A Cativa


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Cativa”, primeiro volume da saga Wulfric

Haverá lugar mais sombrio para se viver do que a Terra? Manuel Alves mostra-nos que não. O autor, conhecido pelos seus ebooks envolventes como Terra Fria, Z ou Lili, quis baralhar e voltar a dar e não me parece que se tenha saído nada mal. Aventurando-se numa aventura sobrenatural, Manuel mostra-nos que até os sujeitos que mais atemorizam a imaginação humana têm sentimentos e frustrações.

A Cativa é o primeiro volume de uma saga intitulada Wulfric, uma história sombria que retrata a luta entre anjos caídos e a sempre apaixonante luta pelo poder. De um lado temos Lúcifer, do outro, Mefistófeles, um dos seus mais famigerados aliados dentro da “mitologia” dos demónios. Qual o papel deste Wulfric nesta aventura?

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SINOPSE:

Selvagem, druida, assassino, rei… Wulfric teve muitas vidas. É o Mestre mais antigo, dono de um antiquário contíguo a uma igreja, um ponto de convergência entre mundos, o que faz dele também porteiro. Uma rebelião ameaça abrir uma passagem entre a Terra e o Inferno, e ele provavelmente terá de assassinar o responsável. Lúcifer. Teria sido mais simples matar a Cativa, duzentos anos atrás.

Esta história tem anjos, demónios, fadas, lobisomens, marinheiros russos, traições, pedras preciosas que são mais do que jóias, um crucifixo que sangra, pelo menos uma sociedade secreta, Lúcifer, Mefistófeles, um marquês que foi para o Inferno e se transformou num demónio nu e, é claro, Wulfric, o Mestre que vive com uma maldição aprisionada no sangue.

OPINIÃO:

Foi a primeira vez que li um livro do Manuel e acabei por o ler em 3/4 noites. Não só porque o livro me agradou, mas também porque estava a meio de outras leituras e sabia que se não o lesse de uma virada ia acabar por o deixar para depois, e depois, e depois. Com o toque soturno de um Constantine ou de um Hellboy, esta história fala-nos de uma Ordem, uma confraria secreta destinada a mediar a vida entre a Terra e os Infernos, e os seus Mestres, seres muito poderosos que até certo ponto conseguem até ombrear com os demónios mais terríveis.

Para começar, agradeço ao Manuel por nos presentear com um protagonista tão carismático como Wulfric. É o Mestre mais antigo, segundo nos é relatado foi o responsável por hecatombes em terras hoje consideradas mitológicas (o que contribuiu para o atraso da nossa evolução) e até assistiu ao nascimento de uma importante figura bíblica. Gostei imenso da relação que ele estabeleceu com Lúcifer, quase uma irmandade, um amor-ódio intemporal. Mas o livro não se fica por Wulfric, nem pela estranha disputa de poder entre Lúcifer e Mefistófeles. O destaque deste volume vai para a relação entre uma Cativa com Gervas, o aprendiz de Wulfric, e as consequências que essa relação terá para a “harmonia” na Terra e no próprio seio do Inferno.

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Inferno (fatos desconhecidos)

A leitura em alguns momentos tornou-se confusa, em parte porque toda a narrativa nos conduz num ping-pong entre o passado e o presente, em parte porque o Manuel nos dedicou capítulos inteiros em diálogos quase filosóficos sobre questões que hoje podemos considerar vulgares mas que o autor nos conseguiu dar uma nova visão sobre elas, uma roupagem sem a menor dúvida peculiar. Gostei bastante da forma como ele desconstruiu a visão generalizada que temos tanto do Inferno e dos seus habitantes como de acontecimentos históricos e teorias apontadas pela Igreja.

Sabendo que isto é ficção e só ficção, acabei por, em certos e determinados momentos, ficar com um sorriso nos lábios. Com o desenrolar da leitura, acabei por encarreirar com a história e acho que percebi tudo. Gostaria, no entanto, que o Manuel tivesse desconstruído um pouquinho mais a nossa visão do Inferno. Se nos quer dar a ideia que tudo o que sabemos sobre ele foi deturpado, parece-me que seria mais verosímil que o próprio nome do Lúcifer não fosse Lúcifer, que Mefistófeles não fosse a figura de que as lendas falam, por aí. Também achei os diálogos entre Wulfric e os restantes demasiado corriqueiros, para seres que vivem aqui há milhares e milhares de anos trocaram muitas expressões que nos parecem demasiado usuais nos dias de hoje, e até mesmo comparar o arcebispo a um vilão dos filmes James Bond parece-me, sei lá, de alguém que viveu apenas pelos “nossos dias”. Mas de maneira geral agradou-me o sentido de humor recorrente ao longo do livro.

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Lobisomem (Isto é Bizarro)

A nível de escrita, confesso que o Manuel surpreendeu-me positivamente. Não estava à espera que ele escrevesse tão bem, a esse nível só tenho a apontar dois defeitos. O primeiro foi a forma como ele usa as analogias sem um termo de comparação; a palavra “como” para remeter a situação a outra ficaria bem melhor na minha opinião. O segundo “pecado” do Manuel foi a repetição exaustiva da palavra “disse” em todos os diálogos, não se esforçando minimamente por usar outra palavra sempre que algum personagem usava da sua palavra. Lembro-me de o Manuel me ter dito que gostava de ser o mais simples possível nas etiquetas entre diálogos, e julgo que ele esteja bem a esse respeito, mas torna-se cansativo para o leitor estar a ler “disse”, “disse”, “disse”, a toda a hora, por isso aqui fica a minha sugestão para uma leitura mais diversificada.

Fiquei com a sensação final que o Manuel Alves é um escritor muito versátil e talentoso, que conseguiu combinar uma história cheia de ação com uma escrita muito rica, diálogos consistentes e bem humorados, salteando capítulos mais informativos com outros mais ativos nas doses certas. A meio do livro senti-me meio perdido, sem saber para onde a história seria conduzida. Cheguei mesmo a sentir que estava a ver uma daquelas séries tipo The Vampire Diaries em que os episódios se passam, acontecem várias aventuras, mas isso em nada contribui para o desenvolvimento da narrativa. De qualquer forma essa ideia acabou por se dissipar e o último terço do livro foi de grande qualidade. Em relação à história, não sou muito fã deste género de fantasia estilo Constantine, mas para quem goste do género leia este livro porque tem muita qualidade e é de um autor português.

Avaliação: 6/10

Wulfric:

#1 A Cativa

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22 thoughts on “A Cativa

  1. Fiacha O Corvo Negro

    Ois,

    Tenho mesmo que ler melhor o comentário pois fazes um resumo que até me vai ajudar a compreender melhor o livro.

    É um dos que estou a ler atualmente mas como tenho tido tanto para ler das parcerias acabei por parar um pouco, mas vou acabar e deste-me uma importante ajuda.

    Fico contente que tenhas gostado 😉

    Abraço e boas leituras

  2. Elsa

    Um comentário muito positivo, sem dúvida, mas o que Gostaria de saber preto no branco é o Tema do livro. Qual é o tema??? Diabo versus Diabo, para ver quem ganha o poder??? Acho que ganha o Diabo….gostei da escrita , sou sincera, mas não estou a ver a evolução dos personagens. A personagem Cativa, a que foi deixada para trás, vai certamente fazer parte de um romance com algum dos Diabos e aí está o velho cliché da Mulher a ‘ estragar’ tudo ou a modificar o rumo dos acontecimentos.Não posso dizer que não Gostei nada, mas dizer que fiquei cativada pela Cativa, tb não posso dizer.

    1. O livro é sobre uma cativa que teve descendência com um humano; e o tema da saga é a história do Mestre Lobo Wulfric e a sua participação nas relações Terra/Inferno. Parece-me que o objectivo do Manuel era “humanizar” a imagem dos demónios. O que se considera Diabo é o Lúcifer, o Mefistófeles é considerado por vezes o próprio Diabo mas penso que seja uma interpretação errónea. É um aliado de Lúcifer que muitas vezes aparece para tentar os humanos. Isto na visão comum do Mefistófeles, porque na história do Manuel não são os demónios que tentam os humanos, antes são os humanos que se corrompem e procuram o Mal para selar pactos e afins, e assim se transformam em demónios. Nesta história o Mef quer ocupar o lugar do Lúcifer, e não fiquei com a sensação que algum dos dois vai ter romance com a Cativa, aliás – o Mef não morreu? Fiquei com a ideia que sim. :O A personagem Cativa estava ligada ao personagem Gervas, com quem teve filhos, e a Isa é a bisneta deles.
      Acho que é por aí. 😛
      Quanto à evolução dos personagens temos de esperar pelo próximo episódio, mas agora com alguns personagens mortos penso que o passo seguinte vai ser o combate entre o Mestre Lobo e o Mestre Corvo que ficou ferido no combate.
      Também não posso dizer que fiquei cativado e que é um livro extraordinário, repara só lhe dei 3 estrelas no Goodreads, mas também não posso dizer que é um mau livro. Acho que está acima do que tem sido feito em Portugal a nível de fantasia e até é melhor que alguns livros de autores já conceituados, por isso só posso dar os parabéns ao Manuel.
      Beijinho, Elsa.

    2. Olá, Elsa. 🙂
      O Nuno, no geral, fez um resumo bem simples e aproximado dos acontecimentos relatados no primeiro livro da série. Como ele disse (e bem, segundo a minha pesquisa para o livro), Mefistófeles é, em algumas interpretações da mitologia, confundido com o Diabo (Lúcifer) mas são entidades distintas. Na minha interpretação, apenas atribuí a Mefistófeles uma origem que, tanto quanto sei, ainda não tinha sido explorada.
      Quanto ao futuro (e passado) da Cativa, não vou revelar detalhes específicos, mas posso dizer que ela regressará. De facto, as personagens femininas assumirão papel mais relevante no segundo livro.

      Nuno, Mefistófeles não morreu. Lúcifer ainda tem planos para ele. E o Mestre Corvo… bem, tem contas a ajustar com Wulfric. 😉

  3. Catia valente

    Olá!

    Gostei muito da tua opinião. Excelente análise parabéns.
    Acho que vou ler o resto que me falta esta noite. Parece ser o segredo para compreender bem a história. Não parar de ler! 🙂
    Fico contente por teres gostado da escrita do Manuel. Tens de ler o Terra Fria.
    Ainda me falta metade do livro. Não estou tão entusiasmada como das outras vezes e espero surpreender-me até ao final.

    Beijo

    1. Olá, Cátia. 🙂
      Já confessei, algures, que a estrutura do enredo e ritmo da história são intencionais para levar os leitores a ler seguido, sem intervalos significativos. Espero que resulte com a maioria dos leitores. 😀

  4. Olá Nuno!

    Demorei a vir ler a tua opinião, mas aqui estou eu. Estava com medo de ler algum spoiler, pois deixei atrasar a leitura. Terminei há pouco e como já é bué tarde para ir escrever a minha opinião, vim antes ler a tua antes de ir dormir. Gostei muito de ler o que escreveste. Eu ainda tenho tudo muito fresco e apesar de a sensação geral ser muito positiva, neste momento estou sem palavras para desenvolver a minha opinião. Vou deixar a poeira baixar e amanhã dedico-me à escrita.

    Mas como disse, também gostei da história. Há uma coisa que me deixou um pouco confusa. Sabemos que a Cativa teve uma filha e a Isa é sua bisneta, mas em momento algum ficamos a saber o que aconteceu efectivamente à Cativa. A Isa vê-a no seu reflexo, ainda que de forma não muito consciente, pois é uma forma de a Cativa proteger a sua bisneta. Acho que não percebi mal… Quer dizer que, para além de um possivel confronto entre o Mestre Corvo e o Mestre Lobo, a Cativa ainda deve vir a aparecer em mais algum livro da série. Espero que sim 😀

    Acho piada ver que o livro te fez lembrar o Constantine. A verdade é que agora que falas nisso, também fico a pensar no assunto. Mas andei sempre com o Bons Augúrios, de Neil Gaiman, na cabeça.

    Quanto a outros livros do Manuel, há uns tempos comecei a ler o Terra Fria (parei porque se meteram outras leituras pelo meio) mas do pouco que li posso dizer-te que também é muito bom. A escrita não tem nada a ver com A Cativa e a história também é muito fixe.

    beijinhos

    1. Olá, Sofia! 🙂 A Cativa é um mistério que ainda vai aparecer em outros livros, tenho a certeza. 😀
      Ainda vamos ser surpreendidos nos próximos volumes.
      Nunca li nada do Gaiman, apesar de já ter ouvido falar muito bem dos livros dele 😛

      1. Espero que sim. Gostava de saber mais sobre a Cativa e a descendente.

        Tens que experimentar alguma coisa do Gaiman, sem falta!

    2. Olá, Sofia. 🙂
      Estou a ver que também terei de dar um salto ao teu blogue, para comentar. 😉
      Como já disse em outros comentários, a Cativa regressará. Afinal, a bisneta (Isa) ficará mais próxima de Wulfric, e a Cativa é capaz de não ver essa proximidade com bons olhos. Porque será? 😀
      O Wulfric pode ter um bocadinho de Constantine, sim, mas do da banda desenhada (que é melhor do que a série de tv). Agrada-me o paralelismo com Bons Augúrios, porque é um livro que me divertiu bastante há uns anos. 😀
      O Terra Fria não tem mesmo muito (talvez nada) a ver com A Cativa, e faz todo o sentido porque são livros completamente diferentes. 😉

      Nuno, do que estás à espera para conhecer o trabalho do Gaiman? 😀

      1. Olá Manuel!

        Só hoje vi que me respondeste por aqui também.

        Estou para ver o que vai acontecer com a Isa e o Wulfric. Bem, ela já andava a sonhar com ele nu… Just saying!

        Não conheço o Constantine da BD, só mesmo o do filme (shame on me!) mas o Wulfric fez-me lembrar o diabrete Crowley, de Bons Augúrios. Um livro que tenho que reler – também gostei muito dele.

        Nuno: vai ler Gaiman! Só te consigo recomendar os 3 livros que já li, mas o Bons Augúrios é uma excelente aposta.

      2. Tenho ainda muitos livros em fila de espera, mas o Gaiman já lá está com as mãos atrás das costas a esperar no fim da fila. E a assobiar 😀 😀

  5. Olá, Nuno. 🙂
    Demorei a vir deitar petróleo, mas cá estou. 😀
    Não tenho hábito de debater (publicamente) as opiniões dos leitores acerca dos meus livros, nem é agora que vou abrir a excepção. 😀 Mas posso abordar algumas questões que mencionaste, a título de troca de impressões entre autores. 😉 Por isso, se tiveres interesse em que aborde algum aspecto do livro (ex: opções de estilo, estrutura do enredo, contrução de personagens…), estás à vontade. Tentarei responder dentro do possível.

    1. Olá, Manuel. 😀

      Obrigado pelos teus comentários aqui no meu cantinho. 🙂
      Quem sabe venhamos a discutir esses pormenores literários, aqui apenas me permiti a expor a minha opinião.

      Abraço.

  6. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #1 | Nuno Ferreira

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