O Espião Que Saiu do Frio


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Espião Que Saiu do Frio”

John le Carré é o nome de referência na literatura de espionagem. Trabalhou nos Serviços Secretos britânicos durante a Guerra Fria, o que lhe deu bagagem para escrever sobre o tema, embora o autor assegure que os seus romances não relatam minimamente nenhuma das suas experiências: trata-se de pura ficção. John passou também por vários cargos políticos na Europa, sempre em representação da coroa britânica. O Espião Que Saiu do Frio foi o seu terceiro livro e aquele que o catapultou para as parangonas mundiais.

Dotado de uma perícia inigualável, le Carré conduz-nos por caminhos alcantilados onde os jogos de poder e os laços de amizade muitas vezes se confundem. Os seus protagonistas são peculiares e os diálogos convincentes. O autor escreveu este livro em apenas cinco semanas, segundo o próprio, cinco semanas praticamente sem dormir, numa fase extremamente debilitada da sua vida, quer pessoal quer profissional, que o levara a entregar-se à bebida e à degradação. Talvez este livro o tenha salvo. Seja como for, O Espião Que Saiu do Frio é já um clássico obrigatório para quem gosta do género.

Viagens à Lareira #1: A Sofia Pinela do blogue “Delícias à Lareira” e a Susana Serra do blogue “Voyage” lançaram o repto: quem quisesse seguir o seu desafio Viagens à Lareira devia ler, durante cada mês deste ano, pelo menos um livro de um determinado género. O género escolhido para o mês de Janeiro foi o romance histórico. Eu aceitei o desafio, pois está claro, e como já estava para ler este livro acabei por o catalogar nesse género. Sei que O Espião… é um romance de espionagem, e na altura em que foi escrito, era bastante atual, pelo que não sei se o poderei considerar romance histórico. Para mim, nos dias de hoje, ele é um romance histórico sobre uma das épocas mais frias e perturbantes da nossa História recente.

Sem título
Capa Dom Quixote
SINOPSE:

Vencedor do Dagger of Daggers, da Crime Writers Association, para o melhor romance policial dos últimos cinquenta anos. 

O ESPIÃO QUE SAIU DO FRIO é a história da perigosíssima missão de um agente que quer desesperadamente pôr termo à sua carreira de espião: sair do frio. Neste reconhecido clássico do suspense, le Carré mudou as regras do jogo e viu-se catapultado para a fama mundial.

Este livro foi adaptado ao cinema, num filme muito premiado de Martin Ritt, com Richard Burton e Claire Bloom nos principais papéis.

OPINIÃO:

A escrita acessível e os diálogos ásperos e verosímeis de le Carré já não eram para mim novidade. O autor é ímpar no género e consegue cativar qualquer leitor com a consistência que imprime à sua obra. A história base não é incomum nos dias de hoje, mas talvez porque muitos dos autores de espionagem atual seguem o trilho vitorioso deste autor britânico. Alec Leamas, um espião que vê um companheiro ser assassinado pouco depois da ascenção do Muro de Berlim.

Somos levados a ver este mundo da espionagem pelos olhos de Leamas. Um mundo triste, um mundo de injustiças, em que não importa quem vive ou quem morre desde que os objetivos sejam cumpridos, desde que o “bem geral” seja assegurado. Um mundo em que “a moral e os bons costumes” são balelas, em que nos mostram que a vida é bem menos linear do que isso e nem sempre se tem de fazer o que se acha certo. Neste mundo da espionagem, os homens de princípios têm muitas vezes que os engolir.

sem-titulo
Alec Leamas (Richard Burton em The Spy Who Came)

Não esperem um romance frenético com perseguições mirabolantes, carros de alta cilindrada, um protagonista jovial e sedutor e um final cor de rosa em que o herói termina com a sua amada numa ilha paradisíaca. le Carré mostra-nos a verdadeira face da espionagem, as suas intrigas e malhas intrincadas. O livro tem ação que baste, mas também tem muitas e muitas páginas de diálogo, sobre acontecimentos do passado que até nos podem deixar confusos, mas que dão verosimilhança e consistência à história. Posso dizer que nunca a ficção pareceu tão real.

Não nego que O Espião é uma obra-prima. Com ele, o autor deixou a sua crítica a quem tinha que deixar, presenteando os leitores com um livro muito satisfatório. Pessoalmente, não é um livro que me ficará muito tempo na memória. Achei que alguns personagens deviam ser mais desenvolvidos, e embora a história seja plausível, devia haver um ou outro momento mais boom!, e a reviravolta ter mais suspense. Foi muito bom perceber que foi aqui que le Carré concebeu os personagens George Smiley e Peter Guillam, protagonistas da sua trilogia de Smiley. Dessa trilogia apenas li o primeiro livro, A Toupeira, e posso dizer que foi um livro que me deixou muito mais empolgado e satisfeito do que este. Ainda assim, foi uma excelente leitura e é dos melhores livros de espionagem que já tive o prazer de ler.

Avaliação: 7/10

Anúncios

7 thoughts on “O Espião Que Saiu do Frio

  1. Fiacha O Corvo Negro

    Saudações,

    Bem tambem penso ser mais um livro de espionagem e não romance histórico, mas vá enquadra-se *assobio*

    Estou contigo um livro muito bom e dos melhores livros de espionagem que já li.

    Abraço

    1. Pois, Fiacha também tenho essa sensação, mas pronto vou tentar ler outro romance histórico este mês para ver se não dizem que fiz batota 😛 Mas não prometo nada.
      Sim é um livro muito bom xD

  2. Olá Nuno!

    Apesar de ser um romance de espionagem, pela época em que decorre também o consideraria um romance histórico. Sendo eu uma fã assumida de livros policiais e de espionagem é um crime nunca ter lido nada deste autor. E não é por falta de ter livros dele debaixo de olho, simplesmente ainda não aconteceu que algum viesse cá para casa, Mas é um escritor que já há muito me intriga e que tenho curiosidade de conhecer. Gostei da tua crítica e, apesar de ter ficado com vontade de ler este livro, deixaste-me mais curiosa com A Toupeira lol Mas enfim, quem sabe não leio os dois, um dia.

    Resta-me apenas dizer “bolas Nuno, foste rápido!!” Ainda eu vou na página 90 de Os Pilares da Terra, já tu leste um livro inteiro. Acredito que a qualidade do livro tenha ajudado a que isso aconteça. No que me toca não me posso queixar dos pilares, porque estou a gostar, mas já sabia que ia ser uma leitura lenta. A escrita descritiva do Follett não ajuda muito a que a leitura seja fluida.

    Como sei que não te importas vou copiar o link da tua review para colar no post do facebook do desafio deste mês 🙂

    beijinhos!

    1. É verdade, Sofia. O livro é muito bom, e por isso li-o em, imagina, 3 dias. 😀 Acho que fazes bem em experimentar este autor, não tem muita acção mas tem verdadeira espionagem.
      Quanto ao livro A Toupeira eu gostei muito dele, não sei se foi por ser o primeiro livro que li do autor, mas adorei George Smiley, um personagem que curiosamente é apresentado aqui. Aconselho-te a ler primeiro este e depois começares a trilogia de Smiley. Este tem mais ação, enquanto a Toupeira vive muito de flashbacks e investigações na secretaria, mas para mim é muito mais rico enquanto livro e senti maior empatia com os personagens 😛

  3. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #1 | Nuno Ferreira

Comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s