As Origens de Zallar #1 : A Guerra Entre Irmãos


Uma longa paz bestializa o homem, fá-lo feroz. Uma longa paz gera sempre a crueldade, a vileza, um grande e boçal egoísmo e uma suspensão intelectual. Fiódor Dostoiévski

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada Que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

É cliché iniciar uma obra que vai beber aos recessos sombrios da Antiguidade a sua quota-parte de inspiração com uma tão tradicional guerra entre irmãos pelo poder. Mas a linha que separa o cliché do verosímil é por vezes bem ténue. Nunca me propus, enquanto escrevia Espada que Sangra, a escrever algo em que as pessoas acreditassem, nunca foi o meu principal objetivo fazer o público considerar aquela história real, embora lá no fundo sempre a tentasse fundamentar; se queremos que a nossa história “pegue”, há que manter a coerência acima de tudo, e estas “Histórias Vermelhas de Zallar” são uma história coerente e fundamentada, quer em cronologia, quer em acontecimentos. Foi um trabalho árduo, que hoje muito me apraz trazer até vós.

Se as guerras entre irmãos são um tema tão corrente em histórias baseadas em regimes monárquicos, são também uma matéria produtiva, capaz de fazer qualquer autor escrever n livros sobre esse tema. Espada que Sangra é, acima de tudo, um livro que explora estas quezílias de sempre.

queda dos titãs

Queda dos Titãs, Cornelius van Haarlem, 1588. Museu Nacional da Dinamarca

As origens deste tão dramático confronto entre irmãos está presente em mil e uma histórias da Antiguidade, seja em mitologia ou realidade. Os primeiros registos sobre a tão afamada “clash of titans” que relata a guerra entre “deuses irmãos” – os Titãs da mitologia greco-romana – provêm do poeta oral Hesíodo e do seu poema épico “Teogonia”. Nele percebemos como nasceram os deuses gregos. No início, os Titãs eram os entes mais poderosos do cosmos. Urano e Gaia conceberam as primeiras criaturas que existiram no universo, os Titãs. Eram gigantes como Oceano, Temis, Mnemósine, entre outros. Cronos, o tempo, era o mais jovem de entre eles, mas avolumou o seu poder e tornou-se Rei de entre os Titãs. A pedido da sua mãe Gaia, castrou o pai Urano com uma foice – o malandro – e assim se tornou o senhor dos céus. Cronos correspondia ao romano Saturno e o seu nome foi alvo de inúmeras interpretações ao longo dos tempos.

Zeus foi o fruto da relação de Cronos com Reia, sua esposa e irmã. Nascido em Creta, fora entregue em segredo a Gaia, que se encarregara da educação do pequeno, protegendo-o da vontade inequívoca de Cronos em devorar a sua descendência. Desse jeito, determinado em comer o próprio filho, Cronos engoliu uma pedra envolvida em panos, mas a verdade é que fora enganado e Zeus continuou bem vivo. Assim, foi educado para reclamar o seu destino à frente do Olimpo. Depois de preparado para tal, percebeu que não tinha ainda poder o suficiente para enfrentar nem os titãs nem o pai, e elaborou um laborioso plano que incluiu disfarçar-se de viajante, dando ao progenitor uma poção que o fez vomitar os irmãos, que haviam também sido engolidos por ele. Numa fase posterior, Zeus viajou até ao Mundo Inferior onde libertou os tios Ciclopes e Hecatônquiro, irmãos de Cronos de quem este tinha secretos receios. Com a ajuda dos tios, e armado por eles, Zeus organiza os irmãos e os seus exércitos invadem o Monte Olimpo, dando-se uma violenta guerra que destronou os Titãs e fez de Zeus o Rei dos deuses, banindo definitivamente os Titãs para o Tártaro.

Parecia, ouvindo e vendo tão grande bulha e luz, que a terra e o céu se confundiam, pois era enorme o tumulto da terra esmagada e do céu a se precipitar sobre ela, tal o barulho da luta dos deuses. Ao mesmo tempo, os ventos, sacudindo-se, erguiam o pó, o trovão, o relâmpago, e o raio ardente, armas do grande Zeus, e levavam o brado e os clamores ao seio dos combatentes; e no incessante fragor da espantosa luta, todos mostravam a força dos seus braços. Hesíodo, Teogonia

Mas não é apenas na Antiguidade Clássica que encontramos relatos de irmãos inimigos. O próprio Antigo Testamento fala-nos sobre essa inveja e ciúme de que Goròn é vítima em Espada Que Sangra. O Livro do Génesis conta-nos que Adão e Eva tiveram dois filhos, Caim e Abel. Enquanto o mais velho se tornou um lavrador popular e agraciado, o mais novo, Abel, cuidava dos seus rebanhos humildemente. Quando chegou a hora de fazerem ofertas a Deus, Caim oferecera frutos, enquanto Abel oferecera uma ovelha, a primeira do seu rebanho. Deus aprovou a oferta de Abel, mas renegou a oferenda do seu irmão Caim. Embora a “escolha de Deus” seja alvo de um forte diálogo especulativo que aponta diretamente aos polémicos ritos de “sacrifício animal” que más interpretações religiosas têm disseminado pelo mundo ao longo dos tempos, essa repulsa fez despertar uma forte inveja e ciúme em Caim, de tal modo que planeou e organizou a morte do irmão durante uma caçada. Como todos devem saber, Caim matou Abel. Segundo o Génesis, Deus castigou-o, tornando-o uma alma errante pelo mundo desertificado, marcou-o com o signo de Deus, o símbolo que o identificava como filho de Adão, de modo a que ninguém o tentasse matar, prolongando assim a sua punição. Foi esta narração sagrada de Caim e Abel que serviu de base para a conceção dos personagens Goròn e Hymadher. É certo que se explorarem bem a história bíblica podem encontrar algumas respostas para o futuro de ambos os personagens. Mas com cuidado… as inversões são muitas.

À direita do Rei, Goròn parecia impermeável, com o seu rosto grave e enigmático fechado num sorriso dúbio – uma expressão que sugeria ardil. Hymadher era dois anos mais velho que Goròn, e conhecia-o o suficiente para saber que a sua mente matutava constantemente em sórdidos e vis esquemas, alguns dos quais gerados com o intuito de o prejudicar. Espada Que Sangra, Nuno Ferreira

Outra clara inspiração para esta relação Hymadher / Goròn foi a dualidade Osíris / Seth presente na mitologia egípcia. Segundo a cultura egípcia, no início dos tempos havia Nut e Gheb, o céu e a terra. Da sua relação nasceram quatro deuses: Osíris, Ísis, Neftis e Seth. Eram todos irmãos, mas Osíris uniu-se a Ísis e Seth a Neftis. O deus Seth era um ser invejoso e maléfico, senhor dos desertos. A significância do deserto em Zallar provém dessa carga negativa, os desertos que significam sede, fome, desespero, a morada dos hediondos mahlan e besouros-de-sombra, e também o local onde foram travadas guerras ao longo da História Zallariana. Uma alegoria para o caráter de Seth: ele é o deus da violência, da guerra e da desordem. Segundo as crenças egípcias, Seth, por ciúme, assassinou o irmão Osíris, dividindo o seu corpo em 14 fragmentos e espalhando-os por todo o Egito. Com os seus poderes divinos, Ísis transformou-se em abutre e procurou os pedaços do esposo. Localizou-os um a um e deu-lhe de novo vida, apenas o tempo suficiente para fecundar o filho de ambos. Esse filho era Hórus, que, desejoso de vingar o pai, lutou arduamente com Seth até o aniquilar. Foi a vitória do Bem contra o Mal. No entanto, esta é apenas uma versão da história. Todavia, em algumas regiões, havia os adoradores do deus Seth, que tinham a sua própria versão dos acontecimentos, um ponto de vista a reter para que não nos esqueçamos que na vida nem sempre há uma linha reta a separar o bem do mal.

Seth

Mas nem só de heranças bíblicas e mitológicas esta relação entre irmãos foi buscar as suas influências. Há relatos históricos de reis que foram assassinados por irmãos ciumentos, e acima de tudo invejosos pelo seu poder, como é o caso de Pedro I de Castela, assassinado pelo irmão Henrique após a guerra civil espanhola que o opôs aos bastardos do pai. Em Espada Que Sangra apresento-vos Ameril Hymadher como um rei respeitado pelo seu povo, um homem honrado, íntegro e seguro das suas convicções, escondendo através da frieza de comportamento as inseguranças, a constante dúvida sobre a qualidade das suas ações e acima de tudo sentindo nos ombros o grande peso do legado de Ameril Ozilliar III. O seu pai fora um rei em tudo grandioso, que conseguira o feito incrível de conquistar as maravilhosas Terras Quentes sob um único estandarte no ano de 1276 da terceira era. Ozilliar fora um pai rígido mas dedicado, que fizera tudo o que estava ao seu alcance para fazer de Hymadher, o seu primogénito, um rei tão bom quanto ele o foi. No entanto, ao apostar todas as fichas em Hymadher, Ozilliar esqueceu-se que tinha um outro filho, Goròn, vítima de uma doença rara, órfão de mãe, e negligenciou-o, desprezou-o e maltratou-o. Quando morreu, Ameril Ozilliar deixou dois filhos. Um com um legado demasiado pesado sobre os ombros, o outro completamente subjugado pela amargura, pelo desprezo doentio pelo irmão, pela extrema negligência do seu pai. Dois filhos e um único trono. Dois filhos completamente diferentes um do outro. Dois filhos a quererem ser reis. O esquema montado por Goròn para assassinar o irmão Hymadher foi incrivelmente bem planeado, mas com algumas falhas pelo meio. Será que Hymadher conseguirá manter-se vivo? Essa é uma pergunta para qual apenas eu tenho a resposta. Por enquanto.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas, que por sua vez tinham sido retiradas de livros como a Enciclopédia Larousse, a Coleção Grandes Enigmas da Humanidade do Círculo de Leitores e a nem sempre fidedigna mas sempre muito útil Wikipedia. 

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