Coisas Frágeis


Acho que prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis, do que uma vida gasta evitando a dívida moral. […] E me perguntei a que me referia com ‘coisas frágeis’. Parecia um belo título para um livro de contos. Afinal, existem tantas coisas frágeis. Pessoas se despedaçam tão facilmente, sonhos e corações também.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Coisas Frágeis”

Autor de um vastíssimo rol de grandes sucessos mundiais, Neil Gaiman é um dos mais carismáticos autores contemporâneos. Nascido em Inglaterra e casado com a cantora Amanda Palmer, Gaiman foi rejeitado por inúmeras editoras antes de publicar o seu primeiro livro. É também autor de bandas desenhadas, sendo Sandman a mais conceituada. Entre as suas obras destacam-se Bons Augúrios (1990) em quatro mãos com Terry Pratchett, Stardust (1999), Deuses Americanos (2001) e Coraline (2002). Coisas Frágeis é um livro de contos escritos pelo autor, publicado em 2006. Saiu, posteriormente, em 2011, um segundo volume.

Viagens à Lareira #4: Bem, o desafio para Abril não era fácil. Contos. Eu gosto de ler contos, mas não tinha nenhum livro por perto de contos e nem tinha sequer vontade de comprar. Foi então que a São se ofereceu para me enviar em formato digital um livro de contos do Gaiman, o Coisas Frágeis, e li-o em dois dias. Por pouco e ainda o lia antes de começar o mês 😛 De qualquer forma a Cátia tem um livro de contos também muito interessante que pode ser que ainda o leia este mês.

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SINOPSE:

Neil Gaiman é um dos maiores escritores de ficção em atividade, reconhecido pelos seus romances (Lugar Nenhum, Filhos de Anansi) e pelo seu trabalho em quadrinhos (Sandman). Em Coisas Frágeis, Gaiman mostra que seu talento como contador de histórias funciona perfeitamente no reino das narrativas curtas. Neil Gaiman escreve com desenvoltura sobre os mais diversos universos – sejam criados por outros autores (com contos que aludem aos mundos de Sherlock Holmes, Matrix e Nárnia) quanto seus próprios, como no conto “O Monarca do Vale”, que tem como protagonista o personagem Shadow, de Deuses Americanos.

Os nove contos de Coisas Frágeis trazem Gaiman abordando os mais diversos temas, misturando puberdade, punk rock e ficção científica em “Como Conversar com Garotas nas Festas”; combinando o Sherlock Holmes de sir Arthur Conan Doyle com o terror de H. P. Lovecraft em “Um Estudo em Esmeralda”; extrapolando o mundo de Matrix em “Golias”, inspirado no roteiro original do primeiro filme; ou mesmo presenteando a filha mais velha com um conto fantástico sobre um clube de epicuristas em “O Pássaro-do-Sol”. Coisas Frágeis é um tratado prático de como escrever boas histórias – histórias que, como diz a introdução do livro, “duram mais que todas as pessoas que as contaram, e algumas duram muito mais que as próprias terras onde elas foram criadas”.

OPINIÃO:

Meus amigos, acho que estava mesmo a precisar ler algo assim. Apesar de estar com outro livro do autor entre mãos, foi a primeira vez que li Gaiman. Gostei da escrita dele, bem torneada, fluída e elegante. Um estilo dark que me agrada bastante. O que me agradou mais foi a diversidade deles, o que gostei menos foi um ou outro conto sem um conteúdo que me cativasse.

O primeiro conto, Um Estudo em Esmeralda, foi escrito para a antologia Shadows Over Baker Street e ganhou o Prémio Hugo em 2004. O objetivo era ser uma mistura de Sherlock Holmes com o terror de Lovecraft, mas posso arriscar dizer que é, acima de tudo, Gaiman. Fala-nos da investigação de um crime contra um membro da realeza britânica. Quando o li, senti que faltava algo ali, o final foi meio estranho. Mas agora percebo que, se fosse diferente, caíria no cliché. O segundo conto, A Vez de Outubro, foi ao mesmo tempo divertido e arrepiante. Os meses do ano (de uma forma humanizada) resolveram juntar-se para contar histórias. Quando chegou “a vez de Outubro”, ele contou uma história digna do mês de Halloween, a interação entre um menino exageradamente pequeno que é humilhado por todos e a alma de um menino que está morto. O final dessa história apenas sugere coisas sinistras. Venceu o Prémio Locus de Melhor Conto em 2003.

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As Crónicas de Nárnia (Justin Sweet)

O conto Lembranças e Tesouros deu-me muita vontade de rir. Foi originalmente uma história de banda desenhada, e depois transformada em conto para a antologia 999. Aqui conhecemos Smith e o senhor Alice, e também um outro homem muito bonito. Cada personagem é mais tarado do que o outro e voltamos a ver estes personagens num outro conto, mais à frente. Os Fatos no Caso da Partida da Senhorita Finch fez-me lembrar a série American Horror Story: Freak Show. Fala sobre a participação de um grupo numa espécie de Casa de Horrores de Feira Popular. E sobre um desaparecimento misterioso. E sobre tigres-dentre de sabre. Acabou por ser um conto que me passou um pouco despercebido, porque tudo girou à volta disso. O Problema de Susan é um conto delicioso. Ele mostra-nos o que terá acontecido à personagem Susan das Crónicas de Narnia. Onde ela estaria nos dias de hoje? Não é um conto para crianças e ainda inclui uma cena erótica entre o leão Aslan e Jadis, a terrível feiticeira branca. Ri muito, apesar de ser um conto que também nos fala de temas bem sérios, como a velhice, a perda de familiares e a guerra.

O conto Golias foi escrito para o lançamento do filme Matrix e passa-se nesse universo, porém, de um outro ângulo. Ele nos faz pensar realmente se a relação homem-máquina é como aparenta. O conto é bom mas não me cativou por aí além. Como Falar Com Garotas em Festas passa-se em 1977, em pleno movimento punk. Fala-nos de dois amigos de 15 anos que tentam perceber quem se desenrasca melhor a engatar miúdas, até que surge uma surpresa “de outro mundo”. Está bem escrito mas até ao clímax final achei aborrecido. O Pássaro-do-Sol foi escrito por Gaiman para dar à sua filha quando fez 18 anos, e fala sobre um grupo de epicuristas que, farto dos prazeres do dia-a-dia, decide rumar ao Egito para capturar o mítico Pássaro-do-Sol, para o cozinhar. Pois, eles fazem dele um grande banquete, pena que nunca ouviram falar na lenda. Um conto muito bom, com um final arrasador, gostei sobretudo das descrições do autor.

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Deuses Americanos (Nerd&Lace)

O livro termina com o maior conto do livro: O Monarca do Vale. Inspirado num filme que Gaiman escreveu em co-autoria, a longa-metragem de animação Beowulf, este magnífico conto é protagonizado por Shadow, personagem do seu livro Deuses Americanos, e pelos personagens Smith e Senhor Alice do outro conto desta coletânea, Lembranças e Tesouros. Uma roupagem muito moderna para a lenda de Beowulf, com uma conclusão que me agradou. Os meus contos preferidos foram O Problema de Susan, seguido de O Pássaro-do-Sol, Lembranças e Tesouros, O Monarca do Vale e Um Estudo em Esmeralda. Recomendo vivamente, como é óbvio.

Avaliação: 8/10

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13 thoughts on “Coisas Frágeis

  1. Ai Nuno fico tão contente por teres gostado da escrita do autor. Eu não conhecia este livro dele e é engraçado ter-te feito a recomendação e acabares por ser tu a apresentar-me a mais um livro de um autor de que tanto gosto. E se gostaste deste estilo mais dark da sua escrita, acredito que vais gostar do Bons Augúrios. O Crowley foi o meu personagem favorito, com aquele seu estilo de bad boy. Enfim, aguardo a tua opinião e parabéns por teres cumprido o desafio em tempo record 😛

    1. Nem sei se ele existe publicado em Portugal, foi a São que me deu em pdf e tenho ideia que está em pt-br. Quanto ao Bons Augúrios, estou na página 100 e estou a gostar. Este tipo de histórias não me cativam muito mas espero dar nota positiva, ainda me estou a ambientar. E é um livro super elogiado, não podia deixar de o ler. Fiquei muito contente por a Cátia me ter oferecido.
      Obrigado, Spinelli. 🙂
      Beijinho

  2. Olá Nuno,

    não conhecia este livro do autor! É de que editora? Não reconheci o símbolo na capa.
    Gostei muito da tua opinião, que diz tudo sem contar nada de relevante. Muito bem!

    Gaiman é sempre especial.

    Bjs e boas leituras

  3. Olá Nuno
    Fico contente que tenhas gostado 🙂
    De facto o livro está em brasileiro, encontram-se imensas coisas traduzidas no Brasil, que nem passam por cá. Há a versão inglesa que também tenho se alguém preferir, posso enviar.

    Gostei muito da tua opinião. Os meus contos preferidos foram: A vez de Outubro, O problema de Susan, O Pássaro-do-Sol e o Monarca do Vale. Gostei imenso da ideia dos meses do ano se reunirem para contar histórias entre si, e as descrições físicas de cada um estão fantásticas.

    Quero ler muito mais de Gaiman sem dúvida. 🙂
    beijinhos e bons augúrios

    1. Gostei muito e também quero ler mais 😛
      Curiosamente já cheguei a meio do Bons Augúrios e ainda não entrei completamente na história, mas tem qualidade é inegável.
      Infelizmente há n coisas boas que não são publicadas por cá.

      Beijinho grande.

  4. Anónimo

    Viva,

    Só arranjas maneira de me lembrar que ainda tenho o Bons Augúrios por ler do escritor, excelente comentário sem duvida 🙂

    Abraço e boas leituras

    Fiacha 😛

    1. Eu também estou a ler o Bons Augúrios. Estou na segunda metade, gosto do humor, mas nunca mais acontecem coisas importantes. 😀 Não é bem a minha praia, mas é um livro que queria muito ler e tem qualidade é óbvio.
      Gostei mais deste.

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