As Origens de Zallar #4: A Velha Guarda


Quem me rouba a honra priva-me daquilo que não o enriquece e faz-me verdadeiramente pobre. William Shakespeare.

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Há dois ou três dias fiz um vídeo a falar sobre dois dos personagens mais carismáticos da minha série literária e desde logo ficou a vontade de escrever mais sobre eles, sobre o seu passado, as suas origens. Falo de Monroy Aggert e Chestyr Worrena. E falo daquela variável tão discutida e questionada ao longo dos tempos a que os homens chamam de honra. Segundo Schopenhauer, a honra é a opinião dos outros sobre o nosso valor, mas numa visão mais subjetiva, é também o medo que todos nós sentimos sobre essa opinião. Rudyard Kipling sublinhou que é o dever de qualquer homem ser honrado, mais do que qualquer outra obrigação moral ou material. Já o filósofo Sócrates traçou uma visão mais objetiva sobre o tema: a melhor forma de se ser honrado é ser-se essencialmente o que se parece ser. Mas afinal, o que é isto de honra? É uma forma de dignidade, de boa aparência aos olhos dos outros, ou de se viver em respeitosa harmonia com o seu eu interior? Pode ser honrado um homem corrupto, ainda que tal não esteja visível aos olhos do mundo? Chega uma boa reputação para fazer de um homem, um homem de honra?

Numa opinião um pouco transversal àquelas que supracitei, digo que a honra é o reflexo de um comportamento digno de louvor, a forma como alguém se destaca por uma conduta de retidão; o que sugere um equilíbrio entre uma postura digna e um eu interior poderoso em valores. No meu livro Espada que Sangra, o personagem Monroy Aggert é um sujeito completamente afastado do mundo de princípios e valores onde se tornou homem. Um sujeito que pisou na própria honra para seguir um caminho de devassidão. Quem ler o livro vai perceber parte dos motivos que o levaram a abandonar o cargo de destaque na Guarda Ameriliana, onde a conduta irrepreensível é um dos quesitos mais importantes. Mas de onde nasceu este personagem? Em que me baseei para criar este escol de homens honrados? Vamos por partes.

Sem Título

As origens da Guarda Ameriliana não são explícitas no livro, mas o próprio nome denuncia que nasceu em pleno Esplendor Ameril, ou seja, no período que se iniciou quando Ameril Gedwinn subiu ao trono do unicórnio para enterrar a sua lâmina nas goelas de Torw Orn e assim dar início à dinastia Ameril. Gedwinn foi um pastor que se tornou Rei, o Rei Pastor, e terminou com a tirania das dinastias passadas ao depor Orn e os da sua casta. Esta nova guarda servia essencialmente para proteger o Rei, os nobres e as casas fortes do Palácio (a guarda-imóvel); mas era muito mais que uma guarda doméstica. Os seus membros eram escolhidos a dedo, sob fortes critérios de recrutamento e seleção. Para além de um corpo de guarda privado, a Guarda Ameriliana incluía também um serviço de espionagem, e alguns dos seus elementos mais viris eram destacados para acompanhar o Rei nas suas incursões ao exterior. Os postos mais elevados na Guarda Ameriliana eram o braço-de-ouro e o braço-de-prata do Rei. Eram estes os homens da sua mais alta confiança. Para além de serem os responsáveis pelas suas múltiplas valências, tinham a responsabilidade de vigiar bem de perto o Rei e zelar pela sua segurança. O braço-de-ouro seria, por norma, o guerreiro em quem o Rei mais confiava. Escolhido por este pelas suas habilidades bélicas, costumava acompanhá-lo em batalhas como seu primeiro escudeiro, deixando todo o comando da Guarda Ameriliana nas mãos do braço-de-prata na sua ausência. Por sua vez, o braço-de-prata era escolhido após um prolongado conclave em que todos os membros do Conselho tinham uma palavra a dizer, ele foi uma das peças capitais do puzzle welçantiano.

A analogia à Guarda Pretoriana do Império Romano é evidente. Concebi esta guarda nuns moldes muito próprios, mas inspirei-me livremente nesse corpo de guarda inolvidável da Antiguidade Clássica. Eles eram originalmente um grupo experiente de legionários encarregues de proteger o pretório, o núcleo de um acampamento romano onde se fixavam os oficiais. Acontece que, com a ascensão de Augusto como primeiro imperador de Roma, ele transformou essa guarda armada na sua guarda pessoal, e assim permaneceu com os que lhe seguiram. Não será difícil perceber que algo de idêntico ocorreu com a Guarda Ameriliana, e o seu nascimento pode ter mesmo ocorrido com a chegada de Gedwinn ao poder.

Quem encontra prazer na solidão, ou é fera selvagem ou é Deus. Aristóteles

Monroy Aggert foi o braço-de-prata do Rei Ameril Ozilliar. Com Chestyr Worrena, o braço-de-ouro, formou uma dupla lendária que ficará marcada para a História de Zallar. Foram dois guerreiros excecionais. Espada que Sangra apresenta Aggert como um homem já idoso, ainda assim com uma força de músculos admirável e um humor cáustico que reflete um ror de amarguras. Um homem que amou a bandeira com tanto fervor e por razões que as “Histórias” desvendarão a seu tempo, tornou-se um rebelde à causa, um sujeito vendido aos prazeres da carne e à degradação, capaz de cuspir no Rei ou pisar na bandeira sem qualquer pudor. Por sua vez, Worrena é um dos personagens mais citados ao longo da narrativa, surge em flashbacks mas sobre o seu paradeiro pouco se sabe. Tudo aponta para a sua morte, será? Se assim for, quem o matou? O próprio Aggert?

Criar estes personagens foi um processo gradual. Aggert surgiu primeiro na minha mente, um pouco como o arquétipo de guerreiro odioso que acompanha o protagonista. Inspirei-me inicialmente em personagens como Wolverine da Marvel Comics, Sandor Clegane de Crónicas de Gelo e Fogo, Ashur de Spartacus e John Hartigan de Sin City; mas depois dei-lhe conteúdo com umas ideias sobre Leónidas de Esparta, Diofanto ou Alcibíades de Atenas. Acima de tudo introduzi-lhe tudo o que um homem com a experiência e a vivência de Monroy Aggert poderia conter naquela envolvente tão violenta e decrépita. Quanto a Chestyr Worrena, o imperador Júlio César serviu-me de forte inspiração para os seus moldes, mas também o valente general Flávio Aécio, conhecido pelas suas façanhas contra Átila e Teodorico I no século V. O nazi Heinrich Himmler, comandante militar das SS e administrador do Reich foi uma das figuras históricas que mais serviram para definir o perfil sócio-político deste homem. Himmler foi o braço-direito de Adolf Hitler e um dos responsáveis pelo Holocausto, nessa perspetiva Worrena torna-se o seu reflexo, principalmente por desempenhar um papel interventivo na sociedade que o seu senhor idealizou. De certo modo o ideal de Ameril Ozilliar de conquistar todas as Terras Quentes e as escravizar teve o seu quê de anti-semita. Numa clara inversão de papéis, o povo que Ozilliar deixou após a sua morte venera-o, tal como ao seu legado, enquanto Adolf Hitler deixou apenas um rasto de terror e uma visão pouco honrosa sobre a sua personalidade e trajeto.

Afinal, quem foram estes homens de personalidade tão complexa? Monroy Aggert e Chestyr Worrena viram com os seus próprios olhos o dealbar de um novo mundo, uma mudança profunda em pensamentos e convicções. Eles próprios sentiram na pele as reviravoltas que a sociedade terrapardiana impôs nos seus habitantes. A própria Guarda Ameriliana, para a qual a honra era critério mínimo de aceitação, ressentiu-se com a perda destas importantes peças no xadrez welçantiano. Dois homens honrados que se perderam para a sociedade. Dois ícones que se mostraram falíveis, humanos com defeitos e permeáveis ao erro, como qualquer comum dos mortais. A fatura a pagar sobre expectativas transformou-os em fumos e sombras. Para saber mais sobre estes personagens, vê o vídeo e acima de tudo, lê a minha saga.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas e citações de personalidades célebres sobre honra. 

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4 thoughts on “As Origens de Zallar #4: A Velha Guarda

  1. Fiacha O Corvo Negro

    Viva Nuno,

    Tenho que ler bem o artigo pois são duas personagens bem interessantes, depois comento melhor, mas fazes bem em ajudar a esclarecer os teus leitores sobre certas personagens 😉

    Abraço

  2. Fiacha O Corvo Negro

    Viva estive a ler e gostei bastante e sem duvida que são duas personagens que podem ainda vir a dar muito à saga (se tiverem vivas claro 😛 ).

    O que eu gostava mesmo de saber era para quando o 2º volume já estamos em março 😀

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