As Raparigas Cintilantes


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Raparigas Cintilantes”

The Shinning Girls é um dos livros mais carismáticos da autora sul-africana Lauren Beukes e o único que conheço traduzido em português. Jornalista, guionista e escritora (essencialmente de contos e bd’s), Lauren brinda-nos com uma narrativa surpreendente sobre um psicopata que se excita a assassinar jovens e belas mulheres. As Raparigas Cintilantes. Até aqui este seria um livro em tudo normal, não teria este assassino encontrado uma casa “mágica” que lhe permite viajar no tempo, uma forma não só de nunca ser apanhado, como de matar jovens em vários espaços temporais. Penso que é de tirar o chapéu à Porto Editora a audácia de publicar este livro tão aclamado pela crítica internacional. Pessoalmente, só soube da existência deste livro graças ao fervoroso conselho do João Barreiros, motivo esse alimentado por outras críticas positivas, como a da Paula Pinto, por exemplo. Procurei este livro na Note! de Torres Novas com alguma ansiedade, e acabei por encontrá-lo no fundo de uma estante. Era o último exemplar e estava à minha espera.

Viagens à Lareira #3: Este mês o desafio da Sofia e da Su obrigava-me a ler um policial. E assim que o soube lembrei-me imediatamente deste livro. No início do ano tinha pensado neste como um dos livros a ler e acabei por cumprir esse objetivo. Assim, cacei dois coelhos de uma só cajadada.

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Capa Porto Editora
SINOPSE:

Dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes.

E se a morte voltar para tentar de novo?

CHICAGO, 1931: Harper Curtis, um vagabundo paranóico e violento, dá de caras com uma casa que possui um segredo tão chocante como a natureza distorcida de Curtis: permite viajar entre o passado e o futuro. Ele usa-a para perseguir as suas raparigas cintilantes – e tirar-lhes o brilho de uma vez por todas.

CHICAGO, 1992: Diz-se que o que não nos mata nos faz mais fortes. Será isso que pensa Kirby Mazrachi, cuja vida ficou devastada depois de sofrer uma brutal tentativa de assassínio? Ela continua a tentar encontrar o agressor, tendo como único aliado Dan, um ex-repórter de crime que cobrira o seu caso anos antes.

À medida que prossegue a sua investigação, Kirby descobre as outras raparigas, as que não sobreviveram. Os indícios apontam para algo… impossível. Mas, para alguém que devia estar morto, impossível não significa que não aconteceu.

OPINIÃO:

A escrita de Lauren Beukes é, para mim, o melhor do livro. Direta, crua, irónica e bem-humorada. Não me chocou, mas acredito que possa chocar as mentes mais sensíveis, porque não é um livro para qualquer pessoa. Para além de palavrões ao virar da esquina e descrições nojentas de assassinatos, este livro exige um grande grau de atenção. Isto porque a autora escreveu o livro com capítulos sob pontos de vista dos personagens (a mesma técnica usada por George R. R. Martin nas Crónicas do Gelo e Fogo), e em cada capítulo a ação decorre num espaço temporal completamente diferente do capítulo anterior. Portanto, enquanto o nosso amigo Harper anda a assassinar as rapariguinhas em vários anos distintos, podemos perfeitamente ver a nossa protagonista Kirby como estagiária de um jornal num capítulo, e dois capítulos à frente vê-la como uma criança e a sua relação tempestuosa com a mãe. Por isso, tens de reter na memória o ano em que aquele capítulo se passa, se ignorares isso não vais compreender patavina da história.

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A autora, Lauren Beukes

Foi uma leitura muito agradável, essencialmente pela escrita da autora. Lauren fez também um grande trabalho de pesquisa, não só no estudo comportamental de jovens que sobrevivem a atos violentos que resultam em mutilações de algum género, para se inspirar na nossa Kirby, mas também no comportamento de um assassino em série. Harper Curtis foi um personagem bem desenvolvido. Lauren pesquisou também sobre a vivência num jornal, sobre o fabrico de brinquedos, criminologia, análise forense e estudou as zonas mais sombrias de Chicago. Nota-se um grande trabalho de construção da autora para este livro.

Não fosse a escrita da autora, a sua inteligência e a forma original como conta a história, esta seria uma narrativa cliché neste género. A “casa mágica” adiciona o elemento fantasia à história, mas algo bastante subtil, que não lhe retira credibilidade. É um livro bastante sombrio e pesado, mas ao mesmo tempo consegue ser light no quesito leitura, com capítulos curtos e cheios de ritmo e ação. Por momentos, os capítulos de homicídios tornaram-se um pouco repetitivos, mas Lauren conseguiu dar a volta ao guião. Como qualifico este livro? Diferente, delicioso, quase genial. Não posso dizer que adorei, faltava um final mais imprevisível ou twists no enredo que me surpreendessem, mas claro que recomendo. Kirby Mazrachi é uma personagem rica e complexa, talvez mais ainda que o assassino, a jovem filha de uma prostituta que aprendeu a viver com as suas feridas. E uma protagonista carismática é sempre um bom ponto de partida para qualquer narrativa.

Avaliação: 8/10

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13 thoughts on “As Raparigas Cintilantes

  1. Elsa

    Olá Nuno

    Foi um livro muito bom. Um thriller original, que ao mesmo tempo nos leva a viajar no tempo.

    The Extremes do C. Priest é também um thriller misturado com realidade virtual, de alguma maneira os personagens tb viajam no tempo. Eu por acaso até gostei mais deste do Extremes.

    Boas leituras

    1. Oie Fiacha

      Temos livro, sim senhor! Isso seria a cereja no topo do bolo. Não digo que o final é mau, mas seria melhor se as coisas tivessem acontecido ao contrário.

      Se quiseres ler eu empresto-te 😀
      Grande abraço.

      1. Sei que sim, mas tenho tantos, agora até tenho um da SDE que a capa foi muito comentada devido a semelhanças com OS Jogos da Fome, vamos ver espero gostar….e em breve devo receber outro de um escritor da tua zona e…..

        Mas obrigado é bom saber que o tens 😉

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #1 | Nuno Ferreira

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