O Processo


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Processo”

Uma cadeia de poder intrincada de mistérios. Um processo enigmático. Uma acusação que não se sabe qual é. Nesta negra radiografia à organização legislativa, Franz Kafka inquieta-nos com a volatilidade do ser humano, oferecendo-nos uma visão paradoxal da sociedade e dos valores. Uma das mais famosas obras do escritor checo a par de Metamorfose, este Processo foi publicado após a sua morte, e deixa-nos completamente ensandecidos com as divagações e interminável coleção de absurdos. O Processo é um livro absolutamente filosófico.

nuno

SINOPSE:

Um belo dia a existência pacata de Josef K., um bem-sucedido gerente bancário, vê-se abalada quando três homens entram no quarto da pensão onde reside para o prenderem. Não sabe quem o mandou prender nem muito menos do que o acusam – sabe apenas que está envolvido num processo obscuro e absurdo que o leva a percorrer as secretarias labirínticas nas quais decorre a instrução, conduzida por juízes menores cuja única incumbência é inquiri-lo.

Todos aqueles com quem Josef K. se cruza parecem saber mais do seu processo do que ele, e quanto mais K. se esforça por se livrar do estranho processo, mais se vê envolvido nele.

OPINIÃO:

Decididamente, não é um livro fácil. Comecei a leitura do livro intrigado sobre a origem do processo movido a K., para saber qual era de facto a acusação que lhe era apontada, e cheguei ao final do livro a saber o mesmo. Para o escritor, isso era completamente secundário, não havia qualquer importância em saber a acusação da qual K. se dizia inocente – e ficamos meio que na dúvida se o próprio acusado sabia do que era acusado. Se por um lado ele diz algumas vezes que não sabe qual é acusação, bem, ele é levado a tribunal, ele contacta um advogado e trabalha no processo, logo tem de saber qual é a acusação. Nós, leitores, é que ficamos sem saber qual é.

A escrita é extremamente filosófica. O livro até é pequeno, não tem muitas descrições e os diálogos são fluídos, mas eles são tão grandes e muitas vezes falam de coisas tão absurdas e sempre a matutar na mesma questão (que nem um livro de Platão), que fui obrigado a saltar aqui e ali algumas páginas. Não sou propriamente fã de filosofia, e embora tenha ficado intrigado e interessado na história até à última página, sofri momentos de grande tédio literário.

sem-titulo
Kafka On The Shore (deviantart)

As personagens são todas estranhas. Desde um pintor que resolve questões de tribunais e deixa crianças ainda mais estranhas entrarem e saírem da sua casa a pregarem-lhes partidas, e uma passagem secreta do seu estúdio vai parar a um escritório de advogados, passando por um advogado que trata os seus clientes como animais domésticos, tendo como enfermeira uma mulher que acha bonitos todos os seus clientes, enfim… um naipe de personagens todos eles misteriosos com comportamentos absurdos que apenas nos deixam mais com a pulga atrás da orelha.

É um livro que não pode ser lido como um thriller ou um policial, porque ele prende-te até à última página, mas acabas por terminá-lo com um grande sentimento de frustração. Tens de o ler como um livro filosófico, recheado de parábolas sobre a sociedade e ironias sobre a justiça e a burocracia. O livro foi escrito em 1914, mas parece sempre atual. Recomendo a quem esteja disposto a ler algo complexo e filosófico. Não é um livro para entretenimento. A minha pontuação não se mede pela qualidade do livro, que é indiscutível, mas sim pelo meu gosto pessoal.

Avaliação: 5/10

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4 thoughts on “O Processo

    1. Oie
      Não é um livro que te recomende especialmente. Fiquei muito frustrado com o final, mas lá está, estava há espera de ter explicações que não existiram. É mais um livro para pensar nos meandros da justiça nos dias de hoje.

  1. Olá Nuno.

    Já tinha ouvido dizer que este livro não era nada fácil. Mas não sabia tinha uma vertente mais surreal e filosófica. Lembro-me de um amigo me ter dito que assustou com o processo em si e acabou por desistir lol Tenho cá em casa o Amerika do mesmo autor, mas ainda não li. Aliás, ainda não li nada dele e tenho algum receio, para ser sincera. Mas um dia hei-de ganhar coragem 🙂

    bjnhos

    1. Oie, sim não é muito fácil. Temos de pensar nele como uma ironia e uma metáfora. Quem se põe, como foi o meu caso a querer saber que raio de processo é aquele fica bem lixado xD. Estamos o livro todo a querer saber mais e mais e o autor despejar nos páginas e páginas a matutar nas mesmas questões. É um pouco cruel nesse sentido. Mas é um bom livro.

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