As Cidades Invisíveis


O Grão Kan tentava concentrar-se no jogo: mas agora era o porquê do jogo que lhe escapou. O fim de todas as partidas é perder ou ganhar: mas o quê? Qual era a verdadeira aposta? Ao xeque-mate, sob os pés do rei derrubado pela mão do vencedor, fica um quadrado preto em branco. À força de desmaterializar as suas conquistas para as reduzir à essência, Kublai chegara à operação extrema: a conquista definitiva, de que os multiformes tesouros do império não passavam de invólucros ilusórios, reduzia-se a um pedaço de madeira aplainada: o nada…

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Cidades Invisíveis”

Italo Calvino (1923 – 1985) é um dos escritores mais interessantes do século XX. Nasceu em Cuba mas passou toda a sua vida na Europa, e com ele deixou um património literário para muitos intangível. É corrente a opinião de que As Cidades Invisíveis foi o apogeu da sua obra, e também o seu livro mais visionário. Um mundo utópico mergulhado numa mousse de pensamentos mundanos – uma metáfora de vida.

As Cidades Invisíveis apresenta-nos dois personagens interessantíssimos. Marco Polo, o explorador veneziano, que percorreu cidades inimagináveis.. e Kublai Khan, imperador Mongol e neto do mítico Gengis Khan. O Império Mongol desenhava-se da Índia à Rússia, do Irão aos limites mais orientais da China, um império megadôntico sem igual. Ainda assim, o imperador mostrava-se sequioso de conhecimento, desejoso de mergulhar em novas culturas, tentando entender as particularidades mais excêntricas do mundo desconhecido.

Neste ambiente, Marco Polo começa a catalogar um rol de cidades incríveis, com tanto de maravilhoso quanto de obscuro. O livro está dividido em nove partes, em cuja introdução e conclusão é-nos mostrada a curiosidade do imperador e os diálogos entre os dois intervenientes. Cada um dos capítulos do livro – entre uma e três páginas cada – descreve-nos cada uma das cidades na voz de Marco Polo.

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Pormenor do interior do livro

O título de cada capítulo é: As cidades…, o que se refere a uma característica que devemos ter presente no ato de leitura do capítulo. Por exemplo, o primeiro chama-se As cidades e a memória 1, uma vez que existem cinco capítulos ao longo do livro com esse título, sendo que o último encontra-se na página 39. As cidades e os sinais, e As cidades e os mortos foram os títulos que mais me chamaram a atenção. O último capítulo chama-se As cidades ocultas 5. Não percebi, de todo, a ligação entre os capítulos com semelhante título, mas será um motivo de estudo a ter em conta. Ao todo, são mais de cinquenta cidades, todas com nome de mulher, cidades que Khan deseja ardentemente conhecer, cidades imaginárias que Marco Polo busca na sua própria mente para dar ao imperador aquilo que ele quer, um vício inesgotável, uma droga, quanto mais consome, mais urgentemente precisa dela. No fundo, cada uma destas cidades é mais do que os seus monumentos e ruas febris, é os cheiros, as rotinas, as relações entre os seus habitantes, os seus “telhados de vidro” e imperfeições.

Sem Título
Capa Dom Quixote
SINOPSE:

“Se o meu livro As Cidades Invisíveis continua a ser para mim aquele em que penso haver dito mais coisas, será talvez porque tenha conseguido reunir numa única representação todas as minhas reflexões, experiências e conjunturas.”

Assim se refere o próprio Italo Calvino – um dos escritores mais importantes e estimulantes da segunda metade do século XX – a este livro surpreendente, em que a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar o símbolo complexo e inesgotável da existência humana.

OPINIÃO:

Este livro é uma pequena lufada de ar fresco. É um livro pequeno, com capítulos breves, que se lê em quatro horas. A própria escrita é suave, elegante, bela e simples, que nos transmite os cheiros visitados neste mundo fantasioso que Calvino nos apresenta. Mas esta simplicidade é apenas a camada superficial da obra em si, que no seu todo nos vai revelando um sentido alegórico profundo e complexo, numa escrita quase poética que nos convida a deslizar através dela com uma leveza etérea. Posso dizer até que, em alguns momentos, me senti na pele de Kublai Khan, desejoso de conhecer cada vez mais cidades, os seus modos de vida e contradições. É um maravilhoso compêndio de cidades inexistentes – mais de cinquenta -, e em cada uma delas existe um pouquinho de cada um de nós, e também um pouquinho do mundo que Marco Polo conheceu, da sua Veneza a que ele foi buscar tanta inspiração na construção dessa idílica utopia.

Ler este livro é como saborear um gelado, lenta e calmamente. Posso dizer que foi um gelado saboroso, e as histórias que ficaram por contar são as que ficam na nossa imaginação. Podemos lembrar-nos de poucas das cidades que Calvino nos apresentou no livro, mas certamente não nos esquecemos de vários dos seus traços e das suas vivências, por muito pouca que seja a descrição existente. Calvino convida-nos a sonhar.

Avaliação: 8/10

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6 thoughts on “As Cidades Invisíveis

  1. Olá Nuno 🙂

    Concordo contigo, Calvino convida-nos a sonhar e a viajar nesses sonhos … eu também gostei bastante deste livro, como já vistes no comentário que fiz.
    Uma curiosidade, alguma vez leste Dino Buzzati? Se não, tens de experimentar, vou comprar um livro dele na FL e depois podemos comentar.

    Beijos e Boas leituras, ah vou querer ver a tua opinião sobre Duna, acho que vais gostar bastante 😀

    1. Olá São.

      Ao princípio não estava a gostar muito, as cidades pareciam-me todas iguais, mas depois surpreendeu-me pela positiva quando me deixei envolver. 🙂
      Sim, já vi o teu comentário. 😛
      Nunca li o Dino Buzzati, e apenas ouvi falar muito superficialmente.
      Também acho que vou gostar do Duna. 😀
      Beijinho

  2. Fiacha

    Viva,

    Tenho na ideia de ter este livro na estante mas que ainda não tive oportunidade de ler, tenho mesmo que lhe pegar, pois pelo qye percebo vale bem a pena 🙂

    Abraço

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