Lisboa Triunfante


A Serpente aproxima-se, preta e verde, à luz da Lua na Penha deserta. Devora, mastiga, implacável. Árvore e corpos. E Ela – a mulher de cabelos pretos – vai perder. Existe uma ilha debaixo da terra. Na ilha existe uma montanha chamada Pelineus e nessa montanha está uma serpente.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Lisboa Triunfante”

O trecho acima traduz realmente, de uma forma que apenas é compreendida no último capítulo, a essência daquilo que David Soares quis fazer com o seu livro. Este Lisboa Triunfante é um dos livros mais aclamados do autor lisboeta, que começou a sua carreira literária no início dos anos 2000, e nunca mais parou. Ensaios, contos, romances e bandas-desenhadas são as obras em que David Soares mais trabalhou, como coadjuvante ou autor. O livro de contos Os Ossos do Arco-Íris, a banda-desenhada Cidade Túmulo e os romances A Conspiração dos Antepassados e O Evangelho do Enforcado são, a par deste Lisboa Triunfante, as suas obras de maior alcance.

O livro é dividido em seis capítulos, mais o prólogo e epílogo, que nos conta de uma forma transversal, em espaços temporais distintos, uma história rocambolesca que envolve todo o simbolismo da Lisboa ancestral e o relaciona a duas personalidades que parecem ter muito mais participação no destino do mundo do que os famigerados Deus e Diabo. Trata-se de uma raposa e um lagarto. Pelo meio, somos apresentados a vários personagens reais da nossa História. Este livro tem duas capas, sendo que alguns exemplares têm a capa da raposa (primeira foto) e outros a capa do lagarto (o meu exemplar, como visto na segunda foto).

Viagens à Lareira #10: Comprei este livro por 5 € na Feira do Livro do Porto e nem pensava em lê-lo para já, mas acabei por o colocar como prioritário quando vi que o desafio deste mês era um romance. Desafio aceite, desafio cumprido.

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Uma das capas da Saída de Emergência
SINOPSE:

Lisboa Triunfante é um romance épico sobre a rivalidade entre duas figuras misteriosas, cuja contenda milenária se cruza com a história da capital portuguesa. Desde as origens pré-históricas de Lisboa até aos anos turbulentos que antecederam a implantação da República, passando pela elevação da cidade a capital do Reino por Afonso III e pela construção enigmática do Mosteiro dos Jerónimos, a galeria de personagens que dão vida a Lisboa Triunfante contém figuras como Frei Gil de Santarém, D. João V e Aquilino Ribeiro. Reunindo elementos de romance histórico e fantástico, este é o livro definitivo sobre uma Lisboa mágica, que possui tanto de reconhecível quanto de maravilhoso. Lisboa Triunfante é um triunfo da imaginação.

OPINIÃO:

Uma Lisboa desconhecida espera-nos no desfolhar destas páginas. Escrito com a prosa ao mesmo tempo terna e macabra com que o autor já habituou os seus seguidores, Lisboa Triunfante é um hino à Lisboa intemporal, aliando o horror e a fantasia à História da nossa capital de uma forma artística. Fui completamente assoberbado por este livro; logo ao primeiro capítulo já estava rendido à brutalidade do autor. A história do menino pré-histórico é capaz de tocar qualquer coração, e o final do capítulo, de mórbido desenlace, deixou-me completamente à toa sobre o que me esperava da história. Os capítulos seguintes foram um desenrolar de surpresas.

O mistério em torno de Aquilino Ribeiro povoou o meu imaginário durante todo o livro, e adorei a forma como o autor usou a sua Salta-Pocinhas do Romance da Raposa da forma que usou. Mas não se ficou por ali. Sá de Miranda, Gil Vicente, Frei Gil de Santarém, D. João V, D. Afonso III, João de Castilho e Diogo Boytac são figuras de destaque em toda a narrativa. Cada capítulo é dedicado a um espaço temporal em que personagens riquíssimos da nossa História têm um papel crucial. Em comum, apenas Lisboa e o seu legado simbólico. Adorei, por exemplo, o encontro entre Aquilino Ribeiro e Fernando Pessoa. Apesar de breve, foi um momento repleto de magia, em que fui incapaz de ocultar um sorriso.

David Soares fez um trabalho notável de pesquisa, como se pode verificar pela bibliografia ao fim das 415 páginas. E ao final do livro, ele convida-nos a perceber a essência do mesmo: tudo o que existe é fruto da imaginação. Este livro pode pegar em simbolismos ocultos pela treva dos antigos e ressuscitar enigmas do passado; ele traz-nos significados ocultos em colunas de pedra; ele traz-nos a vida de homens que existiram no nosso mundo. Todavia, o autor colou todas as peças de uma forma em que tudo faz sentido, embora saibamos que nada daquilo é real. Usando o fantástico, David Soares presenteia-nos com verdades ocultas e pontas que nos suscitam inquietação e interesse. Achei muito boa a forma como o autor usou todas as crenças relacionadas com a raposa e o Homem Verde para o seu proveito narrativo. E em relação à escrita, nada a apontar. Usando um vocabulário muito rico, ele conquista-nos pela sua fluidez e paixão.

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O meu exemplar

O que menos gostei prende-se com a estrutura do livro. No final, tudo fez sentido, tudo estava correlacionado, mas durante a leitura, senti uma certa orfandade ao terminar cada capítulo relacionado com um personagem. Isto porque ficamos sem conhecer a história completa de cada sujeito, mas aceito que esse nunca tenha sido o objetivo do livro. Para conhecer as histórias daqueles homens, basta pesquisar as suas biografias. O que o autor nos quis contar, foi a história daqueles símbolos, a história daquelas crenças, a história de uma raposa e de um lagarto.

Achei também que o final soou a irreal, porque fugiu ao clima de mistério antigo que vinha sustentando toda a narrativa e enleou-nos numa nova realidade, uma realidade que o autor soube perfilhar com conhecimentos de física, mas que me soou um pouco a ficção científica mal-amanhada. Ainda assim, foi uma opção do autor que respeito e acabou por fazer sentido. Agora que li, sinto-me ingénuo por não ter percebido como tudo acabaria, acho até que as pistas foram demasiadas para que não as tenha percebido. E no fundo, sentirmo-nos enganados por um autor é aquilo que queremos ao ler um livro. É acabar a leitura com aquele sentimento de: enganaste-me. Tudo fez sentido, o que me deixou bastante satisfeito com este Lisboa Triunfante.

Não recomendo este livro a qualquer pessoa, porque da mesma forma que ele nos brinda com simbologias, História, um imenso conhecimento do nosso passado enublado e algum enternecimento e melancolia, ele também reserva violência, horror, macabro, sexo, suor e sangue. É um livro mesmo “à minha medida”, mas não é para todos os estômagos.

Avaliação: 9/10

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8 thoughts on “Lisboa Triunfante

  1. Anónimo

    Viva,

    Por acaso já tinha na ideia de um dia investir neste livro, tenho ver se encontro ai a bom preço…já li dois livros do David e sem duvida que tem qualidade mas é como dizes não é para todos 😉

    Abraço e boas leituras

  2. Anónimo

    Adenda:

    Gostei muito da nova imagem e claro o teu comentário esta excelente 🙂

    O anónimo não alcoólico mas fiacha 😛

  3. Ora viva, caro anónimo não alcoólico xD xD
    Sem dúvida, não é para todos mas é uma grande obra, a meu ver. Quais foram os que leste??
    Em relação à imagem, quis dar-lhe um tom mais clean e menos pesado. Mas ainda faltam alguns ajustes, nomeadamente no cabeçalho 😀
    Abraço e boas leituras

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