A Rapariga no Comboio


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Rapariga no Comboio”

Confesso que desconhecia a autora Paula Hawkins, mas não é difícil perceber que ela é uma das autoras do momento. A Rapariga no Comboio tornou-se com facilidade o número 1 do New York Times, vendeu dois milhões de livros em apenas três meses e o fenómeno sem paralelo tornou-se até alvo de estudos, como este que se pode encontrar no Goodreads.

O autor de horror Stephen King – um dos meus preferidos – garantiu que não conseguiu dormir para ler este thriller fantástico até ao fim, e do mesmo se “queixou” a atriz Reese Witherspoon, que comentou: “Não sei quem és, Paula Hawkins, mas mantiveste-me acordada a noite inteira”. Quem consome livros e começar a ler este à noite, terá opinião muito semelhante. Autores como Lisa Gardner e Terry Hayes partilharam opiniões semelhantes, hipnotizados pela tensão do best-seller. Em Portugal, foi publicado pela editora TopSeller.

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A história é contada em capítulos POV (point of view). Aquele que merece mais destaque é o de Rachel, a única e verdadeira rapariga no comboio do livro, uma mulher que já teve tudo o que podia desejar – um casamento feliz, um emprego, uma casa – excepto uma criança. O sonho de uma família feliz esfumou-se e a sua infertilidade conduziu-a ao álcool, e o álcool destruiu-lhe o casamento e o emprego. Hoje vive com Cathy, uma jovem doce que é também a sua senhoria, e para que ela não descubra que ficou sem emprego, Rachel continua a fazer o seu trajeto diário de comboio, trajeto esse que também se tornou um vício.

No comboio, passa diariamente junto à casa onde viveu com o seu ex-marido, Tom, e desvia o olhar, focando a atenção numa casa mais acima, onde todos os dias procura o casal que ali vive. Para Rachel, eles têm uma vida perfeita, a vida que ela tinha antes da ruína. Na sua mente, deu-lhes nomes fictícios e vidas imaginárias. Tudo parece normal, até ao dia em que testemunha algo de errado com o casal, e a vida de Rachel começa a mudar.

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Emily Blunt interpreta Rachel (filme de 2016)
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Outro ponto de vista é o de Megan. Ela é a rapariga que Rachel vê, todos os dias, do comboio. Algo de errado aconteceu – ela desapareceu. Terá fugido com um amante? Alguém a matou? Essa é uma pergunta que será esclarecida ao longo do livro, mas é também a sua premissa central.

Este é o único ponto de vista que não é lido no presente, mas no passado, permitindo-nos conhecer a sua personalidade, a sua relação com Scott, e tentar perceber os acontecimentos que conduziram ao seu desaparecimento.

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O terceiro e último ponto de vista é o de Anna. Ela é a mulher que seduziu Tom, o marido de Rachel, e ocupou o seu lugar em casa. Aparentemente, é muito diferente da protagonista, e para além de todas as questões de carácter, conseguiu dar uma filha a Tom. Está farta que Rachel continue a telefonar ao marido, sempre a cair de bêbada, e não os deixe em paz com a pequena Evie.

Viagens à Lareira #8: Eu não costumo ser vítima dos hypes momentâneos, mas uma amiga minha ofereceu-me este livro nos anos e veio mesmo a calhar. Não é que o desafio Viagens à Lareira deste mês obrigava-me a ler um thriller? Done.

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Capa TopSeller

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SINOPSE:

Todos os dias, Rachel apanha o comboio…

No caminho para o trabalho, ela observa sempre as mesmas casas durante a sua viagem. Numa das casas ela observa sempre o mesmo casal, ao qual ela atribui nomes e vidas imaginárias. Aos olhos de Rachel, o casal tem uma vida perfeita, quase igual à que ela perdeu recentemente.

Até que um dia… 

Rachel assiste a algo errado com o casal… É uma imagem rápida, mas suficiente para a deixar perturbada. Não querendo guardar segredo do que viu, Rachel fala com a polícia. A partir daqui, ela torna-se parte integrante de uma sucessão vertiginosa de acontecimentos, afectando as vidas de todos os envolvidos.

OPINIÃO (SEM SPOILERS):

Tal como diz na contracapa, o livro é de leitura compulsiva. Tudo bem, ele não é muito grande, mas li o livro em quatro dias, sem grande tempo disponível para leituras. Assim como a atriz Reese Whiterspoon, foi um livro que me deixou acordado grande parte da noite. No entanto, talvez por estar habituado a leituras fortes, não achei o livro muito violento, nem perturbador ou arrepiante. Talvez o mais próximo disso que encontrei, tenha sido o terror psicológico do livro.

Estamos metidos dentro da mente de uma alcóolica, com os sons típicos da viagem de comboio, perdidos nas memórias difusas, confusos sobre os acontecimentos que precederam e estiveram envoltos num crime, sem saber em quem confiar. A escrita não é nenhuma obra de arte, sem floreados, vai direta à questão, sempre na primeira pessoa, o que confere uma carga mais intimista à leitura. É um livro para as massas. Para a pessoa moderna. Mais, para o público feminino, não só por os pontos de vista serem da perspetiva de mulheres, como ele mostra uma visão pouco masculina. Aqui, as mulheres têm defeitos, mas isso é visto como normal, enquanto os homens à distância parecem perfeitos, e quando se conhecem por perto, são uns filhos da mãe. É uma típica perspetiva de mulher.

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O que mais me agradou no livro foi a humanidade dos seus personagens, e de longe a que mais me agradou foi Rachel. Criei empatia com o personagem desde o primeiro momento. É uma pessoa que mente com frequência, mas é uma mentira ingénua, uma mentira que revela apenas falta de coragem, a coragem que fugiu com a sua vida perfeita e com o visual bonito que envergava. Ao longo do livro vamos conhecendo mais desta mulher, da sua personalidade labiríntica que se revela ser das mais ingénuas e genuínas do thriller.

Também gostei de todo o mistério, da forma como foi contado, das pistas deixadas no decorrer dos acontecimentos. A autora soube fazer muito bem todo o suspense, mas a identidade do “culpado” não foi muito difícil de adivinhar, perto da página 200 já tinha na mente que ia ser a personagem menos provável, e que só podia ser aquela. Não é nenhuma obra-prima do género, mas é hipnotizante, tem personagens riquíssimas e muito atuais.

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OPINIÃO (COM SPOILERS)

É fácil perceber porque é que se tornou um êxito de vendas tão célere. Para além do tamanho, da perspetiva feminina – sejamos sinceros, a maioria dos leitores de romances são mulheres – e da excelente promoção, o livro oferece um ritmo alucinante, acompanhando os passos de três mulheres tão distintas como complexas.

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Rachel já teve quase tudo. É difícil presumir como era aquela mulher quando tinha uma vida quase perfeita, mas é fácil perceber a vida que ela e Tom levavam. A sua auto-estima nunca deve ter sido muito cultivada, porque ela sempre culpou-se de tudo. É incrível como a opinião de quem amamos influencia o nosso sentimento de orgulho ou culpa.

Ela embebedava-se, ela era agressiva, mas a maior parte das vezes não se lembrava do que tinha acontecido. E quando deixamos que alguém nos controle, alguém nos diga que fazemos tudo mal, quando deixamos que alguém nos humilhe, estamos a perder o respeito por nós próprios, e isso é o início de uma espiral de destruição interna – de destruição massiva.

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Megan era a traidora. A mulher que trai por prazer, porque o casamento estagnou e todas as pessoas reais precisam de alimentar o ego com coisas novas e diferentes. A ideia do perigo, de aventurar-se pelo que está errado, existe na mente da maior parte das pessoas. Mas só as mais fracas ou infantis alimentam esses desejos. Quem não está feliz com o casamento não tem de procurar um escape, mas acabar com a relação. Quem ama não trai, quem quer novas experiências, fá-las com o seu companheiro. Megan acabou por engravidar duas vezes, e o marido nunca foi o pai das crianças.

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Anna é a amante que inveja a posição da esposa. Seduziu Tom, mesmo sabendo que ele estava casado com Rachel, pelo prazer de ser a outra, pelo sabor de ser desejada pelo marido de outra mulher, por saber que ele vai estar com ela a pensar em si. E reclamou o seu lugar.

Pouco a pouco, Tom fartou-se da mulher alcóolica, e pôs no seu lugar, na sua casa, uma mulher mais bonita, mais sofisticada. Anna é uma mulher com classe, que se acha melhor que as demais. Mas este tipo de mulheres, que foram amantes do seu marido, vão percebendo com o tempo que, se ela foi amante, ele pode muito bem voltar a ter outras. E a dúvida e a desconfiança irão pairar sempre na relação, ainda que, aos olhos dos conhecidos, eles pareçam viver a vida perfeita. A dado momento, inquieta-lhe mais a ideia que ele ainda goste da ex-mulher, do que a possibilidade de ser um criminoso.

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Versão americana (houseofhipsters)

No fim de tudo, é Rachel, a alcóolica, a que mostra um coração mais generoso, quem ganha maior interesse por parte dos homens. Ela não só sabe agradar e ouvir, como também aconselhar. Ela é uma louca em quem nem a polícia dá crédito. Tão louca que vê num crime passional a melhor maneira de começar a lutar por si e pela sua sobriedade, que vê nesse evento tão macabro, uma razão para finalmente sorrir.

Pensei que os polícias fossem mais desenvolvidos, mas acabaram por ser apenas personagens muito secundários. Faltou algum desenvolvimento por parte da autora, até porque no primeiro/segundo terços do livro, parecia que eles iam ter muita importância e pouco apareceram depois disso. A personalidade dos dois suspeitos Scott e Kamal também ficou pouco esclarecida. Scott era um homem ciumento e possessivo, mas o seu final ou possível reação, não foi revelado. O mesmo com o psicólogo, um homem tranquilo que foi amante de Megan.

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O final de Rachel foi credível, mas angustiante. Assistimos ao evoluir da personagem, no fundo, ao seu bom humor mesmo num cenário tão negro, e depois da descoberta da verdade, fica a sensação que ela, apesar de estar a vencer o problema do álcool, não vai esquecer tão depressa o ocorrido, e possivelmente aquelas lembranças vão persegui-la o resto da vida.

É um livro muito interessante, com personagens credíveis e uma escrita fluída. Mas só será chocante ou perturbador para as mentes virgens no género. Como thriller em si, não é genial, posso até dizer que roça o vulgar. A minha nota deve-se essencialmente àquilo que os personagens me transmitiram e a uma série de citações com que me identifiquei muito em particular.

Avaliação: 9/10

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8 thoughts on “A Rapariga no Comboio

  1. Fiacha

    Ois,

    Bem só li o comentário sem os spoilers mas dá para perceber que temos livro, a ver se o arranjo 😉

    Abraço e boas férias 😀

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #3 | Nuno Ferreira

  3. Pingback: Em Parte Incerta – Nuno Ferreira

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