As Origens de Zallar #2: A Ascensão de uma Rainha


“Em política, os aliados de hoje são os inimigos de amanhã” Nicolau Maquiavel

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada Que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

No outro dia perguntaram-me em quem é que eu me tinha inspirado para construir uma mulher tão rica em personalidade como Lazard Ezzila. É claro que primeiro pensei antes de responder, muitas vezes crio personagens sem me inspirar em ninguém e quando me fazem estas perguntas corro um sério risco de me entaramelar e dar respostas genéricas como: “não sei bem, não me inspirei em ninguém em particular”, o que grande parte das vezes não deixa de ser verdade. Mas no caso específico de Ezzila, houve sim uma série de mulheres que me levaram a criá-la. Em primeiro lugar, e como a imagem visual é sempre aquela que mais nos marca e aquela a que vamos beber alguma inspiração no instante inicial do processo de criação, construí esta “rainha de espada” combinando o tom doce e sensual da personagem Esther de Haya Haraheet no clássico Ben-Hur de 1959, com a realeza e magnificência visual da Cersei Lannister interpretada por Lena Headey na série de tv Game of Thrones de 2011. Não me baseei diretamente em nenhuma das duas atrizes para dar forma física a esta personagem, embora tenham indubitavelmente algo delas. Mas este artigo não é sobre o físico, e sim sobre a história e intelectualidade desta Rainha, e das rainhas a que eu bebi e continuo a beber influência para escrever as suas peripécias.

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Um histórico de rainhas de personalidade forte invade desde logo o nosso imaginário, desde as rainhas mitológicas às de carne e osso. Podia enumerar um sem número delas: a Semirámis das lendas persas, que alegadamente fundou a Babilónia e reinou sobre toda a Ásia, a enigmática Rainha de Sabá que se apaixonou pelas prometedoras histórias do Rei Salomão, presente na Tora e no Antigo Testamento, a Fada Morgana das lendas arturianas, a egípcia Nefertiti que se tornou um marco indelével na História como a mulher por detrás do faraó Akhenaton, a Rainha da Sérvia Draga Obrenovic que tal como a nossa Ezzila viu toda a sociedade ir contra o seu matrimónio com o rei e um dos seus progenitores (no caso de Draga a mãe) ser exilado, ou a inglesa Filipa de Lencastre, que se casou com o nosso D. João I e gerou a Ínclita Geração, e com ela uma chuva de promessas adornadas de glória. Mas se Lazard Ezzila tem um pouquinho de todas estas mulheres, mais por coincidência do que por direta influência, existem três grandes mulheres em quem revejo a personagem principal da minha narrativa, e é o paralelismo entre elas que irei estabelecer neste artigo: Xerazade, Ranavalona III e Ana Bolena.

Comecemos por Xerazade. A antiga lenda persa fala-nos do Rei Shariar, que fora traído pela esposa e então decidiu matar a adúltera e o amante. Não satisfeito, obstinou-se na ideia que todas as noites iria casar com uma nova mulher, e na manhã seguinte condená-la-ia à morte, para não dar azo a que o traíssem. Cumpriu esse ritual e prolongou-o por três penosos anos. Assim foi até que Xerazade, a filha do primeiro-ministro, teve uma ideia que poderia parar essa matança. Decidiu casar com o Rei, e na noite de núpcias, ouviu a sua pequena irmã a chorar. Convenceu o Rei que a sua irmã não conseguiria adormecer sem que ela lhe contasse as suas histórias, ao que o Rei acedeu e convidou a pequena irmã de Xerazade a entrar no seu quarto. Quando a nova Rainha começou a contar uma história, Shariar não achou muita piada e mandou a pequena “ir pastar caracóis”, mas parece que Xerazade conseguiu ser convincente e quando a pequena adormeceu, já o Rei estava rendido às suas histórias e queria ouvir mais e mais e mais. E continuou a querer ouvir as suas histórias até ao amanhecer. Quando ela julgou que era a hora de ser executada, Shariar mudou de ideias, porque estava maravilhado com as suas histórias e queria ouvir mais. E assim se prolongou noite após noite, e essas histórias inventadas por Xerazade ficaram conhecidas como As Mil e Uma Noites, porque Mil e Uma Noites de histórias depois, ela confessou-lhe que não tinha mais histórias para contar. Bateram à porta e ela julgou ser os homens do Rei, mas era a sua pequena irmã com duas crianças ao colo. Xerazade contou-lhe que eram os seus filhos. Ele estivera tão obcecado com as histórias, que nem dera conta que tivera duas maravilhosas crianças. Ela parecia disposta a ser executada, mas o Rei percebeu que não podia viver sem ela e viveram felizes para sempre.

 A sabedoria das mulheres não é raciocinar, é sentir. Immanuel Kant.

Então de que forma podemos dizer que esta Xerazade está de alguma forma relacionada com a nossa Ezzila? Para além dos progenitores de ambas fazerem parte do governo do Rei vigente, tanto uma como outra renunciou à sua vida pessoal para se casar com o monarca; no caso de Xerazade ela abdicou de uma vida estável na tentativa de parar a matança do rei, um sacrifício extremamente simbólico – a atitude do Rei Shariar em assassinar as mulheres pode ser vista como um ato machista, em contraste com a perspetiva heróica feminista de uma mulher a sacrificar-se num plano sem margem de erro por todas as outras que seriam certamente executadas. Já no caso de Lazard Ezzila deparamo-nos com um sacrifício de sangue. A jovem não abdica de uma vida estável para salvar ninguém, o seu pai é condenado à morte por ofender o Rei e muito certamente a posição de Ezzila na corte não se tornaria nada agradável. É aqui que ela intervém e entrega-se ao Rei em troco da vida do seu pai. E foi exatamente aqui que o leitor encontrou um paradoxo: Ezzila sacrificou-se realmente para salvar o seu pai, ou para se salvar a si própria? E atrás desta questão, muitas outras florescem. Se a vida do seu pai foi poupada, será que pai e filha se voltaram a encontrar? Será que a relação pai/filha se desmoronou, ou como é que ambos conseguiram lidar com isso?

Ao ver o seu pai perto da morte, ela tomou uma decisão que iria mudar radicalmente a sua vida. Abdicou do futuro que gizara para si, abdicou da sua integridade física e mental, disposta a se casar com o soberano. Pediu uma audiência ao Rei, e propôs-lhe matrimónio – descaradamente – em troca da vida e da segurança do seu pai, sem meias palavras nem cabeças baixas. Essa atitude surpreendeu tudo e todos, levou os conselheiros do reino a exigirem punição, meio mundo se mostrou escandalizado e outro meio gargarejou com o seu atrevimento. Espada que Sangra, Nuno Ferreira

Não vou dizer que me inspirei em Xerazade para criar esta Ezzila. Estaria a mentir. Se há pontos das suas histórias em que eles se tocam, é no intenso simbolismo que o sacrifício da rainha persa lhe confere, tendo em conta a obliteração do papel da mulher no mundo árabe. O orgulho feminino que esta Xerazade exibe nas suas ações é um perfeito espelho do orgulho feminino na intricada redoma islâmica. Um reflexo, um oposto, uma inversão. Face à completa falta de liberdade da mulher árabe, surgem estas histórias, na minha análise, profundamente simbólicas, como a resposta à realidade. Na ficção, a mulher tem o seu papel, ao contrário do que os homens de carne e osso parecem esquecer. Foi dessa inversão que brotou Lazard Ezzila. Uma mulher consciente, uma mulher de garra, de Garras Gélidas, o paradoxo da protagonista frágil e desprotegida. Esta mulher sofre de bipolaridade, atravessando momentos de extrema depressão e fragilidade, para depois demonstrar ser um verdadeiro furacão. A mulher que, tal como Xerazade, encantou o coração do Rei. E fê-lo bater mais depressa.

RANAVRanavalona III foi a última rainha de Madagáscar. Lutou arduamente contra o governo francês e os seus interesses coloniais, e tentou potenciar a sua pátria com alianças comerciais e políticas com o Reino Unido e com os Estados Unidos da América. O seu poderio terminou quando a França conseguiu levar por melhor as suas intenções em 1895, conquistando Madagáscar e a sua capital. Nesse entretanto, Ranavalona tratara um acordo com os franceses, valendo-lhes favores mercantis e abrindo-lhes novas rotas de comércio, para além de lhes facultar as ilhas de Fort Dauphin, Ilha de Saint Marie e Ilhas Reunião. Aproveitando essa janela de oportunidade, os franceses avançaram para a conquista de Madagáscar, derrotando Ranavalona no seu palácio. Foi mantida na corte durante algum tempo, em que a julgaram inofensiva e capaz de conciliar o povo colonializado, mas densas suspeitas de intrigas palacianas levaram a uma decisão mais drástica e Ranavalona foi condenada ao exílio. Morreu em Argel, aos 55 anos, vítima de uma embolia.

Poder-se-ia jurar que esta mulher tem muito pouco de Lazard Ezzila. Poder-se-ia jurar erradamente. Pesquisei um pouco sobre esta mulher ao longo do trabalho de conceção do personagem. Tal como Ranavalona, Ezzila é uma mulher de personalidade fortíssima, uma Fortaleza Humana, como o livro bem revela. Mas mais do que isso, ambas têm em comum terem casado com um homem experimentado em governação, por conveniência. Se após a morte do Rei Olegos, Lazard Ezzila se viu em “maus lençóis” em termos governativos, o que a obrigou a casar com o primeiro-ministro pouco depois, também Ranavalona, uma jovem sem qualquer experiência de governo, destacada entre várias para suceder à anterior rainha, viu-se obrigada a casar por conveniência com o homem forte do seu governo, o seu primeiro-ministro. Tanto Ruth Amarion, em Espada que Sangra, como Rainilaiarivony, o esposo de Ranavalona, foram os soberanos de facto dos seus estados, implementando medidas ativas que fizeram as suas sociedades prosperar. Mas se Ruth Amarion é um indivíduo de interesses vis e sombrios, não me é dado a conhecer qualquer informação sobre a índole deste Rainilaiarivony.

ANA

A outra mulher em quem fui buscar alguma força para a construção desta personagem foi a inevitável Ana Bolena, a “rainha dos mil dias”. Filha de Thomas Bolena e de Elizabeth Howard, foi dama de honra da rainha Claudia de Valois, ocupando posteriormente o mesmo papel na corte inglesa. Membro do séquito da rainha Catarina de Aragão, não foi difícil despertar o interesse do seu marido Henrique VIII, o Rei, que vivia martirizado por não conseguir conceber um filho varão. Depressa Henrique se apaixonou pela dama de companhia de Catarina, e essa paixão fê-lo tomar uma atitude pioneira na monarquia inglesa, decretando o divórcio da sua esposa para se vir a casar com Ana no ano de 1533. O processo de divórcio não foi pacífico, Catarina não o considerou válido e a Igreja entrou em convulsão, gerando o cisma inglês que levou o Anglicanismo a tornar-se a doutrina oficial em Inglaterra. Ana, que fontes menos canónicas garantem ter tecido uma intrincada intriga para afastar Henrique de Catarina e tomá-lo em seus braços, tornou-se Rainha de Inglaterra, mas nem ela conseguiu gerar um filho varão ao Rei. Como o feitiço muitas vezes se vira contra o feiticeiro, aconteceu-lhe o mesmo que a Catarina, Henrique apaixonou-se por uma das suas damas de honra, Jane Seymour, e afastou-a do trono, obcecado pela ideia de sucessão. Ana foi acusada de heresia, incesto e adultério. Foi presa na Torre de Londres e decapitada no ano de 1536.

Muitas foram as histórias que se contaram sobre Ana Bolena, e sobre o seu indizível poder de sedução. Lazard Ezzila pode ter pouco desta rainha que caiu em desgraça, mas não posso negar que a força de tal personagem histórica teve a sua influência nesta mulher de punho de aço. Foram, acima de tudo, mulheres de coragem, com defeitos e virtudes, dotadas de uma determinação esmagadora, que me levaram a conceber Ezzila, a Rainha do Trono do Tigre, a Fortaleza Humana. A mulher que se casou com um homem enorme e horrível para salvar a vida ao seu pai, a mulher que se voltou a casar com outro homem intragável, este verdadeiramente cruel, para salvar o seu povo. Será esta mulher capaz de renunciar ao trono, também para salvar algo mais? Quem sabe, o seu filho?!

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas, assim como de livros como a Enciclopédia Larousse, a Enciclopédia da Língua Portuguesa do Círculo de Leitores, ou sites online como a Wikipedia e a Infopédia da Porto Editora. 

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2 thoughts on “As Origens de Zallar #2: A Ascensão de uma Rainha

  1. Fiacha O Corvo Negro

    Viva,

    Grande artigo, muitos parabéns e sem duvida que é uma personagem que irá ter um muito maior destaque no 2 volume “Garras Gélidas”…uma das minhas preferidas sem duvida 😉

    Abraço e continua com estes artigos de Origens de Zallar que estão muito bons….fiquei com vontade de ler mais lol

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