As Origens de Zallar #8: A Traição Dyekken


Até tu, Brutus, meu filho! [Júlio César]

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Toda a boa história está impregnada de uma certa dose de conspiração e traições. O meu Espada que Sangra não é exceção à regra. No último post falei-vos de jogos de poder, e qual é o jogo de poder em que não há traições pelo meio? Voltaire já nos dizia que os desconfiados convidam à traição, mas depende do caso. O principal visado de traição no jogo político é aquele que detém o poder -, e no caso específico do Espada que Sangra, esse homem é Ameril Hymadher, o rei de Welçantiah. Por inveja ou por ambição, aqueles que o atraiçoaram fizeram-no, na grande maioria das vezes, para o seu próprio benefício. Existe um vasto leque de motivos por detrás das maiores traições da nossa História, grande parte deles relacionados com predisposições religiosas ou partidárias. No meu livro, Hymadher é “apunhalado” por vários dos personagens que lhe são próximos – e escuso-me a dizer os nomes ou os laços de afeto que os unem. Uma das maiores traições de que foi alvo, porém, ocorreu antes do início do livro, conforme vos relato no capítulo seis.  A traição de Dyekken Jacoh à causa Ameril.

O capitão, conhecido pela sua fanfarronice, foi enviado à frente de uma delegação para negociar com uma raça considerada “superior” em conhecimentos, os el’ak, que tornar-se-ia um apoio determinante para a guerra que Hymadher travava nas fronteiras.  As cidades-estado de Terra Parda uniram-se para defender o país de um exército de criaturas dos desertos, os mahlan, que evoluíam cada vez mais rapidamente nas suas componentes técnico-táticas. Estas criaturas usavam também ooti, uma raça de répteis voadores (os quais me inspirei nos nossos velhos amigos pterodáctilos), como montaria no ataque aéreo. A defesa aparava os avanços com poder de fogo – o tormento negro, bem semelhante à nossa pólvora; ainda assim, isso não se revelou suficiente e foi de certa forma um ato de desespero aquele que levou Hymadher a pedir apoio aos el’ak, que há décadas haviam decidido não voltar a entrar em nenhuma guerra que não lhes dissesse diretamente respeito.  Dyekken Jacoh liderou a delegação, mas as suas intenções revelaram-se dúbias. Perante a descrença dos el’ak nas suas palavras, respeitando as juras dos antigos e mostrando-se indisponíveis para servir de carne para flechas, Jacoh enviou um relatório a Welçantiah, que mais não foi que um sério pedido de reforços. Alegadamente, os el’ak haviam-nos hostilizado e a refrega tornara-se inevitável. Hymadher enviou reforços para apoiar Dyekken, mas assim que se sentiu confortável para isso, o capitão deu ordens de ocupar a fortaleza el’ak, Torre das Harpas. Depois de violentos confrontos, e graças ao poder de fogo que os el’ak não utilizavam por o considerarem produto das trevas, Dyekken Jacoh levou a melhor e ocupou a fortaleza. Fez o rei el’ak refém e controlou Torre das Harpas, não a favor do seu rei e senhor, Ameril Hymadher, mas para o seu próprio proveito. Ele renunciou aos Ameril e fez de si mesmo rei de Torre das Harpas, ao lado do seu filho, o imberbe Benn.

Sem Título

Francesco Sforza foi uma das minhas inspirações para a composição deste personagem. Nascido na Toscânia, lutou desde cedo ao lado do pai, Muzio Sforza, e tornou-se admirável pela sua habilidade de dobrar barras de metal com as mãos. Foi um grande comandante de campo e estratega formidável. Lutou não só para os napolitanos (em Nápoles acabaria por perder os seus feudos), como para os milaneses, com quem travara uma relação de amizade de vários capítulos com o duque de Milão, Filippo Visconti. O trabalho para o papado conferira-lhe estatuto entre os exércitos. Aquando da morte do duque, e à falta de um filho varão que lhe sucedesse no cargo, Sforza fora agraciado com a distinção, tornando-se duque de Milão. No poder, revelou várias habilidades de gestão, flexibilizou a política externa e garantiu a independência do estado italiano face aos predadores vizinhos. Faleceu em março de 1466, sendo substituído pelo filho, mas a sua obra perdurou através dos séculos.

É esta a visão que a História nos oferece de Francesco Sforza, e o meu Dyekken Jacoh não tem nem um pouco da honra que a biografia de Sforza transpira. Jacoh era um homem acossado por um complexo de inferioridade gigante, capaz de tudo para ocultar a sua cobardia. No entanto, alguns traços do percurso de Sforza serviram de inspiração para este personagem.

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Brutus é um dos traidores mais famosos da História. A sua memorável traição remonta a 44 a.C., quando apunhalou Júlio César nos degraus do senado. A relação de Brutus para com César era a de um filho para com um pai. Pertencente à casa dos Júnios – que se diziam ser descendentes da deusa Juno -, a sua mãe havia sido amante de César, e mais tarde o conhecido líder romano tomou-o como seu favorito. Brutus alinhou, no entanto, na conspiração de Cássio para o matar. Acabaria por não obter grandes vitórias desse assassínio, e suicidou-se dois anos mais tarde, depois de uma frustrante derrota na Batalha de Filipos. Jacoh não conspirou para matar Hymadher de uma maneira tão objetiva, desejando estabelecer-se como líder militar antes de golpear o inimigo. Nesse campo, personagens como Goròn agiram de um modo mais cerebral, com a desejada eliminação do opositor a funcionar como o trampolim para o poder. No entanto, as elegias cantadas a Brutus seriam porventura tão tristes quanto as que poderiam ser cantadas à memória ensombrada de Jacoh.

Dyekken Jacoh colocou-se de imediato em pé, com as suas gorduras a baloiçarem-lhe na barriga bojuda, coberta de pelos claros que se estendiam até ao sexo definhado. Era um homem feio de nariz abolachado e bochechas caídas, e uma grande barba loura a tender para o ruivo caía-lhe ao nível do peito peludo. Os seus olhos eram castanhos como nogueira. [Espada que Sangra, Nuno Ferreira]

A “troca de camisa” de Dyekken Jacoh tivera também uma componente religiosa. Nem Welçantiah nem Torre das Harpas eram estados laicos, cada um reverenciava os seus deuses e todo o líder político tinha a responsabilidade de prestar culto aos seus. Pelo comportamento de Jacoh, o único deus em que acreditava era nele próprio. O seu endeusamento tornou-o cego de compreender o modo de vida dos el’ak, o povo que passou a governar, mas acima de tudo, ele não impôs uma nova religião aos seus novos súbditos, porque nunca deixou de ser um cobarde. O medo de rebeliões dentro do domínio conquistado instalara-se dentro de Jacoh como um veneno, que o conduziu lentamente ao desfecho que encontrou. Faltou-lhe a coragem de um Akhenaton, que em 14 a.C. aboliu toda a religião egípcia em favor de um único deus – Aton. Isso foi visto como uma imensa traição aos olhos dos seus súbditos, mas o faraó conseguira fazer valer as suas ideias e muitas das construções erigidas durante o seu reinado são maravilhas da arquitetura milenar egípcia ainda hoje visíveis aos nossos olhos. Mais do que coragem, faltou a Jacoh um propósito. Ele quis governar por despeito, por revolta, por saber que era menos capaz que o seu rei. Um rei que nunca amara. Um rei que nunca soube igualar.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Procurei também na Wikipedia informações sobre Brutus e Sforza para não pecar em imprecisões. 

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2 thoughts on “As Origens de Zallar #8: A Traição Dyekken

  1. Ois,

    Bem ler estes textos deixam ainda mais saudades e vontade de ler a continuação desta magnifico universo, só desejo que veja a luz do dia o mais rapido possivel pois é sem a menor duvida do melhor que já li de Fantasia escrita por escritores nacionais e não fica atrás de muita coisa que por ai se publica 😉

    Grande abraço

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