O Miniaturista


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Miniaturista”

Nascida em 1982, a britânica Jessie Burton impressionou o mundo da literatura no passado ano de 2014, ao publicar O Miniaturista. O seu romance de estreia arrebatou os leitores e tornou-se um fenómeno de venda nos Estados Unidos. Atriz e agora escritora, a jovem convida-nos a entrar numa casinha de bonecas e a mostrar-nos um mundo fabuloso com o qual ela própria sonhou.

Ao abrir as páginas do livro, somos surpreendidos pelo pormenor dos desenhos e desde logo apresentados à casa de bonecas, de autor desconhecido, que se encontra no Rijksmuseum, o grande museu nacional da Holanda localizado na Praça do Museu de Amesterdão. A casa de bonecas pertenceu a Petronella Oortman, uma jovem casada com um mercador holandês de seu nome Johannes Brandt. A partir deste dado histórico, Jessie Burton criou a sua história. A biografia de Petronella é fictícia, assim como o enredo, tal como a autora adverte em nota de autor. A partir de dados históricos, Jessie Burton concebeu um retrato credível da vida na Holanda em finais do século XVII. Acredito que a famosa casinha de bonecas tenha recebido muitos mais visitantes por estes dias.

O Miniaturista conta-nos a história de Petronella Oortman, mais conhecida por Nella. O pai, alcoólico, faleceu, e a mãe, com vários filhos a seu encargo, viu-se na iminência de casar a sua filha com um abastado mercador holandês, numa época em que a Companhia Neerlandesa das Índias Orientais regia as permutas comerciais e o pensamento puritano moldava as mentalidades. É neste cenário que Nella chega à mansão dos Brandt e é apresentada aos seus misteriosos e surpreendentes personagens. Johannes, o seu marido. Marin, a irmã deste. Cornelia e Otto, os empregados. Sem esquecer Rezeki e Dhana, os cães. Quando Nella recebe do marido como prenda de casamento uma casa de bonecas que é, na realidade, uma réplica em ponto pequeno da sua própria casa, tudo muda.

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Capa Editorial Presença
SINOPSE:

Num dia de outono de 1686, a jovem Nella Oortman, recém-casada com um próspero mercador de Amesterdão, Johannes Brandt, chega à cidade na expetativa da vida esplendorosa que este casamento auspicioso lhe promete. Mas, entre a amabilidade distante do marido e a presença repressiva da cunhada, Nella sente-se sufocar na sua nova existência. Até que um dia, Johannes lhe oferece uma réplica perfeita, em miniatura, da casa onde vivem. Nella encomenda então a um miniaturista algumas peças para ornamentar a casa. Mas algo de surpreendente acontece: novas encomendas de miniaturas continuam a chegar sem terem sido solicitadas, como presságios silenciosos de futuras tragédias. Um romance de estreia magnífico, sobre amor e traição, que evoca com grande sensualidade a atmosfera da Amesterdão do século XVII, erigida sobre a riqueza da Companhia Holandesa das Índias Orientais, mas espartilhada pela mentalidade puritana da sociedade de então.

OPINIÃO:

Um mistério muito bem escrito. É necessário ter cuidado com aquilo que se espera ao pegar neste livro. Eu procurava algo chocante, com uma forte tendência para o macabro e para o terror, e o que encontrei foi uma deliciosa história de vida, um retrato maravilhoso de uma família invulgar e, ainda assim, extremamente credível.

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Anónimo c. 1686 – c. 1710, Casa de Bonecas de Petronella Oortman, Rijksmuseum

Uma montra da vida nos Países Baixos nos finais do século XVII. Leiam este livro para saberem do que falo, trinquem-no devagarinho como se tivessem a saborear um morango com chantilli, porque foi mesmo isso que eu senti a ler O Miniaturista. Jacob Appel fez um retrato da casa de bonecas de Petronella Oortman em óleo (1710); Jessie Burton fez o retrato em livro (2014). Adicionou-lhe mistérios, adivinhas, e sim… também um pouco de terror. Eu sentir-me-ia horrorizado se recebesse miniaturas de pessoas e de animais que vivem em minha casa, para decorar uma casa de bonecas, sem nunca as ter encomendado. Quem não se sentiria, se essas mesmas peças em miniatura, trabalhos de um detalhe e minúcia incrível, se alterassem numa espécie de premonição de eventos futuros? A incrível Petronella não se mostrou horrorizada e a evolução da personagem surpreendeu-me em muito. A forma como os mistérios foram desvendados foi chapada atrás de chapada, e quase ao fim, quando eu já queria levar mais uma – um xeque-mate -, Jessie Burton concluiu o seu livro com um final… que me deixou assim: acabou? Quero mais.

O título da Editorial Presença induz em erro o leitor, uma questão de género que não melindra o todo do livro. É até um título que reflete a essência da obra: simplicidade e grandeza. Detalhe e leveza. Elegância e sabor. Um livro que recomendo vivamente a quem goste de um romance histórico cheio de mistérios e suaves pinceladas de sobrenatural. É curioso que, ao ler o livro, foi mais do que uma vez, aquelas em que pensei para mim próprio: sinto que podia ter sido eu a escrever isto. E é uma sensação muito boa quando um autor consegue encontrar vínculos com outros a partir daquilo que lê. Um início auspicioso para uma autora cheia de potencial. Faltou uma tragédia ainda maior no final do livro, faltou conhecer o fim de vários personagens, e faltaram muitas respostas, sim. Mas gostei muito.

Avaliação: 8/10

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15 thoughts on “O Miniaturista

  1. Ena, fiquei bastante agradada com esta opinião e com muita vontade de ler o livro. Parece-me bem interessante.
    Vai para a minha lista, não sei para quando o ler 😛 mas acho que vou gostar.

    beijinhos e boas leituras

  2. Olá Nuno,

    Gostei muito da tua opinião. Não estava muito interessada no livro, mas agora fiquei curiosa. Também tinha ideia que era algo mais macabro e assustador.
    Mais um para a lista.

    Beijinhos e boas leituras

    1. Olá Isaura,
      Obrigado pelo comentário.
      Há passagens inquietantes e momentos que posso chamar assustadores, mas é uma gota de água no livro. A autora foca-se muito mais nos laços que se criam entre os personagens e no desenvolvimento das relações humanas e comerciais entre elas. 🙂

      Beijinho e boas leituras.

  3. Olá Nuno,

    terminei hoje de manhã este livro e fiquei como tu. Esperava mais. Bastante mais.
    Apesar disso, a história serve o seu propósito e fiquei agradada com ela. Esperava algo macabro também e foi isso que acabou por me “desiludir” um pouco: a expectativa que tinha feito tendo em conta sinopses e título. Mas com o decorrer da leitura ultrapassei isso e dediquei-me a esta história, diferente daquela que estava à espera, mas muito boa, com um toque escuro bastante grande. Pode não ser de terror, mas tem um desfecho bastante trágico. Até mais, tendo em conta o que se passou com as personagens.

    Espero fazer ainda hoje a minha opinião!

    Gostei muito da tua =)

    Bjs!

    1. Olá Lamora 😛
      Disseste tudo. É um livro delicioso e até algo compulsivo, mas não era aquilo que eu esperava ao agarrá-lo, e ao ler o final, senti que faltou tanta coisa. Seria melhor se a autora aprofundasse a parte do terror. 🙂
      O final até foi bonitinho, apesar da tragédia. Eu teria morto a Nella também 😛
      Fico à espera dessa opinião.

  4. Olá Nuno!

    Já tinha visto que publicaste a opinião há uns dias, mas queria arranjar um tempinho para vir ler e comentar com calma. E aqui estou. Como sabes, também tenho este livro para ler e ando ansiosa por lhe deitar a mão. Têm-se metido outras leituras pelo meio, mas à primeira oportunidade não me escapa. Gostei muito de ler a tua opinião – já te disse que escreves super bem? ehehe

    Confesso que também tinha ideia que a história seria um bocado assustadora, mas pelo que dizes acabo por perceber que sim e não, ao mesmo tempo. Já vou com outra expectativa para a leitura, mas não acredito nem por um segundo que me possa desiludir. O tema de Maio é a Fantasia e eu até já tinha um livro pensado mas….. achas que este se poderia integrar??

    beijinhos

    1. Olá Sofia.

      Ainda bem que esperaste para ler e comentar com mais calma. Este livro tem passagens e momentos inquietantes, mas não se centra nisso. Não sei se se pode considerar fantasia, porque o sobrenatural está presente, mas o livro é muito mais romance histórico que outra coisa. 😀
      Mas acho que vais ter uma excelente leitura, e obrigado pelo elogio 😛
      Beijinho

      1. Tenho uma data de posts em vários blogues para ir visitar e comentar com calma. As folgas sabem-me a pouco e agora com o projecto do clube de leitura, ainda pior… Nunca pensei dizer isto, mas cada vez mais precisava que o dia tivesse mais do que 24h.

        Opa, estava com esperança que me dissesses que esse toque sobrenatural poderia dar para considerá-lo fantasia… Mas estou muito curiosa para o ler. Pode ser que consiga manter a minha ideia original e depois ler este 🙂 Ah, já agora estou a pensar ler a continuação de Criaturas Maravilhosas. Não é nada de extraordinário, mas até gostei do primeiro e tenho o segundo na estante há séculos… “A ber bamos”

  5. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #2 | Nuno Ferreira

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