeste e penetrante.

Garras gélidas, chamavam-lhes.

― Como… Por ordem de quem?! ― Quis saber.

― Por ordem de seu… seu amado esposo… ― Os olhos do escravo tremeluziam de hesitação. ― Dois mensageiros hurkk, senhora. Chegaram há pou… pouco.

― Hurkk… ― A Rainha levantou ligeiramente a sobrancelha esquerda, vermelha como um rubi. ― Mandados por Wilhelm, presumo! Obeim precisa de mantimentos.

Por instantes, pareceu mais descansada.

― Mas… se me permite…

O seu criado Natonios servia-a há mais de dez anos, era um homem de temperamento brando, e nunca o vira tão agitado. Mudava o peso de uma perna para a outra e mal se conseguia conter.

― Desembucha… de uma vez.

― … Nun…Nun…Nunca antes os tinha vi…isto. E… e…

― Natonios! ― A voz de Ezzila ampliou-se, reivindicando explicações. Um rosnar surgiu incisivo por detrás da rainha, sublinhando o apelo.

― … Traziam estampado ao peito o bra…brasão de Welçantiah, senhora…

A Rainha franziu a testa e viu Skygga a contorná-la. Era um belíssimo felino com pelo da cor do fogo e um par de proeminentes incisivos arqueados para fora da boca, um “nadinha” ameaçadores. Dava-lhe pela cintura, mas era o suficiente para impôr respeito a quem quer que se aproximasse da Rainha. Ela afagou-lhe a cabeça e sentiu a sua penugem suave como pelúcia; o animal encolheu-se instintivamente e curvou-se debaixo dos seus dedos, regozijando-se ao toque. Fechou os seus olhos meigos e soltou um ténue ronronar. Skygga era um tigre-dentes-de-sabre fêmea, a sua companheira de todas as horas.

Virando costas ao escravo, Ezzila caminhou a passadas largas e vagarosas para a janela de sacada do seu aposento. Envergava um corpete branco de cetim, ligado por três cordões que lhe riscavam as costas, apertando-lhe a cintura e enaltecendo-lhe o contorno dos seios e a elegância das suas curvas. Estava cosido a uma longa saia vermelha, de pregas amplas, que ziguezagueava pelo solo de mármore. Fios em fibra de ouro retorciam-se no seu pescoço, caindo gloriosamente sobre o peito amplo, na forma de um brilhante medalhão de ouro e de prata.

Lançou o seu olhar para lá da janela de frisos boleados, e quando se aproximou da balaustrada, perdeu-o no confuso mar amarelo-escuro de telhados em colmo que se espalhavam ao longo da cidadela. Aquela era a fortaleza que governava, a maldita fortaleza que governava. Nas ruelas enlameadas coabitavam porcos obesos, ovelhas amarelas, e crianças jogavam ao Cavaleiro do Crepúsculo – lenda local –, provocando acidentes à sua passagem. Soldados de armadura cor de prata policiavam as altíssimas pontes de granito, conduzindo com correias metálicas os seus tigres-dentes-de-sabre na patrulha da cidade. Idosos carregavam medas de feno em carroças, mas a condução dos bois em estradas tão íngremes começava a revelar-se problemática para os seus desgastados ossos. Em alguns braços de rocha foram erigidas esplêndidas construções de vários andares, esculpidas com mestria e adornadas com imensas esculturas e realces. Refletiam a sua cultura ancestral; visões assombrosas de monumentos que pareciam projetados pelos deuses.

Hyldegard era uma fortaleza imponente e belíssima, que ficava no topo de uma corpulenta montanha chamada Cabeço do Tigre. As terras adjacentes, sob a égide de Hyldegard, eram férteis e produtivas, desde os socalcos de Ma’arandot até ao delta do rio Bravo, e as muralhas da cidadela eram compostas por ameias em forma de teclas, todas elas guardadas por fortes e corajosos guerreiros. Havia a Porta Leste, bem ao lado do rio, guarnecida por uma imensa porta de aço que funcionava também como passadiço para os que ali entravam, atravessando o Bravo, e quase na outra extremidade, havia Os Portões do Lumiar, a grande entrada em Hyldegard sempre coberta por compridos archotes. Bandeiras brancas com o brasão cosido desfraldavam-se pelo vento, agitando-se do alto das suas hastes compridas, brilhantes como o luar na noite escura.

Localizada a noroeste, uma das maiores fortalezas da vasta região conhecida como Terra Parda – a Gourjulea dos Homens Demónio –, Hyldegard albergava alguns campos que a Rainha concessionava por feudos e burgos. Para lá das muralhas exteriores havia quintas que albergavam celeiros, estábulos e casas de pasto, e nas suas imediações meia-dúzia de aldeias gozava da proteção jurídica e dependência financeira de Hyldegard.

Aquele era um povo forte. Já ultrapassara epidemias de peste, febres raras e outras doenças contagiosas; já sobrevivera a guerras dramáticas, como a célebre Batalha dos Sacerdotes da Segunda Guerra Rubra, que opôs os Reis Clérigos que dominavam as principais fortalezas de Terra Parda. Hyldegard era uma terra tão nobre, que um qualquer leigo nunca haveria de julgar que fora ali lançada a primeira pedra ao Império dos Homens Demónio. Fora ali que o cerne do mundo nascera e se potenciara, foram essas bestas quem construiram aquelas muralhas, e foi também ali que os humanos atiraram os demónios para uma insignificante existência.

No entanto, muitos séculos se passaram e agora vivia-se o gracioso ano de 1297 da Terceira Era. Aparentemente, a integridade do seu povo estava salvaguardada; no entanto, as últimas noites tinham sido tortuosas para a Rainha, escuras gralhas-de-sangue empoleiravam-se nas sacadas, sussurros das sombras faziam-se ouvir nas negras esquinas, e marcas de agouro eram esculpidas em portas de madeira ao longo da cidade. Se Welçantiah mandara mensageiros hurkk, ela previa que algo de muito errado estava para chegar. Tremendamente errado.

Voltou-se de repente para o seu escravo.

― Por favor, Natonios, diz-me que eles ainda não foram embora.

― Não, minha senhora… Estão à sua espera…

― Leva-me até eles.

Com a sua postura curvada, servil, o velho escravo de tonalidade trigueira e débil estrutura óssea anuiu e indicou à sua Rainha para que o seguisse.

O Palácio de Alabastro era um dos últimos vestígios da enorme civilização dos Homens Demónio. Depois da ascensão humana, o edifício fora expandido por duas vezes, primeiro por Reik Maros, e depois por Hengeld, o Rei Clérigo. Durante a Guerra dos Corcéis que opôs os intrépidos marechais de Terra Parda e os frígidos senhores das Terras Altas, o Palácio ardeu, destruindo o seu íntimo e chamuscando grande parte dos seus muros interiores. Os delegados do reino ficaram encarregues de construir o novo Palácio sob indicações do Rei Maskean Pryk, e Urnich Jan foi escolhido como arquiteto após um moroso concurso que durou um mês e três semanas.

Influenciado pela estrutura de palácios consagrados como o Palácio Real do Unicórnio em Welçantiah ou o Palácio de Ouro em Obeim, o arquiteto pretendeu dar-lhe um toque pessoal, eliminando os antigos traços da cultura dos demónios, que se mantiveram mesmo depois de algumas expressivas reconstruções. Logo após a entrega do projeto, procedeu-se à reedificação do Palácio, e os reis foram levados, em segredo, para uma das muitas casas nobres da cidadela até ele ser novamente habitável.

Todo o piso térreo foi remodelado, as varandas adornadas com motivos religiosos, foram erguidas imensas estátuas de deuses e reis e sobre os pátios foram aplicados harmónicos tapetes de relva. Outros detalhes exteriores também foram retocados, como o antiquíssimo peristilo na fronte do Palácio ou a empena a poente. Já o antigo Salão Real foi transformado numa enorme galeria, onde colocaram em exposição os sarcófagos dos perenes reis, e a Sala do Trono foi concebida a partir da antiga Sala dos Tratados.

A Rainha descia uma enorme escadaria, com três aias curvadas a segurarem a cauda do seu vestido e Skygga na sua retaguarda. A luz do exterior esbatia-se nos vitrais cor de ameixa, mas as lamparinas acesas iluminavam o rosto cândido de Ezzila, destacando-lhe a alvura e suavidade da pele, a curva dos seus lábios e a vivacidade dos longos anéis rubros da sua portentosa cabeleira. À volta da sua cabeça envolvia-se um belo diadema de ouro branco, com a efígie nodosa de um tigre-dentes-de-sabre bem ao centro da testa e belos embutidos ao longo de toda a circunferência. A vista esquerda da Rainha era envolvida por um círculo preenchido de prateado, uma risível pintura que simbolizava o poder monárquico em Hyldegard. Azuis como lagos cristalinos, os seus olhos pareciam mesmo líquidos e brilhantes; grandes e expressivos como outrora haviam sido alegres. As rugas de expressão que os ladeavam sublinhavam-lhe, no entanto, aquele charme que só a idade confere.

Para lá dos degraus, Lazard Ezzila fitou um enorme círculo redondo esculpido no solo de mármore branco com a cota de armas de Hyldegard impressa ao centro. Num fundo em padrões losangulares azuis e brancos ficava a cabeça de um tigre-dentes-de-sabre rugindo, com a sua boca tomando a forma de uma romã prateada. Por baixo, um listel branco cantava a frase-lema da Casa Maskean: “A Glória em Garra e Sabre”.

A colossal escadaria do Palácio era ladeada por dois imensos monólitos em basalto negro – as Colunas de Anoris; assim denominadas em honra de Anoris, o primeiro rei humano que governou toda a Terra Parda no início da Terceira Era. A partir da segunda coluna prolongava-se uma aparatosa balaustrada. Compreendia uma série de pilastras e era ornamentada de sinuosas mísulas de pedra e capitéis gloriosos com a forma de belíssimas folhas de acanto.

O teto em estuque era abobadado, de uma sumptuosidade única; e abaixo dele ficavam as janelas: altas, fundas e adornadas por esplendorosos vitrais. A Rainha passou por uma longa galeria coberta por extensas tapeçarias de tons frios e estandartes em pele de veiro. Quem ali entrasse desprevenido por ventura se assustaria com a magnânime coleção de armaduras e cotas de malha expostas; um olho nu e leigo teria a sensação que se tratava de uma fila militar em posição de descanso, pronta a marchar para a guerra. Os mosquetes erguidos sugeriam uma verdadeira rajada de fogo na direção do teto, mas a perceção de que se tratava de um exército esfumava-se depois de analisado o retrato – eram apenas armaduras e armas, e certamente não seria com aquelas tão pesadas armaduras que algum guerreiro teria mobilidade para manejar convenientemente uma arma de fogo.

O uso de armas de fogo era ainda um insondável mistério para a maioria dos leigos plebeus de Terra Parda. Mas Ezzila não era leiga, nem plebeia. Fora o seu pai, há cerca de dez anos, com uma expressão extremamente pálida no rosto, quem lhe levantara a pontinha do velame que escondia um dos mistérios mais escabrosos do último século. O sul de Terra Parda era fértil em tormento negro, uma substância granular explosiva que podia ser encontrada no subsolo. Cinquenta anos atrás teriam sido ideadas condições para usar esta substância com fins bélicos, e vinte anos levaram o projeto da teoria à prática. Com o tormento negro foram criadas munições hoje aplicadas em armas de fogo como canhões, mosquetes, arcabuzes ou revólveres, embora de modo geral apenas exércitos de grandes espadas tivessem autorização para as empregar. A assustadora descoberta desse minério toldara de orgulho irascíveis senhores da guerra, e muitas foram as vidas que se perderam a lutar pela preservação do segredo que envolvia a sua existência.

Muito tempo se passou, deu conta, antes de chegar a mais uma sala ricamente ilustrada. Em frente a duas portas, guardas arnesados dos pés à cabeça apartaram-se, dando passagem à Rainha. Natonios seguia à sua frente, arrastando as suas velhas pernas, manchadas de varizes.

Ezzila continuava a pensar nas palavras do seu escravo. Dizia ele que os mensageiros traziam estampado o brasão de Welçantiah. Seria possível? Não estaria ele a fazer confusão? A idade e os problemas de visão acentuavam-se, seria de todo normal que o velho escravo se tivesse confundido nas insígnias.

Tolice.

Natonios era, de todos, o seu escravo mais esperto e letrado, nunca se iria confundir a respeito de uma das divisas mais respeitadas em toda a Terra Parda. Mas bem no fundo do seu peito, ainda subsistia esse resquício de esperança.

Um súbito odor a limpeza invadiu-lhe as narinas. Junto às janelas que ocupavam quase toda a parede, algumas escravas lavavam os vitrais, não se coibindo, no entanto, a parar a sua lida para contemplarem a beleza da sua Rainha. As pinturas trabalhadas nas paredes e nos altos e abobadados tetos misturavam alusões aos deuses com escudos de armas ancestrais, e eram dotadas dos mais ricos materiais utilizados na época. Na Sala da Luz, retratos opulentos de grandes e faustosos monarcas os observavam. Sempre que ali passava, a Rainha sentia algo de admoestador no olhar de todos eles, fazendo-a recordar-se da responsabilidade que a sua posição social exigia e do peso que os seus antecessores lhe legaram sobre os ombros. Alguns daqueles retratos pareciam mesmo olhá-la com austeridade. No entanto, assim que deixava aquela sala para trás, o alívio tomava conta de si e a sua imensa força interior voltava a explodir. Apesar de aquela ser a sua rotina, as pernas já lhe pesavam ao passar pelos últimos castiçais da Sala Maskean, tesouros do décimo século. Para além de uma antecâmara conhecida como a Sala das Portas, ela podia imaginar o que a esperava.

CAPÍTULO DOIS

Sul de Terra Parda

O homem que os tribais chamavam Moloro mantinha os seus olhos presos no arco da lua quando o assobio do seu homem o pareceu acordar de um sonho.

― Estamos perto! ― Ladrou.

Na sua linha de visão ficava a antiga cidade mercante de Lopp, hoje um amontoado de pedras e ruínas sobre a areia branca e fria do deserto. A Torre dos Mistérios – ou o que restava dela – erguia-se a noventa e oito metros de altura, na extremidade a noroeste do destroço cinza-escuro que fora um dia o Palácio das Especiarias, um tesouro perdido fundado na primeira metade do século V.

O seu homem fitou com impaciência o horizonte, aguardando algum sinal que lhe desse autorização para prosseguir. O camelo onde viajavam pareceu travar ainda mais a sua paulatina marcha; Moloro suspirou. Tal como o homem que o dirigia, envergava uma longa veste com capuz, mas enquanto o traje do seu homem era um exemplar tradicional de lã, o seu era seda vermelha mosqueada, debruada a fio de ouro, o que revelava não só que se destinava a esconder a sua identidade, como também que o seu portador era alguém de ricas origens. Um comprido lenço do mesmo tecido e cor, com fímbrias douradas nas extremidades, cobria-lhe o nariz e a boca, completando a sua discrição.

Que a noite escura me alegre, pensou com sensaboria.

A Torre dos Mistérios aproximava-se, apontando para o céu estrelado com a sua agulha em ferro de cinquenta metros de altura, cercada de uma luz que sublinhava todo o seu esplendor – o reflexo da lua nas suas paredes de pedra e tijolos amarelos. Prostrado aos pés da torre, um lago brilhava ao luar, dando-lhe uma leve sensação de acalmia – um maravilhoso oásis na noite escura. Moloro quase fechou os olhos, mas lembrou-se do que o esperava. Passaram por uma velha arcada em pedra, dos poucos monumentos que resistiram ao fim daquela civilização, e o camelo deu por fim de si, fletindo os seus joelhos de modo a que os dois passageiros pudessem descer em segurança.

As ruínas de Lopp eram o mais seguro local de encontro para operações de espionagem, camuflado sob o disfarce de um povoado ermo, assombrado e habitado por leprosos ostracizados, indígenas e criminosos. Àquela hora da noite, sabia bem, os homens com quem se iria encontrar seriam por ventura mais perigosos que todos esses presumíveis e inoportunos residentes. Ao saltar do camelo para a areia fina do deserto, voltou o olhar para a torre, aguardando um sinal de luz, o produto de um cristal rodado na direção topo norte da venerável Torre dos Mistérios, tal como havia instruído àqueles com quem se esperava encontrar. O vento soprava forte das montanhas setentrionais, levantando cortinas de areia fina e branca na sua direção. Para lá das montanhas ficavam as estepes, e para lá das estepes, a savana. Oficialmente, o homem que os tribais chamavam Moloro estava algures nas estepes, numa grande e intransponível fortaleza que ali fora fundada ainda no tempo dos Homens Demónio, aquela que Anoris O Primeiro tomara para si, a mais importante espada de Terra Parda na era humana e quiçá de toda a Zallar. Oficialmente, o homem que os tribais chamavam Moloro estava na sua terra natal – Welçantiah.

Oficialmente.

Desenhando um triângulo entre si, o castelo de Welçantiah, o forte de Somoros e a cidadela de Tori eram as únicas três espadas no sul de Terra Parda. À sua volta erguiam-se povoados e pequenas vilas que lhes estavam avassaladas. Outrora outras grandiosas espadas, como Lopp ou a vigorosa Sonnor, mais a norte, também teriam tido grande influência no poderio sulista, mas as guerras transformam gloriosas fortalezas em caóticos montes de pedras caídas, e os altivos senhores de tais cidades pagaram com ferro o caro preço da arrogância.

Moloro alisou a sua comprida vestimenta na barriga das pernas quando o seu homem lhe ofertou o cigarro que acendera segundos antes com a chama de uma vela ténue. Fileiras de velas ardiam nas paredes mortas de Lopp, em antigos santuários que os clãs de indígenas tomaram como seus. Lendas antigas garantiam que o fogo acelerava a lepra, como tal acendiam velas e archotes para afastar os leprosos.

Uma luz tremeluziu na sua linha de visão, acompanhada pelo cheiro a óleo e a cera queimada. No entanto, percebeu imediatamente que a luz que lhe brilhou no olhar não provinha de nenhuma vela nem archote, era sim um jogo de luzes que dançava em círculos, abraçando libertinamente a enorme Torre dos Mistérios.

O seu homem aquiesceu e Moloro jurou que ele lhe havia sorrido. Este é fiel. Um dos poucos. Respondeu-lhe com um acenar de cabeça e deu uma última passa no cigarro, atirando-o ao chão e pisando-o em seguida. Lançou um olhar fugaz ao camelo que deixara para trás, amarrado a uma grade meio partida de madeira podre. Hoje é o dia, pensou.

O imponente portão em ferro forjado que o separava do pátio de acesso à torre estava fechado a correntes, correntes ferrugentas mas fortes, e já estava assim há mais de sete décadas. Os mal-amados que ali habitavam não precisavam do portão para entrar nele, como também não precisavam da entrada a ocidente, onde pedras a obstruíam. Seria de admirar que aquela torre tivesse sobrevivido a anos de guerras, à morte dos seus habitantes, ao desgaste e às consecutivas derrocadas. Aquela torre era um mistério – de resto, tal como o seu próprio nome denunciava; havia quem jurasse que fora construída com artes mágicas. Na face sul da torre havia uma escadaria, uma escadaria velha e lascada, mas que conferia o acesso suficiente para que os escuros habitantes daqueles domínios nela se internassem.

No entanto, nem o homem que os tribais chamavam Moloro subiu a escadaria, nem nenhum perigoso habitante o interpelou pelo caminho, nem olho algum brilhou na noite escura. Se houvesse ali algum estranho ser, algo ainda mais maligno o assustara, enviando-o para os recessos sombrios da sua morada.

Moloro não se intimidou. Sabia com quem estava a lidar. Eram velhos amigos e já lidara com eles antes. Noutra vida. Noutra reencarnação.

Ainda os tribais não o chamavam Moloro.

Subiu um curto lanço de degraus e relaxou. Para além de uma antiga porta de madeira empenada, curvada para trás, encontrou a ruína morta de uma casa. Contornou os destroços e seguiu cautelosamente o caminho que lhe fora traçado pela luz, que antes, embatia circularmente ao longo da torre. Espreitou uma última vez por cima do seu ombro, tentando averiguar se alguém o seguia. Até mesmo o seu homem, aquele que lhe era fiel, ficara lá atrás, agora oculto por pedregulhos e montes de areia, embora a luminosidade das velas ainda espiralasse pelo céu negro, indicando a sua localização como um sinal de fogo tribal.

Lentamente, os seus olhos cansados foram-se adaptando à escuridão que invadia o cenário. Pequenos raios de luar pareciam rodopiar pelas pedras mortas, iluminando o seu caminho pejado de sombras. Quando volveu o olhar para a frente, foi surpreendido por uma figura esguia e escurecida, de maxilares fortes e ossos rígidos patentes no seu corpo nu, como uma misteriosa pintura numa enrugada tapeçaria. No entanto, essa ilação foi tirada num segundo olhar, por um par de olhos que já privara com estes seres nesta e em outras circunstâncias. Um completo desconhecido julgaria tratar-se de um fantasma, e apenas registaria os seus olhos grandes e brancos, a sua dentadura apodrecida e o seu risinho mórbido, acompanhado de um conjunto de ossos que faziam dele um quase esqueleto andante de um metro e setenta centímetros de altura. Longos cabelos vermelhos como sangue seco formavam um bico-de-viúvo por entre as têmporas e chegavam-lhe aos pés. Anéis de bronze envolviam-lhe os braços e as pernas e uma argola do mesmo material cravava-se-lhe no umbigo, poucos centímetros acima de onde uma tanga de couro enegrecido lhe cobria os genitais. Letras e símbolos retorcidos estavam-lhe tatuados na pele, uma pele empoada de branco, que não disfarçava o escuro do seu tom natural. Segurava uma pontiaguda lança por entre os nodosos dedos negros da mão esquerda, enquanto que, na direita, abrigava um pálido e reluzente cristal.

― Terek gaga’la! ― Exclamou Moloro.

― Galush gaga! ― Respondeu a criatura, completando uma espécie de senha que existia entre ambos.

― Leva-me ao teu amo. ― Pediu, no dialeto tribal.

Com dois dedos, o estranho indivíduo assobiou e dois outros semelhantes a ele acercaram-se do homem que chamavam de Moloro. Pegaram-lhe nos braços e com esgares e ruídos guturais incitaram-no a prosseguir, embora ele não parecesse minimamente agradado com tal persuasão.

Deixaram a cidade arruinada para trás, e caminharam durante cerca de vinte minutos sobre dunas e mais dunas de areia, até Moloro julgar que já haviam passado a fronteira de Terra Parda e entrado nas calorosas Terras Quentes. Sabia que vastas áreas de montanha, que chamavam Lábios de Salamandra, sinalizavam as fronteiras de Terra Parda desde o Mar Velho, no norte, dobrando-se como uma garra para separar Terra Parda das Terras Quentes, mas só até certo ponto; num determinado local, os desertos do sul de Terra Parda confundiam-se com os desertos do norte das Terras Quentes, e nenhuma fronteira era sinalizada por homem ou por deus. Todavia, Moloro e os tribais apenas se tinham deslocado ligeiramente para leste. Oculto sobre dunas de areia, um acampamento de pavilhões de couro fora montado, da maneira mais primitiva que conhecia. Passou por tendas e mais tendas, sob os olhares gélidos e cruéis de escuros rostos entumecidos pela violência a que chamavam de rotina, rostos transpirados de bile, cobertos de um pó branco como farinha. Enquanto arrepiavam caminho por entre fileiras de tendas cujo couro desgastado remetia para peles de camelo curtidas, Moloro identificou uma enorme tenda que se destacava como um totem imperial vários metros à sua frente.

A tenda de Gogo, reconheceu. Não precisou chegar lá para perceber que era ali que o levavam. Ele já lá tinha estado. Noutro local, sim, mas naquela tenda. Quando a aba foi aberta, um facho de luz serpenteante atraiu-o para o seu íntimo. Os homens que o conduziram até ali deram-lhe passagem, e permaneceram no exterior.

O interior da tenda era quente e acolhedor. Um grande braseiro de cobre fora aceso, iluminando também precariamente o local. Biombos de madeira estavam dispostos ao longo do pavilhão, e tapeçarias toscas cobriam o solo. Quatro estacas de madeira foram erguidas do chão a mais de um metro de altura, e nas suas pontas estavam cabeças. Cabeças humanas, em número de quatro. Cabeças de tribais.

Gentes do Crepúsculo, sabia.

Se o homem que os liderava era capaz de fazer aquilo aos que o acompanhavam, ele podia bem imaginar o que faria a outro alguém, alguém que sonhasse em traí-lo.

Ainda assim, o que sentiu foi respeito. Nem uma pontada de medo. Uma grande pele de cabra fora esticada ao centro da tenda, bem iluminada por altas e retorcidas línguas de fogo. Nela encontrava-se o mapa de Zallar como o conhecia. Em boa verdade, aquele mapa fora um presente seu, fazia-lhe jeito que aqueles tribais conhecessem pormenorizadamente a cartografia zallariana; fazia parte dos seus planos. Demorou-se por breves segundos a fitá-lo. O seu programa sombrio e ambicioso fazia tanto sentido naquele momento, tentadoramente todo o sentido.

Sorriu ao contemplar os seus três continentes: as imensas e escarpadas Terras Altas no norte; a assustadora Namantisqua, continente-nação de grandes dimensões banhado pelo Mar Velho; e o terceiro continente, ligado às Terras Altas pelas Cordilheiras Bravas e a Namantisqua pelo Istmo de Morrìga. Neste continente, ficava o maligno Deserto de Ossos, a sul do istmo, que fazia fronteira com Terra Parda a leste e com as Terras Quentes a sul.

O continente das Terras Altas era uma inexorável massa de terra musculada, coberta de espinhosas montanhas. Ali, as poucas condições de cultivo arrastaram os seus habitantes para o litoral, onde fundaram uma série de importantes centros mercantis e conquistaram ao longo dos séculos o Mar Tétrico onde ainda hoje viviam numa severa talassocracia.

O segundo continente, Namantisqua, era uma terra sombria, que se dizia lar de forças obscuras, outrora nação de grandes glórias e riquezas que perdera muito do seu fulgor no início do terceiro século da era humana, quando uma violenta rebelião de escravos destroçou uma significativa fatia do seu império. Ali, dizia-se que o aço ganhava vida, e que o seu próprio rei morrera uma centena de vezes. Para os estrangeiros, aquela região tornara-se prenúncio de aziagos desfechos.

Mais a sul ficava o Velho Continente, onde Terra Parda e as Terras Quentes adquiriram a ferro as suas identidades. Enquanto Terra Parda – tradução literal de Gourjulea, o nome adotado pelos ancianos Homens Demónio –, sempre fora almejada pela sua fertilidade, as Terras Quentes eram uma zona tropical próspera em montanhas, desertos e florestas. Durante séculos os seus habitantes resistiram às sucessivas investidas dos povos de norte para as conquistar, as suas maravilhas povoavam as canções e os sonhos de todos os humanos; mas em 1276 a Casa Ameril conseguiu por fim tomar todas essas terras pela força e Ameril Ozilliar III uniu-as sob o vermelho estandarte de Welçantiah. Mais tarde esse domínio perdeu-se, embora as principais cidades-estado das Terras Quentes lhes continuassem avassaladas. Os desertos a oeste – bem, esses eram muito menos ambicionados; pelo contrário, eram temidos. O Deserto de Ossos era tormentoso e parecia infindável. Quem sobrevivesse às tempestades de areia e às árduas temperaturas, decerto não sobreviveria aos instintos necrófagos dos clãs mahlan e de outras temíveis criaturas que ali habitavam, como as mantícoras-vermelhas ou os assustadores besouros-de-sombra. No local onde Lábios de Salamandra separavam o Deserto de Ossos de Terra Parda podiam ver-se três barras que se assemelhavam às falanges de um dedo. Eram as três grandes muralhas da Liga Parda, localizadas nas proeminentes montanhas fronteiriças: a Muralha de Myok, a Muralha de Raos e a Muralha de Snitt-Woles, assim denominadas em honra de três grandes generais de Somoros, Hyldegard e Welçantiah, respetivamente, que tombaram nas cruzadas mahlan antes de o tratado que unira as solenes espadas de Terra Parda na defesa das fronteiras ter sido selado. Tais muralhas protegiam as entradas de Terra Parda das vis criaturas, assim como definiam a sua fronteira.

― Gara’ri. ― Ouviu uma voz rouca, que o despertou de um quase transe. Belíssimo, significava essa expressão. No entanto, por mais que os seus olhos procurassem, não encontrava a origem daquela voz.

O homem que os tribais chamavam Moloro sorriu, com o seu sorriso de gelo.

― Um bocado esfarrapado de tecido. ― Respondeu no idioma tribal. ― Nada que eu chamasse de bonito. Mas de onde este saiu, muitas outras belezas poderão advir. ― Seguiu-se um segundo de silêncio. ― Isto claro, se os seus homens se portarem bem.

Uma gargalhada sórdida jorrou da parte de trás de um biombo, quando um indivíduo escuro de ombros estreitos e braços musculosos, torquéis de bronze em ambos os pulsos e presilhas de osso nos tornozelos assomou com uma pequena arca entre os dedos ossudos. Uma capa de viagem, alaranjada pelas chamas do braseiro, cobria-lhe os ombros, e uma tanga de couro, as partes íntimas. Letras ornamentais estavam-lhe tatuadas no peito musculado de mamilos amplos, e longos cabelos vermelhos-escuros lisos e brilhantes escorriam-lhe até aos pés. O seu rosto estava oculto por uma grotesta máscara de bronze, onde uma comprida língua rodopiava pela perene expressão facial com uma perversão medonha. Os reflexos infernais do braseiro tornavam a anteface ainda mais assustadora. Através da máscara, um par de olhos vermelhos vibrava de sevícia e malvadez.

― Homens de Gogo’mol portar-se sempre bem. ― Respondeu, num surpreendente idioma terrapardiano bem arranhado. ― Deixar sempre… alguns pescoços partidos. ― E voltou a gargarejar.

Depositou vagarosamente a elegante arca que tinha entre as mãos sobre uma grosseira tapeçaria no solo, tão grosseira quanto o seu proprietário (neste caso, a palavra “grosseira” era deveras um enorme elogio). Moloro sentou-se lentamente no chão, com as pernas cruzadas. A arca côncava era acácia envolvida por fios de bronze, nove centímetros de altura por dezoito de comprimento e onze de largura, com uma superfície lisa e polida na qual dançavam os reflexos multicoloridos das labaredas. Sobre ela estava embutido um flamingo de latão, cujas patas escorriam para a fachada da arca formando nela a sua graciosa fechadura. De um qualquer esconderijo na sua cintura, o tribal retirou uma pequena e delicada chave de bronze, com o cabo minuciosamente trabalhado na forma de uma cabeça de carneiro. O olhar de Moloro cintilou, e lentamente aceitou o presente que lhe era ofertado, penetrando a chave bifurcada na sua bela fêmea, fazendo-a rodar com um chiado agudo. Com um prazer absoluto espelhado no rosto, ouviu o trinco gemer. O homem que os tribais chamavam Moloro pegou cuidadosamente nas patas do flamingo e torceu-as para cima, abrindo com um clack elegante a tampa da arca. No seu interior, uma belíssima gema vermelha com a forma de um grande ovo de avestruz chamava-o para si, revelando pequenas nervuras ao longo da sua superfície. Moloro ficou momentaneamente arrebatado, compelido a tocar-lhe, mas quando passou com um dedo por um veio da sua curvatura, a gema brilhou, um brilho incandescente que o deixou cego por meio segundo. Afastou imediatamente os dedos do ovo e fechou a arca logo em seguida, certo de que o homem à sua frente poderia ficar alarmado com aquele poder; algum tipo de mágica anciana morava ali dentro. Fingiu um galante sorriso e, sabendo que estava a caminhar em terreno pantanoso, soltou.

― Admirável trabalho, meu amigo. Admirável. ― O tribal silvou em resposta.

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