Os Leões de Al-Rassan


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Os Leões de Al-Rassan”

O canadiano Guy Gavriel Kay é um escritor distinguido pela complexidade das suas obras. Autor de poesia, ficção científica, histórica e fantástica, Kay tem publicados em Portugal, pela editora Saída de Emergência, o livro dividido em dois volumes Tigana e o isolado Os Leões de Al-Rassan. O seu trabalho está traduzido em vinte e uma línguas, e entre os galardões que arrecadou, encontra-se o Aurora Award, que ganhou por duas vezes, e o International Goliardos Award, pelo papel desempenhado na disseminação do fantástico.

Os Leões de Al-Rassan apresenta-nos a nossa Península Ibérica à época da Reconquista Cristã. Teria todos os ingredientes para se tratar de um romance histórico, não fossem as suas personagens fictícias, assim como os deuses por eles reverenciados e o mundo onde coabitam. É um mundo pendente sob duas luas gémeas, segundo algumas crenças as irmãs do deus-sol – Jad.

O território ferve com os conflitos armados entre culturas distintas, uma guerra em nome da religião, mas com pouco de santidade, como todas as “guerras santas” que o nosso mundo tão bem conheceu. É um mundo em colapso o que nos é apresentado, o resquício da Al-Rassan dos califas, povoado por inimigos mortais que se estraçalham em batalhas sem quartel. O mundo é dividido em jadditas (cristãos), adoradores de Jad, asharitas (islâmicos), adoradores de Ashar, e kindates (judaicos), que se tornam o lado mais vulnerável e um dano colateral nesta sedenta guerra pelo poder.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Imagine uma Península Ibérica de fantasia, durante o período sangrento e apaixonante da Reconquista, onde realidade e fantasia se entrelaçam numa história poderosa e comovente.

Inspirado na História da Península Ibérica, Os Leões de Al-Rassan é uma épica e comovente história sobre amor, lealdades divididas e aquilo que acontece aos homens e mulheres quando crenças apaixonadas conspiram para refazer – ou destruir – o mundo. Lar de três culturas muito diferentes, Al-Rassan é uma terra de beleza sedutora e história violenta. A paz entre Jaddites, Asharites e Kindath é precária e frágil, mas é precisamente a sombra que separa os povos que acaba por unir três personagens extraordinárias: o orgulhoso Ammar ibn Khairan – poeta, diplomata e soldado, o corajoso Rodrigo Belmonte – famoso líder militar, e a bela e sensual Jehane bet Ishak – física brilhante. Três figuras cuja vida se irá cruzar devido a uma série de eventos marcantes que levam Al-Rassan ao limiar da guerra.

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Do Guy Gavriel Kay apenas tinha lido a primeira parte do Tigana, e não fiquei com a melhor das opiniões. Uma escrita forçadamente poética, cenas de sexo sem nexo, personagens um tanto ou quanto ridículos e acima de tudo, um início de livro confuso. Mas ouvi dizer tão bem deste Os Leões de Al-Rassan que o adquiri, assim como à segunda parte do Tigana, que acabou por se salvar na minha consideração a meio do primeiro volume.

O início de Os Leões não se revelou mais fácil que o Tigana. Não sei se o problema é meu ou do Kay, mas as primeiras cem páginas do livro foram um sacrifício para mim. As cenas estavam bem escritas, mas não havia uma apresentação dos personagens, não percebia quem eram os protagonistas, não sabia quem governava o quê, a descrição dos locais era pouca e era difícil perceber a história. Cheguei a pensar se o Kay queria que o leitor considerasse, de antemão, a história conhecida da Península Ibérica.

As coisas mudaram. O livro é pesado e as letras não são grandes, mas posso dizer que adoro a capa e como é habitual na Saída de Emergência, tanto o papel tem qualidade como o tipo de letra é chamativo. Assim que comecei a perceber a história, comecei a gostar mais do livro. Ele centra-se em três personagens de três culturas distintas, a kindate Jehane bet Ishak, o asharita Ammar ibn Khairan e o jaddita Rodrigo Belmonte. E posso dizer que a história encheu-me as medidas a partir do momento em que estes três personagens se cruzaram e não mais se largaram. Contra tudo e contra todos, estes três personagens evocaram não só a beleza da nossa História e dos valores pelos quais os nossos antepassados lutaram, mas acima de tudo o amor e a admiração que nasce entre os homens diante das adversidades. A ação é por vezes lenta, mas mantém um ritmo mais ou menos constante. A linha narrativa é consistente, e para além de a escrita de Kay me ter surpreendido pela positiva, as surpresas ao longo do livro e a complexidade dos seus personagens levam o meu selo de aprovação.

Acima de tudo, tiro o chapéu ao desenvolvimento por igual a que os quatro ou cinco personagens centrais tiveram direito. A lentidão da narrativa impediu-me de sentir empolgado – à exceção dos dois últimos capítulos, em que o autor me enganou bem. Não é um livro que me tenha apaixonado e não foi o suficiente para Kay entrar na minha lista de autores preferidos, mas como livro isolado há poucos que tenham a sua complexidade, profundidade e musicalidade. Estará certamente entre os cinco melhores livros que já li este ano.

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Pormenor do interior do livro

OPINIÃO (COM SPOILERS):

O livro Os Leões de Al-Rassan gira em torno de três personagens. Jehane não foi uma personagem que me encheu as medidas, achei até sobrevalorizada. A sua profissão era muito digna e o carácter igualmente venerável, mas dei por mim a perguntar-me muitas vezes o que é que ela fez para ter a importância que teve no cerne da disputa. De qualquer forma, a relação entre ela e os dois homens foi incrível. “Será errado, ou impossível, uma mulher amar dois homens?”

Foram mesmo Ammar ibn Khairan, assassino do último califa de Al-Rassan e do rei Almalik de Cartada, e o jaddita Rodrigo de Belmonte, o Flagelo de Al-Rassan, general sem medo das forças de Ramiro, os pilares do livro. Boaz e Jaquin do Templo erigido por Guy Gavriel Kay. Dois homens de naturalidades e fações distintas, mas tão iguais um ao outro. Gostei imenso da forma como os dois se interligaram, o amor deles às suas mulheres, o amor deles um pelo outro, acima de tudo uma grande admiração mútua. Eram dois homens que tinham tudo para liderar exércitos rivais, e acabaram por se tornar amigos, apesar do final que, a meu ver, foi tão credível como comovente.

Quem sabe o que é o amor?

Quem diz saber o que é o amor?

O que é o amor, digam-me.

Para além destes três personagens, uma míriade de figuras riquíssimas foi-nos apresentada ao longo do livro. Ramiro e Inês, Garcia e Gonzalez de Rada, a bela Miranda, Fernan e Diego, os Almalik, Badir de Ragosa e o chanceler ben Avren, o criado Velaz, Lain Nunez, Husari e principalmente Alvar de Pellino. Alvar foi, no fundo, o protagonista de todo o livro e um dos personagens com mais pontos de vista, e percebo a opção do autor na introdução deste personagem. Apesar disso, foi aquele com quem menos criei empatia. A sua ignorância face às crueldades do mundo, as suas fraquezas e sensibilidades fizeram dele a personificação do leitor naquele mundo atroz, mas pareceu-me o personagem com menos carisma e faltou-lhe algum fogo em momentos cruciais da trama, como aquele que revelou num dos poucos momentos em que o admirei: nu e com uma trela ao pescoço, lutou com Muwardis para salvar a vida a Rodrigo.

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Mapa do livro

Um dos momentos que achei menos credível foi o salvamento de Diego. Seria chocante mas verosímil a morte do filho de Rodrigo Belmonte. Crianças morrem na guerra, e a morte daquele personagem em específico teria despertado sentimentos mais fortes e destrutivos em cada um daqueles que lhe estavam filiados por sentimentos afetivos. O salvamento do rapaz, no estado tão brilhantemente descrito em que se encontrava, soou-me forçado.

O objetivo era unir Esperaña sob uma única bandeira, e as maquinações levadas a cabo pelas várias fações para o alcançar foram inteligentes e muito bem conseguidas, numa alusão profunda e inquietante à Reconquista Cristã que agitou a nossa Península. É uma leitura que sem dúvida recomendo a quem gostar de fantasia histórica e tiver paciência para perder algum tempo com um tomo de 550 páginas, com muito mais de História do que de fantástico.

Avaliação: 7/10

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6 thoughts on “Os Leões de Al-Rassan

  1. Saudações,

    Bem antes demais fico contente que a parte final do livro te tenha cativado mais e até que reconheças que é das melhores leituras deste ano, eu tiro a parte fantástica e menos “real” e digo sem a menor duvida que como romance histórico é do melhor que já li até hoje e toas as personagens cativam, mesmo o Alvar 😉

    Adorei aquele final 😀

    Abraço e boas leituras (acabei de ler um escritor da tua terra e quem sabe o melhor livro da SDE que li este ano 😉 )

    1. Boas
      Obrigado pelo comentário. Não concordo contigo em considerar que o livro não é fantástico, nem aqueles nomes de terras existiram, nem o nosso mundo tem duas luas. 😛
      Sim, o final foi imprevisível, já estava a ver as coisas de uma maneira e ele trocou as voltas.
      Ah, muito bem 🙂 Fico à espera da opinião ao livro do Emílio.

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