As Origens de Zallar #6: A Reconquista


O ontem não é nosso para recuperar, mas o amanhã é nosso para ganhar ou perder. Lyndon B. Johnson

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Entre aqueles que leram o Espada que Sangra, as opiniões dividem-se. Houve os que adoraram e os que detestaram a raça chamada mahlan. Conforme conta a história, o mundo de Zallar foi povoado inicialmente pelos Homens Demónio, a primeira raça de hominídeos. Eram sujeitos com pernas idênticas às de uma avestruz, tronco e braços de primata (espécie à qual nos incluímos), e rosto de lagarto, embora todo o corpo fosse revestido de penas. Com o passar dos séculos, aqueles a que chamamos humanos surgiram do oeste para reclamar o domínio da zona a que mais tarde se convencionou chamar Terra Parda. Depois de ferozes batalhas, os humanos rechaçaram os Homens Demónio e apoderaram-se da sua sofisticada cultura, obrigando os sobreviventes dessa espécie a refugiarem-se nos desertos, onde, geração após geração, foram perdendo a sofisticação. Tornaram-se tribos nómadas e deixaram de representar qualquer perigo para a civilização humana. A verdade é que, séculos depois, os descendentes dos Homens Demónio – os mahlan – começaram a melhorar os seus armamentos e voltaram a evoluir, contrariando a tendência até ali observada. Esse progresso e o despoletar de ataques mais ousados fez com que os soberanos das espadas terrapardianas erguessem muralhas nas fronteiras, muralhas essas que travaram essas ofensivas durante décadas. No entanto, o progresso dos mahlan cresceu e as muralhas podem já não conseguir suster avanço tão feroz. Estaremos à beira de uma reconquista de Terra Parda?

Sem Título

Na arte de criação dos mahlan, fui buscar referências a várias fontes. Queria um inimigo comum arquetípico, como Os Outros do lado de lá da Muralha de George R. R. Martin ou os walkers de The Walking Dead. Mas a ideia de hordas de mortos-vivos não me convenceu nem convenceria quem lesse a minha obra. Queria construir algo de raiz, que também estivesse identificado com as próprias raízes de Zallar. Os tradicionais Homens Lagarto da fantasia heróica foram uma das inspirações mais fortes para a imagem física destes sujeitos, mas acrescentei-lhes mais alguns dados interessantes: física e intelectualmente. No Iraque foram encontradas antigas peças de barro sumérias com imagens de “deuses-répteis”, e desde logo imensas teorias foram tecidas em torno dessas figuras. As teorias mais polémicas defendem que os antigos deuses eram extraterrestres que vieram à Terra para decidir o futuro da raça humana. A Teoria dos Astronautas Antigos defende que não só os deuses das antigas civilizações eram extraterrestres que deixaram pistas, leis, para se regerem (ou para se salvarem), como também aparições de anjos seriam manifestações dessas criaturas: mensagens de criaturas de outros mundos. São incríveis as coincidências e os pormenores interessantes que estudiosos na matéria encontram, como por exemplo as medições e formatos de pirâmides em civilizações em tudo distintas. Com base nessa ideia de reptilianos criadores da espécie humana concebi os Homens Demónio, como uma possibilidade de raça primordial.

O dealbar do homem – não como o conhecemos hoje, não como o imaginamos quando ouvimos a palavra “homem” – ocorreu aproximadamente dez mil anos após a Criação de Zallar. Eram os nebulosos feéricos os donos e senhores do mundo quando eles se revelaram. A maioria das narrações indicam que, percebendo as potencialidades alimentares da terra, pequenos anfíbios e répteis haviam galgado as margens, abandonando o patrono dos mares, enquanto as aves teriam deixado o seu senhor dos céus, buscando subsistência na terra. Os deuses decidiram castigar esses mesmos animais por aquilo que consideravam alta traição e explícita violação dos seus dogmas, e o resultado de um presumível concílio divino abalou as próprias fundações de Zallar. Unindo os seus esforços, os deuses fizeram uma grande tempestade de cem anos se abater sobre Zallar. Oriundo da força singular do relâmpago, emergiu uma nova criatura: exibia um corpo reto, uma cabeça, um tronco, dois braços e duas pernas. Diz-se que todos os animais que abandonaram os seus patronos foram destruídos, e parte dos seus traços físicos foi agregada a esta nova e sublime espécie. Espada que Sangra

Sem Título

Foto: http://www.hourofwolves.org

Afigura-se então, com a ascensão mahlan, uma luta pela reconquista do poder. E para retratar uma reconquista, não há como fugir à nossa própria História. Em momento nenhum da minha saga irei retratar um facto histórico, isso poderia ser uma inibição à minha criatividade, mas muitos pontos entre a Reconquista Mahlan e a Reconquista Cristã irão convergir ao longo da narrativa.

O objetivo da Reconquista Cristã (que se iniciou no século VIII na Península Ibérica) era a recuperação das terras que haviam sido perdidas para os árabes durante a Invasão Muçulmana. Foi um longo processo que durou oito séculos. Havia começado com a revolta de Pelágio, que à frente de um grupo de refugiados fizera frente ao domínio árabe, e abrira um precedente para as gerações vindouras. Os líderes religiosos apelaram a uma participação efusiva das Cruzadas no projeto de recuperação (a Guerra Santa, que estalara em 1096) e outras instituições religiosas e militares tiveram o seu papel, como os Templários. O nosso país havia expulsado os mouros com a conquista de Faro por D. Afonso III em 1249, mas a Reconquista apenas se considerou concluída em 1492 com a tomada de Granada. Para isso contribuiu o papel decisivo de reinos feudais como os de Leão, Navarra, Aragão e Castela e uma importante aliança entre os Reis Católicos, figuras que inspiraram a criação dos personagens Owenn e Hengeld, os Reis Cléricos da História Zallariana.

Curioso para saber mais sobre esta Reconquista Mahlan e que em que moldes ela se poderá aproximar à Cristã? Continua a ler as Histórias Vermelhas de Zallar e fica atento aos posts dedicados às Origens de Zallar.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Internet dados sobre A Reconquista Cristã, assim como na Enciclopédia Larousse da Língua Portuguesa. 

Anúncios

4 thoughts on “As Origens de Zallar #6: A Reconquista

  1. Saudações,

    Sou daqueles que nao gostou destas criaturas e foi a única coisa que não gostei em tudo e não que não goste da ideia de lagartos com inteligência, alias recomendo-te um livro brilhante que é “A Oeste do Eden” de Harry Harrison (deve estar mal escrito rsrsr) onde sao muito bem desenvolvidos.

    E não foi tanto a sua forma de ser ou de pensar, isso ainda estamos para ver melhor é mesmo a sua fisionomia, corpo de lagarto, penas e pernas de avestruz….não combinada mas pronto como comentei não belisca em nada a qualidade do teu primeiro livro 😉

    Abraço e obrigado pela partilha desta mensagem, sem duvida uma bom artigo para se entender melhor o universo de Zallar 😉

  2. Boas, Nuno!
    Por acaso, considerei-os um bom “inimigo” do Homem e parecem mais uma boa fonte de perigo para os habitantes de Zallar hehe gostei de saber o que te inspirou a criá-los A Teoria dos Antigos Astronautas é tão rica para a ficção, não é? E acima de tudo interessante, dá que pensar.

Comentário

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s