A Sombra Sobre Lisboa


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Sombra Sobre Lisboa”

Cthulhu libertou o caos sobre Lisboa e os seus tentáculos injetaram nas mentes de escritores, editores e até músicos uma espiral de memórias de um tempo perdido, encoberto ou por descobrir, que nos liga inefavelmente ao mundo vaticinado por Howard Phillips Lovecraft. Esta míriade de escribas esmerou-se: o inconformado João Barreiros, o macabro David Soares e o mordaz Rhys-Hughes uniram-se a figuras das Edições Saída de Emergência, como Rogério Ribeiro e Safaa Dib, ao dínamo da ficção científica Luís Filipe Silva, ao ensaísta e editor João Seixas, ao cineasta António de Macedo, ao vocalista dos Moonspell Fernando Ribeiro, e a outros talentos em potência como Yves Robert, João Ventura, João Manuel Lopes, Vasco Curado ou João Henrique Pinto. Juntos, conceberam uma antologia arrepiante, A Sombra Sobre Lisboa.

H. P. Lovecraft (1890 – 1937) abanou o mundo do terror literário ao introduzir-lhe elementos fantásticos e científicos, tornando-se lenda no género. Criou raças e criaturas horripilantes, imaginou um panteão de morte e pesadelo, e inventou um livro sagrado, o Necronomicon, imbuído de palavras oriundas de tempos muito remotos, através dos quais os humanos conseguiriam invocar e despertar as criaturas e divindades mais perversas. Foi para homenagear o trabalho elaborado deste escritor norte-americano, que as Edições Saída de Emergência lançaram o repto: elaborar uma antologia sobre o mundo imaginário de Howard Phillips Lovecraft, passado na nossa Lisboa. A Sombra Sobre Lisboa é um conjunto de contos lovecraftianos passados na cidade das sete colinas.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:
Contos Lovecraftianos na cidade das sete colinas.
O que aconteceria se o fabuloso imaginário de Howard Phillips Lovecraft, considerado o maior escritor de terror fantástico de sempre fosse aplicado à cidade de Lisboa, às suas colinas inclinadas, becos escuros e prédios seculares? Guiados pela imaginação de autores tão diferentes como Rhys Hughes, António de Macedo, David Soares, João Barreiros ou José Manuel Lopes, entre outros, somos convidados para um passeio ao longo da história milenar de Lisboa e dos seus segredos mais obscuros. Entrelaçando artefactos, criaturas e intrigas lovecraftianas com factos e personagens históricas da nossa capital, o resultado é uma obra original, simultaneamente divertida e perturbadora, verdadeiro tributo não só a Lovecraft mas também à cidade de Lisboa. Prepare-se para descobrir que horrores presenciaram os fenícios na foz do Tejo… O que levou a que os mouros invadissem a península… Que monstros encontraram as caravelas durante os descobrimentos… Qual a verdadeira razão para o terramoto de 1755… Que estranhos cultos combateu Eça de Queiroz… Qual a verdadeira razão para a interrupção das obras do metro da Baixa… E muito mais!
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OPINIÃO:
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Goulas, bruxas, espíritos malignos e zombies foram a companhia perfeita para esta passeata sobre uma Lisboa lovecraftiana. É verdade que nunca li nada de H. P. Lovecraft mas o seu trabalho não me é estranho. Muito já li sobre ele e os ecos da sua criação sussurram em muito do que pode ser encontrado no terror moderno. Este livro, lançado em 2007, chamou-me a atenção, mais do que pela temática, pelos autores que nele escrevem. Os que conhecia não me desiludiram, um ou outro surpreendeu-me.
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A antologia não é superior a outras da editora, como Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa ou Lisboa no Ano 2000, mas o contraste é aqui mais evidente ao nível da qualidade dos contos apresentados. A Sombra Sobre Lisboa tem contos muito bons, que me fazem ter gostado do livro, não foi de maneira nenhuma tempo perdido, mas fiquei com a sensação que vários foram escritos sem paixão, quase diria em cima do joelho, para encher o volume. Não é uma acusação, apenas a sensação com que fiquei.
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H.P. Lovecraft (pinterest)
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Antes de passar para a análise aos contos, permitam-me elogiar o grafismo desta edição. Apesar de o meu livro se ter danificado com a passagem das folhas, a capa é lindíssima, assim como as ilustrações carregadas de negrume incluídas em cada conto, a perspetiva do ilustrador Miguel Vieira sobre cada uma das histórias apresentadas. Em contraponto, nos contos iniciais notou-se a falta de uma última revisão; nada de especial, mas não esperava encontrar os erros que encontrei num livro de aspeto tão cuidado e em contos de editores.
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No que diz respeito ao conteúdo, os três primeiros contos têm muito em comum. Uma escrita esmerada, histórias com potencial, mas que mereciam muito, muito melhor tratamento. Rogério Ribeiro apresenta-nos O Primogénito, um conto que me agradou pela alusão ao período fenício na nossa Lisboa. É aqui que se dá a primeira aparição de monstros, gostei da figura Nyarlathotep e do concílio de deuses, mas a história terminou demasiado rápido e revelou-se muito indefinida e confusa. Pedia-se maior objetividade. O segundo conto, de Safaa Dib, Vale de Sombras, conta a história da nossa Lisboa no Período Visigótico. Mas só conseguiu mostrar que a autora tem bons conhecimentos e uma escrita atrativa. Houve momentos de tensão e de terror, mas aquela história terminou de uma forma muito apressada, muito vaga, denotou-se pouca consistência narrativa e alguma confusão na importância a ser dada aos personagens. O terceiro conto, Aquele que repousa na eternidade, de Luís Filipe Silva, foi sem dúvida o mais bem conseguido dos três. Gostei do facto do próprio Lovecraft ser um personagem da história, dos paralelismos entre a nossa História e a mitologia lovecraftiana, a escrita mostrou-se irrepreensível e os desfechos foram dignos. Mas as mudanças de ponto de vista tornaram-se confusas, assim como as mudanças de forma de diálogo. Ora começavam por aspas, ora por travessões. O conto foi extenso e a narrativa demorou a arrancar, trinta páginas a mais teriam beneficiado o conto.
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O meu exemplar

Entramos então no quarto conto da antologia, desmarcando-se dos três anteriores e não pelas melhores razões. Um dia no cárcere, de João Henrique Pinto, começa bem, com uma escrita de qualidade a descrever uma sala de tortura, mas perde-se completamente em divagações e parágrafos com zero conteúdo, um fim pobre e fastidioso. É então que conhecemos O Elefante e o Cavalo, de David Soares. E é este o primeiro conto que me encheu as medidas. Primeiro, porque a escrita de David Soares, ao contrário das anteriores, não é competente, ela simplesmente é deliciosa. Depois, porque a abordagem ao imaginário lovecraftiano torna-o credível, assustadoramente credível. Uma sátira aos homens e às suas crendices, um olhar sobre o período em que Sebastião José de Carvalho e Melo se tornava o Marquês de Pombal. E a forma como ele encaixa o terramoto de Lisboa e a estátua pombalina na visão lovecraftiana é genial.
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Logo em seguida, começo a entusiasmar-me. Depois do fantástico conto de David Soares, As sombras sobre Lisboa de João Seixas, vem revelar-se ainda melhor. Não só a história é cativante, tendo o famoso Eça de Queirós como protagonista, lutando contra cultos inomináveis, vudu, zombies, goulas e humanos que querem fazer despertar Cthulhu, como a escrita do autor me apaixonou. Se ao início os seus artifícios pareceram-me exagerados, pouco a pouco deixei-me maravilhar pela forma como a escrita se tornou fluída com tanta mestria. E as reviravoltas foram muitas e agradáveis de se ler.
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António de Macedo apresentou-nos A dama do espelho negro. A escrita é simples e o conto pequeno, não me maravilhou mas posso dizer que foi o conto que mais me arrepiou. Um espelho que mostra os rostos de pessoas mortas e as suas mensagens, personagens credíveis numa época da nossa História, espiritismo e histórias familiares que fazem estremecer de uma forma muito mais incisiva do que o aparecimento de monstros e criaturas nojentas. Para compensar, Arroz de Abominação, do galês Rhys Hughes, é uma lufada de ar fresco. Uma verdadeira comédia que engloba espiões nazis e um plano secreto do português famoso pela sua gastronomia, de apanhar o mostrengo Cthulhu para fazer arroz de polvo. O conto é de leitura rápida e de fácil digestão. As Confissões de Walter Reis, de José Manuel Lopes, não me agradou minimamente. Apesar de ele transpirar a Lovecraft por todos os seus poros, ele é uma simples exposição da vida de um sujeito que se transforma num anómalo aquariano, uma escrita exaustiva, parca em desenvolvimento. Sem muito interesse, para mim.
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Imagem lovecraftiana (johncoulhtart)
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O músico Fernando Ribeiro apresenta Mastodon, que mais do que um conto, é uma canção. Não temos uma narrativa, mas uma brincadeira de palavras, que se derramam umas atrás das outras de um modo mágico que me deliciou em vários momentos, mas chegado ao fim, fica a sensação que isto não é um conto. No entanto, passou a mensagem. A ameaça rastejante, de Yves Robert, leu-se bem e conseguiu transmitir um verdadeiro clima de horror através das memórias tenebrosas de um português que vão renascendo como o prenúncio de um apocalipse. Pecou por uma maior falta de construção no que diz respeito às personagens, e a escrita não é muito atraente. A hora, de Vasco Curado, fala-nos de ratos, eles que trazem consigo uma missão horripilante. Gostei da escrita, é-nos passado um verdadeiro ambiente de “algo de mal está aqui”, em forma de sugestão, que consegue ser mais aterrorizador que uma apresentação do mal. Ainda assim, senti que foi um conto extremamente pobre em curso narrativo.
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Logo depois, João Ventura apresenta-nos um conto de qualidade em Num túnel em Lisboa. Qualidade a nível de escrita, de consistência, de credibilidade. Mas não me ficou na retina, nada nele se tornou marcante. Para terminar, Por detrás da Luz foi um hino ao absurdo e ao ridículo da esperança humana. E quem o podia escrever se não João Barreiros? Num futuro longíquo, o homem ainda é traído pelas suas próprias fraquezas, pelas manhas do corpo, pelas promiscuidades da carne e pelas vendas do coração. É com esta visão apalermada do que é o homem que nos é traçada uma narrativa que combina o folclore lovecraftiano ao mundo de ficção científica característico do autor. Mais do que a história mais entusiasmante da antologia, talvez a menos credível a nível de horror por se passar num futuro com maquinarias, escafandros e viagens no tempo, ela traz o humor sardónico tão reconhecido em João Barreiros, que sempre nos surpreende na forma como ridiculariza os seus próprios heróis.
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No fim, fica a sensação que alguns contos destacaram-se dos outros. João Seixas foi o autor que mais me surpreendeu, e o seu conto As sombras sobre Lisboa ganha o ouro como o meu preferido da antologia. Por detrás da Luz de João Barreiros fica em segundo lugar e O elefante e o cavalo de David Soares conquista a terceira posição nas minhas preferências. Estes três contos destacaram-se imenso dos outros, embora os de António de Macedo e Rhys Hughes também tenham-me proporcionado momentos de grande envolvimento. Os restantes ficaram muito aquém, mas atrevo-me a dizer que não por seu próprio demérito, aqueles que destaquei fizeram verdadeiramente a diferença.
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Recomendo a quem gostar de Lovecraft, a quem gostar de terror ou simplesmente, a quem quiser passar um bocado com contos de autores, na maioria portugueses.
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Avaliação: 6/10
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6 thoughts on “A Sombra Sobre Lisboa

  1. Olá!

    Estive para comprar este livro nos saldos da Bertrand mas acabei por não o fazer porque quando lá fui já não havia os saldos, lol. Mas é, sem dúvida, um livro a ter em conta e espero vir a tê-lo =)

    A capa e o interior estão magníficos =)

    Gostei da tua opinião, muito completa!

    Bjs e boas leituras

    1. Olá 😀
      Eu comprei-o por 5 euros da Feira do Livro do Porto. É de facto muito bonito visualmente, mas ou a edição era muito antiga, ou não sei, o livro foi-se descolando conforme o ia lendo. 🙂 Mas valeu a pena, a leitura.
      Beijinho

  2. Anónimo

    Viva,

    Bem excelente comentário mas fico na duvida se venha a ler ou não pois pelo que percebo tem contos muito bons e outros um pouco para o fraco, quem sabe se o vir no Forum Fantástico a bom preço talvez o compre isto claro se achares que o deva fazer 🙂

    Abraço

    1. Viva, Anónimo Fi :p
      Não sei se faz muito o teu estilo, mas se tiver tipo a 5 euros, é sempre uma boa aquisição. E é de autores portugueses que escrevem com grande qualidade.
      Abraço.

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