As Origens de Zallar #5: A Sociedade Sem Voz


Todas as religiões são a verdade sagrada para quem tem a fé mas não passam de fantasia para os fiéis das outras religiões. Isaac Asimov

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Um dos capítulos que tem suscitado mais interesse aos meus leitores é aquele que incide na introdução da Sociedade Sem Voz na narrativa. O que é, na verdade, aquela sociedade? É uma seita, uma sociedade secreta, ou uma religião? Vivemos num mundo multicultural em que não só as culturas se cruzam como também as religiões. E dentro de cada religião, existem também os seus derivados, ramificações que empolam certas características em detrimento de outras. As comunidades católicas, protestantes e ortodoxas são as várias ramificações que a religião cristã alberga, diferentes interpretações de uma mesma Bíblia, daí que a Sociedade Sem Voz seja, mais do que uma sociedade, um ramal à própria religião terrapardiana. Qual a importância, então, desta crença nas Histórias Vermelhas de Zallar?

Sem Título

1 – Ezzila.

É-vos revelado, no referido capítulo, que o pai de Ezzila conduzira-a à Mansão, o templo da comunidade, e nele se deitaram nus, de barriga para o teto, a orar. Tal prática era tradicional na sociedade, uma manifestação de fé. Disse-vos também que havia muito tempo que ela não voltara lá, mas que ainda assim não abolira a Sociedade, conhecendo as suas práticas. A relação entre Ezzila e os membros da sociedade é de uma velha amizade, mas também de algum remorso e tensão, o que adensa o mistério. Por várias vezes fui abordado se Caiffat, o delfim da Mansão (o alto-sacerdote da comunidade), é na verdade o pai de Ezzila, que todos julgavam exilado. Várias vezes ele a aborda por: “minha filha”. A resposta a essa pergunta deixarei que descubram no segundo volume desta saga.

2 – A mensagem.

Quando Ezzila entra na Mansão, somos apresentados a vários personagens, a maioria velhos e misteriosos. Lynkos parece ser o mais próximo da Rainha. Conhecemos também Sentyr, o velho arlequim, dois velhos guardas e um sujeito gordo e apático, que se diverte a brincar com frutas caramelizadas. No final do capítulo percebemos que esse indivíduo havia desaparecido, e que os restantes lhe haviam encomendado uma tarefa – contar o ocorrido a alguém. O resto fica em suspense, e nada mais nos é dito a respeito neste primeiro volume da série.

3 – As mortes.

Capítulos à frente, encontramos a aia da rainha, a jovem Selenya, preocupada com o estado vegetativo da soberana. Ela procura o curandeiro, e quando chega a sua casa encontra uma multidão à porta, acusando-o de charlatanice. Logo ela percebe que algo de errado se passou, porque o velho curandeiro sempre foi bem sucedido nas suas mezinhas. Ela lá arranja uma forma de entrar em casa do velho… para o encontrar enforcado na sala. Nem todas as pessoas fizeram a dedução, mas o curandeiro chamava-se Caiffat, e sim, ele era o delfim da Sociedade Sem Voz. Provavelmente já setenta por cento dos leitores se havia esquecido desta sociedade quando é revelado que Ruth Amarion, o esposo e grande inimigo da Rainha, assassinou Lynkos, um dos membros da Sociedade. Pode parecer estranho e pouco significativo para o enredo, mas no próximo volume terão respostas sobre estes eventos.

Sem Título

A história da Mansão confundia-se com a própria história de Hyldegard. A congregação surgiu ao terceiro mês do ano de 149, por iniciativa de um grupo de artistas que fugia da perseguição religiosa. Por intermédio de um importante mecenas da época, Carx Aquilon, os seus fundadores conseguiram um alvará do Rei que lhes concedia autorização para as suas atividades ocultas. A sociedade inicialmente chamou-se Sociedade do Grande Anoris, mas o Rei Herbert, no ano de 163, declarou a morte da confraria, e apenas três anos mais tarde, Allan II voltou a permitir a liberdade dos associados, com uma série de condições. Foi obrigatório o pagamento de uma joia e uma taxa fixa de quarenta jallas de ouro por ano. Para além desse pagamento, a congregação tinha a obrigação de se manter nas sombras, para não chocar com a conservadora tradição religiosa que crescia na época. Espada que Sangra

Inspirei-me em sociedades ocultistas como a Maçonaria ou a Carbonária para os primeiros traços desta “Sociedade Sem Voz”. “Sem Voz” não significa que a oração necessite de silêncio, nem, como Ezzila sugere na narrativa, que os seus filiados “silenciem” os inimigos através da lâmina. “Sem Voz” significa sem expressão. Esta não é a religião em voga em Hyldegard, nem em nenhum outro estado. É uma religião marginal, um pouco até clandestina.

Imerso mais profundamente nos meandros da Sociedade Sem Voz, recrutei traços de uma crença ainda mais profunda e polémica. O catarismo. No desenvolvimento destas Histórias, a Sociedade Sem Voz irá buscar elementos ao mais famoso movimento ascético cristão.  O catarismo foi uma ameaça séria para o pensamento cristão entre os anos 1100 e 1200, defendendo a ideia de um deus bom (o do Novo Testamento) e um deus mau (Satanás). Acreditavam que todo o mundo físico havia sido criado por Satanás e que as nossas almas eram almas sem sexo de anjos, que teriam sido aprisionadas nos nossos invólucros carnais. O catarismo teve na cidade de Albi um dos seus principais centros, pelo que os cátaros foram também chamados de albigenses. O movimento teve as suas raízes em outros existentes na Arménia e na Bulgária, e caiu vítima da perseguição religiosa. Por iniciativa do Papa Inocêncio III foi instaurada a Cruzada Albigense que consistia na acérrima perseguição aos cátaros, que a Igreja Católica considerava pura heresia. Montsegur (1244) e Quéribus (1255) foram das últimas fortificações cátaras a caírem às mãos da Igreja.

Os cátaros servem de inspiração para a Sociedade Sem Voz em que moldes? No seu pensamento radical? Na forma como se disseminou? Na forma como caiu? Através de que mão atingirão eles o seu auge, ou a sua queda? Todas essas respostas apenas poderão estar disponíveis nos próximos volumes.

“Matem todos eles, Deus saberá quem são os seus” Atribuído a Arnold Amaury, líder da Ordem dos Monges Cistercienses

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre os cátaros para não pecar em imprecisões. A Enciclopédia Larousse também me esclareceu uma pequena dúvida. 

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2 thoughts on “As Origens de Zallar #5: A Sociedade Sem Voz

  1. Anónimo

    Viva,

    Estes artigos são uma delicia e vamos ficando com vontade de saber mais sobre este universo, espero vir a ler o 2 volume ainda este ano e acredito que ainda venhamos a ter umas boas surpresas desta lado do enredo.

    Foi muito bem conseguida a morte do “curandeiro” 🙂

    Abraço

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