Tigana – A Voz da Vingança


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Voz da Vingança”, segundo volume de Tigana

É verdade, pouco depois de ler Os Leões de Al-Rassan, voltei ao escritor Guy Gavriel Kay para encerrar a história de Tigana e também aquilo que existe publicado por Kay em Portugal. Não é dos autores que eu mais admire, mas tem traçado um percurso notável, que começou quando Christopher Tolkien o convidou para concluir o livro O Silmarillion. É um autor multifacetado, dotado de uma escrita poética muito apreciada pelos amantes deste género de literatura. Se em Os Leões de Al-Rassan, inspirou-se na Reconquista Cristã, e em O Rio das Estrelas (ainda não publicado em português), na cultura chinesa, com Tigana o autor inspirou-se na Itália Medieval, um mundo em constante convulsão, controlado por dois terríveis feiticeiros.

Levei este livro para Itália, mas só consegui pegar-lhe durante a viagem. O livro é pequeno, mas é preciso estar devidamente concentrado para perceber minimamente a história. Tigana era o nome de uma província da região de Palma, que após ser controlada pelos ygratheanos tornou-se Baixa Corte. O próprio nome da localidade foi vítima de um encantamento, pelo que só alguns – os que se lembram – conseguem ouvir o seu nome. Entre os que se lembram está Alessan, que na verdade é o Príncipe de Tigana, exilado e despido do seu título. Ao lado de um grupo de dissidentes inspirados pela sua coragem, Alessan inicia uma campanha para recuperar a terra perdida e depor os dois poderosos feiticeiros que competem pelo poder no Império.

Sem título
Capa Saída de Emergência
SINOPSE:
O príncipe Alessan e os seus companheiros puseram em marcha um plano perigoso para unir a Península de Palma contra os reis despóticos Brandin de Ygrath e Alberico de Barbadior, numa tentativa de recuperar Tigana, a sua terra natal amaldiçoada. 
Brandin é um rei maquiavélico e arrogante, mas encontrou em Dianora alguém à sua altura e está cativo da sua beleza e charme. Alberico está cada vez mais consumido pela ambição, cego a todas as ciladas em seu redor. 
Entretanto, o nosso grupo de heróis viaja pela Península, em busca de alianças e trunfos decisivos que podem mudar a maré da batalha a seu favor. Alessan está mais moralmente dividido que nunca, Devin já não é o rapaz ingénuo que era, Catriana apenas deseja redenção e Baerd descobre uma nova magia na Península. Conseguirá Tigana vingar a memória dos seus mortos? Ninguém consegue prever o fim nem as perdas que irão sofrer. Sacrifícios serão feitos, segredos antigos serão revelados e, para uns vencerem, outros terão forçosamente de tombar.
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OPINIÃO (SEM SPOILERS)
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Antes de mais, posso dizer que a opção da editora em dividir o livro em dois apenas teve um efeito positivo em mim: o sacrifício em lê-lo seria bem maior se o fizesse de uma só assentada. Explicarei mais tarde este pequeno apontamento, de uma forma mais clara.
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A ideia de Kay foi muito boa: eu pessoalmente preferia que ele se inspirasse na Itália do Império Romano ou no período do Renascimento, mas optou pela época medieval, menos rica em detalhes e mais frequente neste tipo de literatura. De facto, apenas os nomes de personagens e terras me soaram a italiano, tudo o resto é fantasia medieval do mais corriqueiro. Ainda assim, o mundo foi bem construído; a economia, o governo e o modo de vida das populações foram bem retratados e bem desenvolvidos.
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Gostei da forma como foram descritas as relações entre personagens; temos Alessan, Baerd, Dianora, Brandin, Devin, Catriana, como apenas alguns exemplos de como os personagens podem ligar-se bem uns com os outros.
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Capa americana
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De facto, um dos pontos mais negativos de Guy Gavriel Kay é a confusão do seu texto. Para além de precisarmos de mais do que um capítulo em cada livro para conseguirmos ligar pontas e perceber quem é o personagem que está a falar, ele muda de pontos de vista sem sequer nos apresentar o personagem que está ali a ser representado. É algo que me irrita imenso como leitor. Para além disso, outra das razões que fizeram a leitura de Tigana ser um sacrifício, foi o martelar na ideia da terra perdida, nas saudades… tudo bem, o autor desperta emoções e eu próprio me senti comovido numa ou outra situação, mas a leitura foi muito aborrecida. Os capítulos enrolavam imenso e apesar de tudo ser muito credível e coeso, de a ação dos personagens ser palpável e emotiva, a maior parte do livro foi uma modorra cinzenta. Talvez tenha sido também, a falta de cor, que prejudicou tanto esta narrativa.
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De qualquer forma, é um bom livro de fantasia, de certa forma diferente, algo confuso mas bem construído e concluído, que consegue desenvolver bem os sentimentos humanos e levá-los ao êxtase.
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O livro nas minhas mãos
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OPINIÃO (COM SPOILERS)
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Devin foi mesmo aquele personagem completamente dispensável na história. Como referi na opinião ao primeiro volume, não consigo pensar neste personagem sem me lembrar do Naruto dos animes, e sei que a culpa foi minha desde o primeiro instante em que li os seus diálogos. Alessan também é facilmente identificável com o Aragorn de O Senhor dos Anéis, embora seja um personagem muito mais rico e interessante. Fiquei bastante surpreendido pelo romance improvável com Catriana, que sempre pensei que acabasse a história ao lado de Devin.
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Catriana foi uma personagem que demorou tempo a cair nas minhas boas graças – principalmente depois de se enrolar com o rapaz dentro do armário no primeiro volume, de uma forma completamente despropositada – mas acabou por me conquistar com o tempo. Agradou-me o final, embora considere que teria sido mais credível que Catriana tivesse morrido ao saltar da varanda, e Dianora terminasse viva para reencontrar o irmão. O não reencontro entre Dianora e Baerd, no entanto, também foi bem aceite por mim. Aguardamos esse momento durante grande parte do livro, e o autor decidiu trocar-nos as voltas – uma boa opção.
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Príncipe Alessan (Emmanation em deviantart)
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O personagem que, de facto, me encheu as medidas foi mesmo Sandre di Astibar, um personagem que me conquistou desde as suas primeiras aparições. Ele é um velho duque com uma história rica em detalhes e que trouxe boas surpresas no primeiro volume, e nunca mais me desiludiu. Em compensação, temos um vilão – Brandin – que teve a sua introdução sobre o ponto de vista de outros personagens e ganha um protagonismo estranho na ponta final do livro. Senti um pouco de frustração com isso, ele poderia tornar-se um dos meus personagens preferidos se tivesse igual destaque desde o início. Alberico, o outro grande feiticeiro, teve alguns pontos de vista e nem sequer consegui conceber uma ideia visual do personagem, física ou psicologicamente. Foi completamente sacrificado pela imensidão de personagens a serem desenvolvidos numa história isolada (relembro que o original é um único volume).
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O uso de magias não foi muito agradável. Tudo bem, é um mundo de feiticeiros e magos, mas nem ela foi bem explicada, nem foram conhecidos convenientemente os seus limites. Por estas razões, e por outras, a prosa de Guy Gavriel Kay oscilou entre o adulto e o infantil.
Este é daqueles livros que ouvi dizer muito bem mas que não correspondeu às expectativas. Houve vários apontamentos que me agradaram, e quando digo agradaram, digo que foram mesmo muito bons. É um autor com pormenores interessantíssimos, mas regra geral, não lhe reservo grandes elogios. A escrita dele, fluída, inteligente, elegante, é talvez um dos seus pontos fortes. Para quem goste de fantasias alternativas, eu recomendo este livro, mas entre os livros de fantasia adulta que já li, este é, talvez, dos que menos gostei.

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Avaliação: 6/10

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Tigana (Saída de Emergência):

#1 A Lâmina na Alma

#2 A Voz da Vingança

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7 thoughts on “Tigana – A Voz da Vingança

  1. Ois,

    Bem grande texto lol seja como for sempre fui um dos que defendi que Os Leões de Al Rassan são bem melhor que este livro…confesso que o desejei muito mas tambem não me encheu as medidas, ainda assim até se lê bem 😀

    Abraço e bela foto 😛

  2. Pingback: Julho / Agosto de 2015 | Rascunhos

  3. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #3 | Nuno Ferreira

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