As Origens de Zallar #9: A Religião Terrapardiana


Deus não tem religião. Mahatma Gandhi

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

Um dos aspetos que me dá mais gozo enquanto autor destas Histórias Vermelhas de Zallar é a construção dos sistemas de crenças. Entre as várias religiões presentes na obra, a terrapardiana é a que aufere maior destaque neste primeiro volume. Se, num dos artigos mais recentes, foquei-me na Sociedade Sem Voz, uma confraria secreta de especial importância para o curso narrativo, este serve para apresentar a religião como um todo, uma vez que a referida organização baseia-se nas suas crenças, mas inclui também todo o tipo de figuras pagãs e divindades, atribuindo uma faceta humana aos deuses. A Sociedade Sem Voz acreditava que Anoris, o primeiro Rei de Terra Parda, era a encarnação do próprio Aan, deus-pai dos terrapardianos, o que difere grandemente da visão geral do terrapardiano, que vê o deus como algo intangível, inumano. É através da personagem Hamsha que somos apresentados a todo esse rico panteão.

À luz de uma vela de sebo, Hamsha fitou uma imagem colorida no centro da lauda. Nela, encontrava-se desenhada uma grande roda coberta de símbolos, e pequenas reproduções de animais e indivíduos se podiam ver à sua volta.
― Os trabalhos agrícolas iniciam-se ao primeiro dia da semana. O shalíngo é consagrado ao deus da fertilidade, o Lavrador, e neste dia as comunidades unem-se para a lavoura dos terrenos.
Hamsha acompanhou o indicador enrugado do homem para uma das representações na grande roda, onde mostrava uma formiga gigante de cor nívea, cujos olhos expressivos mostravam a forma de duas folhas brancas nas pupilas. Assim as considerou, porque o seu mentor acabara de lhe explicar que o Lavrador era o deus da fertilidade, da agricultura e da natureza, mas essa ideia fora-lhe recusada de imediato.
― Não, minha querida. Isto que vês nas pupilas não são folhas, mas penas brancas. Todos os deuses se transmutaram quando foram acolhidos no limbo pelo Povo das Nuvens. E ao mesclarem-se com as nuvens, ganharam também as suas características. As aves brancas que vês no céu, vêm das Terras do Povo das Nuvens, são os mensageiros que fazem a ponte entre o nosso mundo e o deles.

Posso afiançar que esta ideia de os deuses serem dotados de elementos aviários está relacionada com o que pensei inicialmente para este mundo de Zallar. A minha primeira ideia foi criar uma fauna semelhante à que existia no Período Cenozoico do nosso mundo, habitat de imensas espécies de aves do terror. Na fase de construção que se seguiu, abandonei ligeiramente essa ideia, mas mantive a vontade em fazer de Zallar um mundo de aves. Como tal, atribuí características aviárias a muitas das espécies animais, refletidas na própria natureza humana. Cito, como exemplo, a crença do céu e inferno que nos é tão comum. Se o inferno é chamado de Qaos pelos terrapardianos, o céu em que acreditam é apelidado de Terras do Povo das Nuvens, onde o falecido ganha características de aves. Para além de mensageiras entre os dois mundos, as aves brancas são vistas como seres veneráveis, enquanto as de penas negras são catalogadas como aziagas, como é o caso das gralhas-de-sangue.

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― O segundo dia da semana é o aaczto, dedicado à deusa da Paz, chamada de Alada. ― O homem tateou a página para mostrar a imagem de um maravilhoso cisne branco com uma gargantilha em ouro pendurada ao pescoço. ― Dedicado às orações caseiras, neste dia as mulheres ficam em casa, pedindo pelos seus entes-queridos à deusa. É representada como um cisne, mas antes da transformação terá sido uma bela mulher, uma rainha complacente e benévola.


― Ao terceiro dia do mundo, O Ente concebeu Shiin, também chamado de Rei Caçador ou O Cavalo de Aan, patrono da velha Welçantiah. Por isso, o terceiro dia da semana é a ele dedicado – o shiinaro.
Hamsha viu um belo cavalo de penas brancas, que de imediato associou ao unicórnio da cota de armas real de Welçantiah.
― Os templos de Misera agitam-se no miser. Este dia da semana é devoto à deusa Misera. ― Abaixo do cavalo, ao lado de um elaborado texto com a caracterização da deusa, via-se o retrato de uma mulher nua de pele verde vestida de penas brancas. ― Todos esperam que a deusa tenha misericórdia por eles e por aqueles que já se foram, que vivem agora no reino celeste junto ao Povo das Nuvens.
Do outro lado da página, estava uma mulher bailarina com uma pomba na mão.
― O quinto dia da semana é dedicado a Amável, a deusa bailarina. O amailon é um dos mais importantes dias da liturgia welçantiana. Os grandes bailes da corte são concedidos nesta noite. A deusa é representada como uma mulher a dançar com uma pomba na mão, e em alguns casos, mesmo como uma pomba branca. O Rei surge sempre nestes bailes com uma máscara de penas brancas sobre o rosto. ― O homem tossiu, apontou para debaixo da dançarina, e ali encontrou desenhada uma truta com penas brancas em vez de escamas. ― O sexto dia é o anoron, dedicado ao Anor, O Pescador de Homens. É o protetor das famílias, das crianças e dos marinheiros. Diz-se que habita na terra que há para lá do mar, e quando os homens se afogam e se perdem nas águas, Anor pesca as suas almas para o lado de lá. O anoron é o dia do lazer, dos jogos de família, e ao primeiro de cada mês, é atribuída a todas as famílias um abono relativo ao número de filhos que cada casal possui, auxiliando as famílias na sua subsistência. Por fim, o sétimo e último dia da semana – o aanir – é consagrado a Aan, o Supremo, o deus homem, o deus entre os deuses.
O homem explicou-lhe que era um dia dedicado às artes, às grandes aparições públicas e aos discursos do Rei. A representação de Aan, na base da roda, era um homem belo de longos cabelos negros e vestido de penas brancas, com uma serpente emplumada em cada mão. No norte acreditavam que a representação de Aan era mesmo uma serpente emplumada. De entre as pernas saía-lhe um comprido pénis com cabeça de serpente, conhecido entre os welçantianos como Lança de Aan, símbolo de virilidade muito adorado, mas também escarnecido pelas mentes promíscuas quando se tratava de ofender alguém. As prostitutas eram muitas vezes apelidadas de lanceiras de Aan, uma metáfora relativa ao seu ofício.

A crença de que um deus da fertilidade seja o mais venerado do panteão só encontra similaridades nas religiões matriarcais pagãs, que prestavam culto à Deusa-Mãe, seja Brígida, Sarasvati, Nibada, Cibele, Reia, dependendo da cultura que a observava. Também o nórdico Thor tenha talvez sido um deus da fertilidade tão adorado, mas o Aan da religião terrapardiana foi beber muito mais à mitologia inca do que ao imaginário viquingue. E, muito embora o deus Min não seja uma figura de destaque no panteão egípcio, a sua figura é a inspiração maior para o deus mais evocado pelo terrapardiano, essencialmente no que diz respeito à sua representação itifálica. A deusa Amável foi buscar inspiração às religiões clássicas, à Hera/Juno e à Vénus/Afrodite, mas para a conceção dos restantes deuses, foi a todas estas culturas acima citadas que bebi características relativas a ofício, estratificação social ou estado físico. A fisionomia dos mesmos adquire um contraste entre o greco-romano e o meso-americano, embora me tenha esforçado para torná-los originais, dentro do permitido pela minha imaginação. Tauret, Bes, Tiamat, Izanagi, Bhairavi são exemplos de inspirações. Ao contrário dos outros panteões apresentados nas Histórias, o terrapardiano tem espaço para uma cartela de deuses negros, correspondente à visão cristã dos anjos caídos.

O velho desfolheou umas quantas páginas para revelar uma outra representação. Nela apareciam dez gralhas-de-sangue, da cor do vinho tinto, a cor mais escura do sangue que lhes dera o nome: os akhamay. O senhor do Qaos era Moo’ron, e o seu séquito era composto por Mortmer, Moshin, Moltor, Dhalsi, Dhim, Magul, Moro, Meer e Shogon, dez deuses corrompidos no início dos tempos, que com as suas forças infernais conceberam o Qaos, um inferno imenso cujo caminho era feito através das dez misteriosas e ardentes Cabeças do Qaos. Alguns julgavam que as Cabeças do Qaos eram os próprios akhamay, outros garantiam que eram estradas negras fendidas no solo, e podiam até jurar conhecer as suas sombrias localizações.

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Aparte as caracterizações físicas e significância de cada uma destas figuras adoradas pelos terrapardianos, a mitologia em “Histórias Vermelhas de Zallar” tende a mostrar-se credível, dentro da esfera de vida dos crentes. Nesta saga, ela toca a realidade por diversas vezes, mas nunca de uma forma explícita. Obriga a que toda a sua complexidade seja desvendada, camada após camada. Sempre fui apaixonado por mitologia, por isso é com prazer que exploro estas questões, sempre de um ponto de vista mais estudioso que esotérico, ao longo da série literária. Os mistérios deixados pelos ancestrais e a génese das lendas é também um ponto a explorar. Acredito que esses imensos microcosmos de deuses e deusas que encontramos espalhados por civilizações do nosso mundo real, são faces das mesmas moedas, todos eles interpretações diferentes da mesmíssima coisa, facetas de um macrocosmos de deídades cujo significado está muito para além do divino.

E é essa perspetiva que pretendo espelhar na minha saga, despindo por frações todas as verdades encriptadas, muito mais ligadas à ciência do que ao etéreo, como o fizeram ao longo dos séculos sábios, irmandades secretas e confrarias. Dos mistérios da Ordem do Templo à Maçonaria, dos segredos envoltos à vida e morte de Jesus Cristo, às paixões pelos símbolos de poder evidenciadas por Adolf Hitler, são muitos os enigmas da humanidade que dão azo a mil e uma ideias que se coadunam com o meu imaginário. Para saber mais sobre este mundo de Zallar, pejado de mistérios, não há como pegar neste Espada que Sangra e iniciar a leitura.

Os símbolos sexuais, masculino e feminino, nasceram na mitologia grega. O círculo com a cruz representa o espelho de Afrodite (Vênus), símbolo da mulher… e o círculo com a flecha dirigida para cima representa o escudo e a lança de Ares (Marte), o símbolo do homem. Otávio Conti

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Pesquisei também na net as citações de Gandhi e Conti sobre religião e mitologia.

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2 thoughts on “As Origens de Zallar #9: A Religião Terrapardiana

  1. Fiacha

    Viva,

    Mas que belo artigo, gostei e acaba por ser um excelente complemento para conhecermos melhor este complexo universo, continua 🙂

    Já tenho saudades de voltar a Zallar, mas pronto a seu tempo 😀

    Abraço

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