Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa”

Ora bem, este livrinho, uma antologia que adquiri durante o Fórum Fantástico 2014, recomendado pelo próprio Fiacha, deixou-me momentaneamente surpreendido. Ter uma colectânea de contos pulp em português seria sempre uma mais-valia, tesourinhos de anos que já lá vão. Sempre fui fã de pulps dos anos de juventude dos meus pais, westerns, policiais, ficção científica, fantasia, e até tenho uma coleção de BD da época. Comecei então a desfolhar o livro quando o escritor João Barreiros me revelou, numa conversa casual no grupo do Corvo no facebook, que todos aqueles contos tinham sido inventados para o livro, assim como a própria biografia dos autores. Claro está que a coisa surpreendeu-me, e com mais vontade fiquei em ler o livro, um grande trabalho de pesquisa do autor Luís Filipe Silva, a quem tiro o chapéu pela audácia e iniciativa. Quanto à opinião… já lá vamos.

Pulp
Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Poucos o sabem, mas a literatura de pulp fiction, que marcou toda a cultura popular dos EUA na primeira metade do século XX, também esteve presente em Portugal, e em força.

Houve um tempo em que heróis mascarados corriam as ruas de Lisboa à cata de criminosos; em que navegadores quinhentistas descobriam cidades submersas e tecnologias avançadas; em que espiões nazis conduziam experiências secretas no Alentejo; em que detectives privados esmurrados pela vida se sacrificavam em prol de uma curvilínea dama; em que bárbaros sanguinários combatiam feitiçaria na companhia de amazonas seminuas; em que era preciso salvar os colonos das estações espaciais de nome português; em que seres das profundezas da Terra e do Tempo despertavam do torpor milenário ao largo de Cascais; em que Portugal sofria constantes ataques de inimigos externos ou ameaças cósmicas que prometiam destruí-lo em poucas páginas, antes de voltar tudo à normalidade aquando do último parágrafo.

Num trabalho notável de pesquisa, Luís Filipe Silva organiza aquela que é a primeira antologia com a melhor pulp fiction portuguesa do século XX. Incontáveis horas em bibliotecas, alfarrabistas e colecções particulares deste e do outro lado do Atlântico, resultaram numa obra que recupera um género injustamente esquecido mas que marcou várias gerações de portugueses.

OPINIÃO:

Confesso que cheguei a metade do livro com uma opinião relativamente má sobre o mesmo, e cheguei ao final completamente rendido à magia destes contos. Atrevi-me a ler algumas opiniões sobre o livro durante o meu processo de leitura. A maioria das opiniões que registei diziam que os contos eram o que de menos importante o volume encerrava, e que a grande mais-valia dele são as pequenas biografias ficcionadas sobre os supostos autores que Luís Filipe Silva havia criado. Não corroboro dessa visão.

Gostei bastante da introdução ao livro, e até achei piada, mas depois das primeiras três ou quatro biografias, elas começaram a ficar um pouco repetitivas (todos tinham de ter pseudónimos?), o que não retira mérito ao organizador da antologia. Vejo esforço do mesmo em inovar e a tentar conquistar-nos com pormenores muito engraçados. Gostei, gostei mesmo, foi como se saltasse no tempo, porque embora ficcionadas aquelas biografias tinham tanto de real e de interessante que cativam realmente o leitor. Mas não posso concordar que aqueles pequenos apontamentos sejam a grande mais-valia de um livro de 416 páginas que nos apela ao saudosismo das velhinhas histórias de além-mar e as adapta à realidade do nosso país.

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Indiana Jones (Spencer Perry)

Os contos são, na minha óptica, os verdadeiros tesouros deste livro. Há contos muito bons, outros medianos e até aqueles que considero muito maus. O Segundo Sol, de Ruy de Fialho, é o primeiro conto. Faz-nos lembrar um pouco o Indiana Jones e a sua luta contra o regime nazi. Neste conto vemos o herói, Jaguar Cabala, a lutar com nazis… na planície alentejana. A história é completamente previsível e tradicional, mas isso era algo para o qual já estávamos à espera. Gostei da escrita, despretensiosa, acessível e apaixonante. A Expedição dos Mortos, um conto em duas partes, por Joachim Hunot, suposto pseudónimo de Ana Sofia Casaca, foi uma desilusão. O conto é uma nova alusão a um Indiana Jones, não na perspetiva da luta contra o nazismo mas naquela onda de aventura, um professor é raptado por dois inimigos que se aliam para chegar a um objetivo comum. A história é cliché, a escrita não demonstrou grande qualidade, e o final foi igualmente fraco.

O conto A Ilha, de João Henriques, só teve de bom o final. O resto foi um tormento de descrições. Páginas atrás de páginas a descreverem cada passo, cada respiração, cada esquina. Apesar de a escrita ser boa, foi exageradamente descritiva, o que roubou toda a qualidade que o conto podia ter. O conteúdo foi, durante a maioria da prosa, completamente nulo. Do conto Pena de Papagaio de A.M.P. Rodriguez, não tenho razões de queixa da escrita, mas o conto em si não me aqueceu nem arrefeceu. Opinião contrária tenho do extraordinário conto O Sentinela e o Mistério da Aldeia dos Pescadores, de Orlando Moreira. Um super-herói nacional, mutações genéticas na ria de Ovar, homens-peixes e nazis numa história cheia de mistério e muito bem fundamentada. Gostei bastante.

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Cenário lovecraftiano (deviantart)

O western Horror em Sangre de Cristo  de Maxwell Gun também foi bem conseguido. Gostei do desenvolvimento e do toque de sobrenatural criado pelo autor. Penso que podia ser ter sido melhor se o clima de terror assaltasse mais intimamente os protagonistas. O Inconsciente de Tiago Rosa deixou-me arrepiado. Mexe, sem dúvida, com as pessoas. A nível de escrita e de trama nada tenho a apontar, apesar de não ser dos meus contos preferidos; bons furos abaixo do western e da aventura do Sentinela. E logo depois desse sufocante conto de terror somos surpreendidos com o divertido A Noite do Sexo Fraco, de Ludovico Bombarda. A história não é, de todo, o importante, até porque a aventura de uma amazona e do seu pégaso na peugada de um terrível feiticeiro é apenas o cenário de fundo (e uma metáfora) para um divertido combate entre o autor e o membro da censura que está a fazer a análise ao conto. O alegado censor – se existisse – devia ter ficado com os cabelos em pé com tantas referências sexuais e alusões à PIDE e ao governo salazarista.

O Pirata por um Dia de Sónia Louro, foi um conto divertido, nada de extraordinário, mas que me envolveu como muitos não o conseguiram fazer. Tive pena dos índios e não gostei muito do final, mas o conto foi agradável. Do “autor” Fausto Boamorte temos Valente, uma pulp tradicional sobre um detetive que enfrenta os maiores inimigos para defender a dama em perigo. A história é previsível e até um pouco fantasiosa. O protagonista está com o estômago aberto e a perder sangue mas mesmo assim consegue correr e disparar e voltar a correr durante várias páginas. Ainda assim a escrita é deliciosa e cinematográfica (faz-me lembrar o filme Sin City não só por o personagem se enquadrar perfeitamente no perfil do ator Bruce Willis, como pela narração do texto ser semelhante àquela que é apresentada no longa) e por tudo isso este é um dos meus contos preferidos. A entrar nos últimos três contos da antologia, entro também nos meus três contos preferidos.

Da autoria de Artur de Carvalho, O Amaldiçoado de Ish-Tar é uma clara alusão aos contos de Conan, o Bárbaro, e sabem que eu sou grande fã de Howard e da sua obra. Posso dizer que esta história do Valerian Beowulf ombreia (só para não dizer que consegue ser superior) a muitos dos contos que já li do Conan, e o personagem, apesar de não gostar do nome Beowulf, que me faz lembrar outro personagem mitológico, é ainda mais caprichado que o original. Noites Brancas, de Ana Sofia Casaca, surpreendeu-me completamente a nível de história. A escrita pareceu-me vulgar, se não fraca, mas foi melhorando e a autora conseguiu colar-me ao conto, e embrenhar-me nele completamente. O final surpreendeu-me.

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Conan, O Bárbaro (pcwallar.com)

Quanto ao conto Mais do Mesmo do indiscutível João Barreiros, não me surpreendeu no sentido que já sabia o que esperar deste autor. Sempre com a sua prosa mordaz e escorreita, ele consegue transportar-nos para um mundo futurista muito bem fundamentado e recheado de termos técnicos que só enriquecem a sua obra (e mostram que sabe do que está a falar), ao mesmo tempo que nos diverte com a sua história sobre um golem, o clone de um rapaz que é abusado sexualmente pelo suposto herói nacional que mais não é que o vilão da história. A linguagem de Barreiros combina na perfeição o erudito com o divertido. O único defeito que encontrei, se se pode considerar um defeito, foi que a história tornou-se um pouco cansativa quando o Tio Calibã tinha que repetir a mesma coisa a todos os Jimmies novos. O assunto foi resolvido quando o “exército” de clones foi acordado, mas podiam ter sido ali anuladas algumas páginas, se o conto fosse mais pequeno ficaríamos completamente extasiados, no meu caso fiquei plenamente satisfeito quando cheguei ao fim, e uma das razões foi exactamente, porque tinha, finalmente, chegado ao fim. Gostei de todos os personagens e o final foi muito bom mesmo.

Escolher um conto preferido por vezes é difícil, mas não tenho problemas nenhuns em eleger o meu. Mais do Mesmo foi o melhor conto da antologia, para mim seguido bem de perto pelo Amaldiçoado de Ish-Tar e em terceiro lugar (mais distante em qualidade) pelo Noites Brancas. A história do Sentinela, O Valente, o western e o Segundo Sol também foram contos muito bons, de pura pulp como era exigido. Em geral a minha opinião é positiva, mas não perdoo a crítica a alguns contos menos conseguidos, como A Expedição dos Mortos, A Ilha ou Pena de Papagaio, que para mim macularam um pouco esta publicação. Destaco também a incrível estrutura física do livro, desde as páginas supostamente fac-similadas, à belíssima capa e encadernação. Recomendo a quem gostar de contos, pulps, ou simplesmente a quem se queira divertir um pouco.

Avaliação: 7/10

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4 thoughts on “Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa

  1. Viva Nuno,

    Gostei bastante do teu comentário, pois tambem eu gostei bastante desta antologia.

    As introduções até podem ser algo repetidas é verdade, mas tem muita qualidade e foi quanto a mim um adição de mais valias.

    Quanto aos contos, penso que houve um pouco de tudo, diversificado e gostei bastante, tambem penso que o conto do João Barreiros acabou por se destacar 😉

    Abraço, boas leituras e já agora boas festas 😀

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