Duna, Crónicas de Duna #1


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Duna”, primeiro volume da saga Crónicas de Duna

Lançado em 1965, Duna é um livro que atravessa gerações, como uma marca inapagável da literatura de ficção científica. O autor, Frank Herbert, nasceu em Washington em 1920 e faleceu no Wisconsin em 1986. Foi um jornalista e escritor reconhecido e galardoado, alvo da repercussão mediática que Duna causou nos anos em que viveu. Cumpriu serviço militar e passou pela Segunda Guerra Mundial como fotógrafo da marinha, onde conheceu os meandros da guerra.

Depois de um romance menos conseguido e várias publicações de ficção científica nos populares folhetins da segunda metade do século XX, Herbert concebeu Duna. A obra arrebatou, de imediato, os prémios Nebula (1965) e Hugo (1966). Duna é mais do que um romance de ficção científica: o seu significado profundamente ecologista deixou um lembrete para todos os tipos de público, para além de ser um fator original nesse tipo de ficção. A famosa saga cinematográfica Star Wars, dirigida pelo famoso George Lucas, inspirou-se em muitos elementos desta iningualável obra. Em 1984, David Lynch adaptou Duna para o cinema, mas a representação não alcançou o favor da crítica, nem de perto o sucesso do livro. Herbert escreveu uma sequência de cinco livros e um conto, que servem para compreender melhor a história, os personagens e o mundo presentes no livro original.

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Planeta Arrakis (pinterest)

Duna é passada num futuro longínquo, onde o universo é regido pelo Imperador Padishah Shaddam IV, que vive em Kaitain com a sua filha, a Princesa Irulan. De resto, somos apresentados a essa princesa como a narradora da história, uma vez que cada capítulo é antecedido por uma passagem de livros que a princesa escreveu sobre a vida do personagem central do livro – o Muad’Dib. Nesse universo incrível, os computadores e robots foram extintos, porque os homens temiam que eles os suplantassem. O governo é distribuído através de um sistema de feudos, sendo que cada Casa importante desse universo tem um representante para os governar – o duque.

Existem uma série de funções a desempenhar nessas casas ducais: do Mentat, o sujeito treinado para todo o tipo de cálculos complexos, indispensável pela falta de computadores, às Bene Gesserit, uma ordem de mulheres com poderes cognitivos acima da média, com um papel muito específico no que diz respeito ao desenvolvimento da evolução humana. As casas mais importantes neste universo são os Atreides, uma família honrada, sediada em Caladan, e os Harkonnen, família cruel residente em Giedi Prime.

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Verme de areia (filme de 1984)

Uma vez que os Atreides, representados pelo duque Leto, tornaram-se ao longo dos anos uma casa de grande respeito, e o seu poder aumenta cada vez mais, o Imperador decidiu unir-se aos Harkonnen para os aniquilar. Para isso, oferece a Leto Atreides o planeta Arrakis, mais conhecido por Duna, o incrível palco da nossa história. Todavia, tudo não passa de uma armadilha para o fazer sair do seu esconderijo.

Arrakis é um planeta fantástico, habitado pelos Fremen, uma raça muito peculiar; ali, a moeda corrente é a água, um bem raro, e os seus habitantes consomem uma incrível especiaria – a melange -, que lhes confere uma tonalidade azul na totalidade dos seus olhos, especiaria essa muito cobiçada pelo Império. Ali também conhecemos os imensos vermes, figuras imensas que os povos nómadas usam como transporte. É nesse cenário que os Harkonnen enfrentarão os Atreides. Mais do que uma casa bem defendida por homens como Gurney Hallek e Duncan Idaho, os Harkonnen terão de enfrentar algo que pouco conhecem: o poder do amor. O amor de Leto pela sua concubina Jessica, uma Bene Gesserit, e pelo filho de ambos, Paul, um rapaz destinado a grandes coisas. É este Paul, o filho que não devia ser homem, que protagoniza esta história. É ele o Muad’Dib, o rato que salta.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

O Duque Atreides é enviado para governar o planeta Arrakis, mais conhecido como Duna. Coberto por areia e montanhas, parece o local mais miserável do Império. Mas as aparências enganam: apenas em Arrakis se encontra a especiaria, uma droga imensamente valiosa e sem a qual o Império se desmoronará. O Duque sabe que a sua posição em Duna é invejada pelos seus inimigos, mas nem a cautela o salvará. E quando o pior acontece caberá ao seu filho, Paul Atreides, vingar-se da conspiração contra a sua família e refugiar-se no deserto para se tornar no misterioso homem de nome Muad’Dib. Mas Paul é muito mais do que o herdeiro da Casa Atreides. Ao viver no deserto entre o povo Fremen, ele tornar-se-á não apenas no líder, mas num messias, libertando o imenso poder que Duna abriga numa guerra que irá ter repercussões em todo o Império…

OPINIÃO:
É inegável a mestria de Frank Herbert na conceção de Duna. Não é por acaso que ele é visto como O Senhor dos Anéis da ficção científica. Herbert criou um mundo de raiz, foi o pai de uma série de elementos hoje comummente usados na atualidade, neste género literário. Adorei o ambiente, as ligações entre os personagens, identifiquei-me bastante com os Atreides, as maquinações dos Harkonnen, adorei conhecer os Fremen. De qualquer forma, não achei original (à época em que o autor escreveu poderia até sê-lo), a ideia de morte e vingança de Paul Atreides. Não é original, mas continua a ser uma ideia muito bem sucedida comercialmente.
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Não posso dizer que existiu uma quebra de qualidade desde a queda do duque Leto até ao final, a construção gradual do Muad’Dib é genial, desde o seu desenvolvimento junto dos Fremen até ao final da história, mas a primeira parte do livro marcou-me especialmente. Herbert foi um autor muito competente em todos os aspetos: a escrita é cuidada e elegante, intimista e profunda, os conhecimentos tecnológicos, militares e ecologistas são muito apurados e todos estes parâmetros enriquecem o texto de uma forma que me parece extraordinária para quem escreveu este livro nos anos 60.
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Duna é um livro riquíssimo a todos os níveis: na área da ficção científica foi pioneiro, as discrições e os diálogos equilibram-se, os pensamentos dos personagens estão sempre presentes, levando-nos a identificar com todos os personagens, até mesmo os vilões são de uma construção gradual e consistente.
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Paul Atreides (pinterest)
Existem, no entanto, alguns aspetos que me desagradaram como leitor. Os muitos termos técnicos criados por Herbert nem sequer são explicados, somos obrigados a ir percebendo o que eles significam no decorrer da leitura. Tudo bem, existe um apêndice no final do livro, mas nem ele é totalmente esclarecedor nem é muito funcional estar sempre a consultá-lo. Isto tornou a leitura confusa, em especial no princípio da obra.
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Apesar de adorar as Bene Gesserit, os Mentat e todo o universo resultante da Jihad Butleriana (o fim dos computadores), achei a religião existente em Duna como uma mescla estranha e pouco esclarecedora das nossas religiões actuais, numa perspetiva (julgo) mais ortodoxa. Quando vi as primeiras referências à Bíblia Católica Laranja, pisquei os olhos para ver se estava a ler bem. O autor também se inspirou – e isso é visível não só na cultura dos Fremen como nos próprios nomes utilizados – nas civilizações orientais, como os beduínos e os árabes, embora os Harkonnen me lembrem muito os alemães do período nazi, e ao escrever isto não esqueço que Herbert passou pela Segunda Guerra Mundial.
Resumindo, este quinquagenário é uma obra-prima que eu não podia deixar de ler. Não se enquadra nas habituais space-ópera que os amantes do género podem estar habituados, mas recomendo bastante.
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Avaliação: 8/10
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Crónicas de Duna (Saída de Emergência)
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#1 Duna
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#2 O Messias de Duna
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#3 Os Filhos de Duna
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#4 O Imperador-Deus de Duna
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#5 Os Hereges de Duna
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#6 As Herdeiras de Duna
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9 thoughts on “Duna, Crónicas de Duna #1

  1. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #2 | Nuno Ferreira

  2. Olá Nuno 🙂

    Depois de algum tempo sem aparecer pelo blogue a comentar, cá estou de volta, e nada melhor do que a Duna para comentar.
    Eu li este livro há uns dois anos talvez, e tenham-me relatado que era um dos melhores livros de FC de todos os tempos. A verdade é que gostei, sem dúvida, mas está longe de ser um dos melhores livros de Fc que já li.
    Concordo contigo que o livro não é novidade em alguns dos “seus ingredientes”. Mesmo na época em que foi escrito, eu tenho algumas dúvidas, mas não posso precisar porque não conheço tudo o que havia nessa altura, mas o certo é que foi uma época em que houve um grande Bum da FC.
    Gostei particularmente de conhecer os Fremens, e uma das questões que apontei, quando comentei o livro é que gostari de conhecer um pouco mais sobre o seu mundo e logicamente sobre Arrakis. Tem muito jogo de poder e pouco sobre o povo e a sua vida.
    Provavelmente é esta questão que me leva a gostar menos de algumas obras bem conhecidas, é que os autores centram-se muito em jogos de poder, grandes batalhas e toda a obra gira em volta disso. Quero um pouco mais, quero conhecer aquele mundo melhor. Já me disseram que os outros volumes exploram este lado, sobretudo o 2º, mas ainda não li.

    Gostei muito da tua opinião 🙂
    beijinhos boas leituras

    1. Obrigado, São. 😀
      Concordo contigo, mas também acho que o livro teve os ingredientes necessários para cativar as massas, e estes jogos de poder vendem sempre 😛
      Também não entra na lista dos meus livros preferidos, mas gostei 😀 Por acaso tenho a ideia de os seguintes não serem tão bons, mas vou ler.
      Beijinho e boas leituras. 😀

      1. Sem dúvida que tem, mas como bem sabes, quem lê muito começa a ser mais exigente e é claro que temos sempre os nossos gostos pessoais.
        já leste “A Oeste do Éden” do Harry Harrison? eu gostei imenso desse livro, uma excelente aposta de FC. Para além de Gene Wolfe 🙂

        boas leituras

  3. Fiacha

    Ois Nuno,

    Gostei da tua opinião e fico contente que tenhas gostado, para mim este foi o livro que me abriu as portas para ler FC e sem duvida que já li muita coisa boa depois de Duna, olha como esse que a São refere, “A Oeste do Éden” do Harry Harrison, um grande livro sem duvida 😉

    Abraço e boas leituras

  4. Pingback: Junho de 2015 | Rascunhos

  5. Pingback: O Messias de Duna, Crónicas de Duna #2 – Nuno Ferreira

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