As Origens de Zallar #3: O Calor da Mulher


A mudança é a lei da vida. E aqueles que apenas olham para o passado ou para o presente irão com certeza perder o futuro. John Kennedy

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada Que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Não é apenas nos dias de hoje que a mulher assume um papel de destaque no mundo. A afirmação pode ser considerada cliché, mas encerra uma das verdades mais incontornáveis da existência humana: por detrás de um grande homem há sempre uma grande mulher. A citação não carece de provas de facto. Célebres mulheres têm demonstrado, ao longo dos séculos, o seu determinante papel de esposa e mãe; desde a egípcia Nefertiti até à americana Michelle Obama, são milhares os testemunhos de mulheres que sofreram com as ocupações dos maridos e ainda assim desempenharam um papel fundamental no seu sucesso. Falo de conselhos, de uma voz ativa que apazigua os homens nos seus momentos mais turbulentos e lhes indica o caminho quando eles se sentem mais perdidos, e falo de inspiração, porque ter uma mulher para cuidar e amar inspira o homem não só a assumir uma conduta assertiva como lhe incute a obrigatoriedade de vencer. Não só porque o fracasso o constrange para com a mulher, como a simples ideia de desistência o remete para a perda dela e, consequentemente, do seu próprio orgulho. A mentalidade do homem acabou por se moldar às necessidades e o orgulho masculino perdeu alguma da importância de antanho. Se por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher, por detrás de uma grande mulher está também um grande homem. Bem, nem sempre é assim.

Cada vez mais o macho ocupa a função de suporte para o sucesso pessoal e profissional da mulher: o ombro amigo, a segurança e a estabilidade que lhe permitem ser mãe, esposa e ter ainda a oportunidade de ser a protagonista da sua própria história. Viver na sombra do homem deixou de ser uma obrigação e passou a ser uma escolha, estreitamente ligada com a forma como esta se sente realizada pessoalmente. Num mundo em que o homem ainda não perdeu o seu destaque, a gestão dos egos passou a ser uma guerra de sexos sem fim à vista, muitas vezes responsável por roturas matrimoniais e cisões complexas. Apenas quando um respeita a liberdade e o protagonismo do outro sem se anularem a si mesmos a comunhão e a cumplicidade conseguem subsistir.

Por isso, te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama. Novo Testamento, Lucas 7:47

Considero, porém, que não foram os tempos que impuseram novas necessidades; a mentalidade humana é que evoluiu num sentido de harmonia mais equalitário entre géneros. A mulher sempre teve o seu papel e sempre sentiu a necessidade de se afirmar. Necessidade que foi constantemente aplacada por um modelo de vida castrador. Repressão. Códigos de uma cultura em que o género masculino ocupou o papel predominante na sociedade. No mundo de Zallar não me coibi em criar personagens femininas fortes, determinadas em lutar pelo lugar de destaque na sociedade. Assim surgiu a personagem Lazard Ezzila, um irrefutável arquétipo de mulher dominadora, lutadora, com as suas fragilidades e defeitos. Mas se Ezzila é um exemplo indiscutível de “mulher moderna”, para a época que me proponho caricaturar, há outra mulher que criei para romper mitos e estereótipos. Hamsha.

Foi através dela que retratei a tal repressão a que durante gerações a mulher foi subordinada. A repressão sexual, a escravatura e o julgamento alheio. Porque Hamsha não é a rapariguinha bondosa que terminará a história nos braços do herói. Porque Hamsha não é a mulher tradicional que se casará com um homem bom e terá muitos filhinhos sem nunca errar, sem nunca sair “da bolha”. Hamsha foi escrava, viu a mãe morrer nas mãos de um sujeito odioso. Hamsha foi usada para fins sexuais e domésticos, ela passou pelo Inferno e tornou-se a consorte de um Rei. Mas não lhe deu filhos. Ele não foi um bom marido e ela não se subordinou. Ela errou, planeou, jogou um jogo perigoso pela posse de poder. Esta mulher mataria se isso fosse necessário. Esta mulher seria a perfeita vilã para uma história tradicional, mas eu preferi ser realista e fugir ao julgamento tão enraizado na cultura, que transforma as pessoas que agem em seu benefício em monstros. Hamsha é uma mulher com sentimentos, com emoções, com um passado, com ações discutíveis, com um feitio complexo, com remorsos e arrependimentos. E é isso que a enriquece. É uma mulher de um espírito ativo, que apenas deseja parar de sofrer. Uma mulher que cresceu no calor das Terras Quentes, um calor que lhe extravasa dos poros com uma formidável expressão de sensualidade.

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A importância da mulher está intimamente ligada à maternidade e a religião católica é uma das que mais tem contribuído ao longo dos séculos para a importância desse papel. Ainda que muitos teimem em dissociar as ideias cristãs das científicas, elas muitas vezes complementam-se e a Bíblia Sagrada, na minha visão, não é um chorrilho de mentiras como se apregoa mas sim um compêndio de metáforas, assim como muitas das mitologias criadas pelo homem desde a Antiguidade têm sido. O nome Maria, profundamente difundido pelo cristianismo como a mãe de Cristo, deriva da palavra Mar, uma palavra de intensa conotação maternal. Foi no mar que surgiram as primeiras células de vida existentes na Terra, facto comprovado cientificamente que nos remete ao nun – o oceano cósmico dos egípcios. O Mar é vida, o Mar é o útero feminino que gera vida, análogo ao ventre humano. E daí nasceu a ideia de Maria, a mãe de Cristo, o Deus na Terra. A Mãe que gera vida.

Um paralelismo interessante é a forma como surgiu na vida de Cristo uma outra mulher: Maria Madalena, ou Maria de Magdala, a mulher que os homens da Igreja têm ao longo dos séculos discriminado como a mulher prostituta cujos pecados foram perdoados por Cristo. Madalena é muito mais do que isso. Não sou defensor das teorias especulativas que tratam Madalena como a esposa de Jesus Cristo e mãe dos seus filhos. Não sou defensor nem opositor, simplesmente acho essas questões meramente especulativas e muito difíceis de provar. Mas o papel de Maria Madalena na Bíblia não é tão redutor como se disseminou. “Quem nunca errou, que atire a primeira pedra”, as palavras de Jesus para aqueles que humilhavam a prostituta, encerram muitos significados. E tornaram-se bandeira para mostrar aos juízes de bancada que ninguém está imune a errar. Sou um confesso admirador desta misteriosa figura bíblica. Maria Madalena. E usei-a um pouco como referência para esta personagem Hamsha. Uma mulher renegada. Uma mulher que é muito mais do que aparenta ser. Por outro lado, vejo também Hamsha como uma inversão da Maria Mãe de Cristo. A mulher que não fecunda. A mulher que não pode ser mãe. A mulher que peca.

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Confesso, no entanto, que a minha ideia inicial para esta Hamsha era mostrá-la como uma femme fatale venenosa e retorcida. Nos primeiros esboços da personagem inspirei-me na personagem Lucretia da série de tv Spartacus. Sou um grande admirador da atriz Lucy Lawless e essa foi a minha intenção, se bem que a minha Hamsha ganhou os seus próprios contornos e uma personalidade mais impulsiva e menos calculista. De referência para esta Hamsha – principalmente a nível físico – serviu também a personagem de Forrest J. Ackerman de nome Vampirella, assim como várias ilustrações femininas do mítico Milo Manara. A rainha Cleópatra do Egipto e as suas “milhentas” representações nas telas também me ajudaram a moldar esta personagem extremamente envolvente e sensual.

Já não seria uma mulher jovem, embora um pouco mais nova que o Rei, e a sua expressão transpirava sabedoria e maturidade – sem dúvida uma mulher de múltiplos talentos. Ajeitou o seu longo e liso cabelo negro atrás da orelha direita, e passou com a língua rosada pelo lábio superior, sempre com uma sugestão de volúpia no olhar. Uma deusa, acharia o mais comum dos mortais. Hymadher não o era, e mesmo ele um dia se sentira deslumbrado por aquele monumento humano; era afinal, a mulher que escolhera para tomar nos braços até ao fim das suas noites. Espada que Sangra, Nuno Ferreira

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Foram sobretudo mulheres míticas, mulheres marcantes da Antiguidade, que me inspiraram na criação de uma das protagonistas da minha série literária. O próprio mundo onde ela nasceu e se desenvolveu, as Terras Quentes, são uma alusão ao calor da personagem, o calor da mulher que faz fluir o sangue do homem. Terras que foram a “mãe” do nosso mundo, como a Babilónia, a América Central e a América do Sul serviram de matriz para estas Terras Quentes de onde Hamsha é natural.

A própria personagem é uma alegoria para a Torre de Babel. O Livro do Génesis fala-nos de uma torre que os homens não paravam de fortificar, aumentando-a permanentemente com o intuito de ali poderem viver em comunidade. Javé, o Deus hebraico, descontente com essa presunção, decidiu confundir as linguagens de todos os habitantes, para que eles não se compreendessem uns aos outros e, assim, não conseguissem prosseguir a sua construção. Pressupõe-se, assim, que os homens se tenham disseminado pelo mundo, criando os múltiplos idiomas existentes. Esta ideia de Babel remete-nos para a falta de comunicação num meio empresarial. Quando uma mensagem não é corretamente transmitida, nenhuma tarefa é bem-sucedida. Tanto a falta de comunicação como uma comunicação deficiente são dois dos principais causadores da divergência entre indivíduos; os principais causadores de julgamentos, de julgamentos erróneos. Hamsha é uma mulher confusa consigo própria, e isso impede-a de chegar a bom porto, ou sequer de se definir enquanto carácter. E aqueles que não a conhecem como o leitor conhece, dificilmente irão aceitar os seus comportamentos.

Assim Jeová os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade. Livro do Génesis

Hamsha irá continuar a espalhar os seus encantos, e isso irá causar a ruína de muitos.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

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