Bons Augúrios


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Bons Augúrios”

Neil Gaiman passou o início da sua carreira a escrever biografias sobre celebridades, mas só viria a descobrir o seu talento para criar fantasia no final dos anos 80. Em 1990 publica, a quatro mãos com o famoso autor de fantástico Terry Pratchett, o aclamado Good Omens (Bons Augúrios em Portugal). Esse foi o início da fenomenal carreira como escritor de Gaiman e também um dos trabalhos mais conceituados de Pratchett.

Neste livro somos apresentados a Crowley e Aziráfalo. Enquanto o primeiro é um demónio (sabem a serpente que convenceu a Eva a comer a maçã? pois Crowley era a serpente), o segundo é um anjinho que anda pela Terra a cumprir os desígnios d’Ele. Acontece que eles já se conhecem há tanto tempo e já se cruzaram por tantas vezes que começam a ver que não são tão diferentes um do outro quanto pensavam.

Para além disso, afeiçoaram-se aos humanos e a ideia do fim-do-mundo e da extinção da Humanidade não lhes agrada nada. Daí que unam esforços para impedir o Armagedão. Para isso, têm de procurar o Anticristo, que não é mais do que uma criança com pouca queda para a coisa. Ironia das ironias, os pais adoptivos puseram-lhe o nome de Adão – muito apropriado. A vigiá-lo está o Cérbero dos Infernos, que se disfarça de um pequenino cãozinho chamado Cão. Existe também Anátema Device, descendente de uma grande bruxa chamada Agnes Nutter, que se torna amiga de Adão; os caçadores de bruxas, Shadwell e Púlsifer, simplesmente hilariantes; e ainda os Quatro Cavaleiros (digo… Motoqueiros) do Apocalipse… mais os quatro que os seguem. Sim, temos a Morte, a Fome, a Guerra e… pois, Peste é coisa pré-penicilina, e foi substituída pela Poluição. O que acontecerá quando todos estes peculiares personagens se cruzarem? Se não é o fim-do-mundo, anda lá perto.

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Capa Editorial Presença
SINOPSE:

Este é o livro mais divertido alguma vez escrito sobre o Armagedão. Não vale a pena reler esta última frase, caro leitor, foi mesmo isso que se quis dizer. «Mas como é que um livro sobre o fim do mundo pode, de algum modo, ser cómico?» Ora aí é que está, caríssimo leitor, a explicação é óbvia – esta obra foi escrita por dois dos mais geniais autores de fantasy da actualidade. Ao sabor das suas endiabradas penas, até o mais inverosímil pode assumir a aparência de algo plausível! Neil Gaiman e Terry Pratchett criaram um texto que, ao fundir a fantasia e a comédia, resulta absolutamente jocoso, satírico inventivo e cheio de sabedoria. Desde o início dos tempos que Ele (Deus, o Diabo ou ambos em co–autoria conspiratória) haviam planeado o Armagedão, a Derradeira Batalha entre o Bem e o Mal, o fim do mundo tal como o conhecemos. E havia séculos que os demónios (e os anjos?) trabalhavam nesse sentido. Era chegada a hora! Faziam–se agora os últimos preparativos e tudo se ajustava para a hecatombe final. Mas os desígnios de Deus (e do Diabo?) são, como se sabe, insondáveis e, vá–se lá saber porquê, uma pequena distracção, uma simples troca de bebés, coloca o recém–nascido Anticristo na família errada e voilà! tudo corre mal! Por serem todos grandes apreciadores dos prazeres terrenos, os representantes do Céu e do Inferno, os Quatro Cavaleiros (leia–se Motoqueiros) do Apocalipse e o próprio Anticristo decidem, pasme–se, tomar as rédeas dos acontecimentos e sabotar o Armagedão! O resultado já o leitor pode imaginar – uma leitura deliciosa que nos leva às lágrimas através de um riso de proporções apocalípticas. Diabolicamente hilariante.

OPINIÃO:

Confesso que esperava mais. Falaram-me tão bem do livro que fiquei um pouco desiludido com ele. Não que o livro seja mau, nada disso. As personagens são divertidas e hilariantes, bem desenvolvidas, achei piada à ironia utilizada pelos autores, senti algumas piadas forçadas, algumas não achei bem conseguidas, porém uma ou outra vez ri-me muito. A história cumpriu aquilo que se propunha: usar como base o Armagedão e construir uma ironia ao mundo em que vivemos e ao Livro do Apocalipse. Nesse sentido, sim, está muito bem conseguido.

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Aziráfalo e Crowley (Linnpuzzle em deviantart)

Para o meu gosto pessoal, não. Fui obrigado a deixar a leitura do livro várias vezes por me sentir aborrecido. Os diálogos eram ininterruptos, por vezes forçados, sem contribuirem nada para o enredo. Aliás, o enredo resume-se ao que foi descrito em cima, nada de complexidade por detrás de nada, nada de surpresas. O livro também perdeu pela previsibilidade da história. Foi assim algo que não me enriqueceu minimamente. Já me tinham dito que o livro tinha muito mais do estilo brincalhão do Pratchett do que do estilo noir do Gaiman, que quando o escreveu ainda estava a dar os primeiros passos. Não conheço o suficiente de um de outro autor para dar certezas quanto a isto, mas sim… não esperem um livro negro, este livro é uma comédia simples.

Não estou nada arrependido de o ler, era um livro que queria experimentar e serviu bem para entreter, a história está engraçada e creio que pode agradar a quem for fã de comédias simples. É um livro de qualidade, reconheço-a. Mas comédias não me cativam sem um pano de fundo auto-suficiente.

Avaliação: 4/10

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12 thoughts on “Bons Augúrios

  1. Elsa

    Olá Nuno

    Confesso que este livro de Gaiman também não é dos meus preferidos, exatamente pelas razões que apontaste.
    Toda a literatura que tenha diabos e afins como tema, não é uma leitura que me atraia minimamente,embora Gaiman e Pratchet tenham uma escrita de excelência.

  2. Confesso que a tua opinião me assustou um pouco. Não por alguma coisa que tenhas escrito mas pela forma como o livro te fez sentir. Eu já o li há coisa de 4 ou 5 anos e lembro-me que na altura adorei. Foi o também o primeiro que li do Neil Gaiman, apesar de estar escrito a 4 mãos. O que me assusta é que eu ando com ideia de o reler e agora tenho medo de não gostar tanto dele como da primeira vez. Verdade seja dita: os meus horizontes literários já alargaram um bocadinho desde então…

    Seja como for, mesmo que não tenhas adorado, fico contente por teres gostado 🙂 Se tiveres oportunidade lê O Oceano Ao Fim do Caminho. Li-o há pouco tempo e achei bem melhor que este 🙂

  3. Ois,

    Bem ainda o tenho cá por ler, mas vai continuar a aguardar é que tenho tanta coisa para ler que se esperar mais uns tempos não lhe faz mal nenhum 😀

    Mas pensei ser um grande livro, confesso 🙂

    Abraço e boas leituras

    1. Segundo me disseram, este livro é muito mais Pratchett que Gaiman. Aliás, penso que este foi o primeiro livro de ficção do Neil Gaiman, por isso ainda não tinha a sua identidade bem definida. De qualquer forma, pode ser que gostes do livro, eu é que não sou nada fácil de agradar no que diz respeito a comédias. 🙂

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  5. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #2 | Nuno Ferreira

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