O Saque de Lampedusa


Detesto que me digam que Deus ainda está vivo.

O texto seguinte pode conter spoilers do conto “O Saque de Lampedusa”

Mais um conto de João Barreiros passado no mesmo universo de Lisboa no ano 2000. Publicado na edição de 2012 do Almanaque Steampunk, o Saque de Lampedusa trata-se de um evento peculiar de pura Ficção Científica, narrado na primeira pessoa por Stephan 25, um clone no interior de um tanque de guerra e a sua participação na tomada da ilha de Lampedusa, em Itália, local onde nenhuma criatura humana já consegue sobreviver.

É um conto que, para ser minimamente compreendido, é aconselhável que o leitor tenha já lido os contos do autor em Lisboa no ano 2000, onde poderão familiarizar-se com o universo descrito pelo autor e com as secretas intenções da Grosse Germânica para controlar o mundo, incluindo a construção destes sujeitos mecanóides criados unicamente para causar destruição.

Sem título

OPINIÃO:

 O Saque de Lampedusa mostra-nos um mundo amplamente desenvolvido na perspetiva de uma criatura inumana bem no âmago de um tanque Mak-34 de origem germânica. Por momentos senti-me confuso se este Stephan e o tanque seriam um só, e confesso que não cheguei a perceber o que ele era ao certo. Uma cópia, um clone, mas do quê? De um humano? Ou era um qualquer robô gerado pela partícula do Deus Morto no interior do veículo? João Barreiros descreve-nos um cenário apocalíptico extremamente verosímil e consistente, narrando um assalto militar em larga escala a um dos últimos redutos de resistência ao império germânico durante a guerra aos complexos auto-fabris no Norte de África em 1960.

A escrita não é nada aborrecida, pelo contrário. O conto não é muito grande e somos conduzidos por uma narração sólida e bem conseguida que nos faz de certo modo sentir solidários para com aquele singelo pedaço de vida, ao mesmo tempo que somos apresentados ao mundo que João Barreiros tão bem construiu. A história trata-se da tradução de um relatório provavelmente originário de uma “caixa-negra” no interior do tanque pelo técnico português Miguel Silveira, responsável pelo serviço de auto-gnose e cogitação às ordens D’El Rei de Portugal D. Miguel I, após a sua destruição. A destruição do tanque é causada por um avatar do Rei Trovão sentado num trono, num dos sectores do complexo autofabril. Já encontrei este Rei Trovão em dois ou três contos do autor e confesso que ainda não percebi tanto a importância dele como aquilo que ele é. Ficou mais claro, para mim, no entanto, que é um opositor à Legião concebida pela irascível Grosse Germânica.

Aconselho a leitura, este mundo concebido pelo João Barreiros pode ser um pouco confuso, mas parte desse mistério dá um certo encanto à obra e quanto mais lemos destes contos mais pormenores conhecemos deste irrefutável testemunho de extraordinária criatividade.

Avaliação: 8/10

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15 thoughts on “O Saque de Lampedusa

  1. Barreiros

    O Rei Trovão é uma gigantesca máquina auto-gnóstica instalada no centro das Montanhas do Atlas. Pode descarregar parte da sua consciência em avatares, ou máquinas mais pequenas, que lhe servem de olhos e mãos. O interior gnóstico do tanque de assalto não é mais do que um fio de Memorex onde fizeram o download parcial da consciencia de um soldado. Pensa nele como um Mecha dos filmes Anime. Um tanque que anda de pé.. Não é um clone, nada tem de orgânico, funciona a baterias carregadas por Torres Texla, pois a tecnologia ligada à descoberta do ADN humano só foi descoberta nos anos 50. É um fio gravado a correr entre duas bobines. O imaginário do Rei Trovão está ligado a uma Opera famosa, produzida anos mais tarde, “Angelina e o Rei Trovão”, a decorrer no Teatro S. Carlos durante a época de Lisboa no Ano 2000. Lampedusa foi “ocupada” por centenas e centenas de fábricas que competem pelo mesmo espaço territorial. ( piada ao que está a acontecer no nosso universo o de Lampedusa foi literalmente invadida por emigrantes clandestinos africanos). Mas como todas as fábricas continuam a produzir objectos de consumo cada vez mais sofisticados por uma evolução Darwinista, claro que estes interessam aos Reinos da Europa e ao I pério Germânico.

  2. Barreiros

    Como o próprio nome indica, “Stephen-25”, é a vigésima quinta cópia da consciência do mesmo soldado. Isso é explicado logo no início do conto.

  3. Barreiros

    Ainda um dia escreverei um conto com a Angelina como figura principal. A “Angelina” que aparece no conto o “Coração…” é a figura da actriz,não a exploradora que mergulhou no Inferno Autofabril ao encontro do seu “amor” perdido que desapareceu sem deixar rasto.

  4. Fiacha O Corvo Negro

    Viva,

    Bem estás a ficar um admirador do Barreiros e acho muito bem, parabens pela mensagem fiquei com mais vontade ainda de começar a ler o amigo Barreiros, este ano vai ser 😉

    E parabéns por divulgares o escritor e claro FC de qualidade 😉

    Abraço e continua 😀

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