O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Feiticeiro e A Bola de Cristal”, quarto volume da série A Torre Negra

O Feiticeiro e a Bola de Cristal é o quarto volume da saga literária A Torre Negra, de Stephen King, o mestre do terror. Considerada por muitos como a sua obra mais visionária, demorou décadas a ser concluída e tem sido colocada várias vezes como hipótese para virar filme ou série de tv, o que não se adivinha tarefa fácil. O próprio King assume que, mesmo com as várias crises de inspiração ao longo da obra, ela é a mais complexa e expandida que alguma vez criou.

Roland de Gilead, Eddie, Jake e Susannah de Nova Iorque, acompanhados pelo afável billy-bumbler Oi, são um ka-tet. O ka é o destino, e o ka-tet é um grupo de pessoas (Oi é a exceção) ligadas pelo mesmo destino. No volume anterior, As Terras Devastadas, o grupo ficou finalmente unido. Jake viajou da sua Nova Iorque para o Mundo Médio de Roland, graças ao esforço conjunto dos restantes, que implicou uma cena sexual entre Susannah com um demónio que guardava o portal, e isso pode ter implicações no futuro da personagem. Depois de atravessarem terras inóspitas, chegam à cidade de Lud e embarcam num comboio louco dominado pelo demónio Blaine, obcecado por adivinhas, e aí percebem que este pretende suicidar-se e levá-los consigo para a morte.

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Mapa de Mejis (pinterest)

Neste volume, o ka-tet consegue estabelecer um trato com a criatura: se Blaine não souber a resposta a uma das suas adivinhas até chegarem à paragem de Topeka em que eles pretendem sair, o comboio parará nesse destino e deixá-los-á sair em segurança. Tornou-se uma situação desesperante, mas o pistoleiro Roland e os seus companheiros sempre conseguem surpreender em situações de maior urgência.

Ultrapassado o susto, chegam a Topeka, uma cidade que se parece com uma povoação do Kansas, futura ao espaço temporal de onde vieram Jake, Suse ou Eddie. Um mundo que nem é o deles, nem o de Roland. É nesse mundo que enfrentam novos desafios, estranhos enigmas, e que Roland lhes fala de Susan Delgado, a mulher que amou, e lhes conta uma história passada no ambiente western do Mundo Médio, na longínqua Mejis, uma história que está mais relacionada com os dias que ali vivem do que podem imaginar.

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SINOPSE:

No quarto livro da série fantástica de Stephen King, Roland, o último dos pistoleiros, e os seus companheiros continuam a sua demanda pela Torre Negra. Depois de terem escapado por pouco à morte, os cinco companheiros iniciam uma viagem aterradora por uma paisagem urbana devastada a bordo de um comboio suicida. Roland terá de enfrentar um velho e astucioso inimigo de grande astúcia e a tentação da diabólica bola de vidro do feiticeiro, uma força poderosa no primeiro amor de Roland. E a torre está mais perto…

OPINIÃO:

Escrever opinião a este livro revela-se mais difícil do que fui ajuizando no decorrer da leitura. Traz-me um sabor agridoce: a minha verdadeira opinião é que esta saga é extremamente bizarra. Nota-se que nada foi muito pensado, que as coisas saíram de forma empolgada e improvisada pelo autor, e se há autor que pode fazer isso com mestria é Stephen King. Fica a sensação que as coisas vão sendo escritas ao sabor do vento, e que King se refugia no passado já estabelecido do personagem principal para ir desenvolvendo a narrativa e montar as peças do puzzle. A forma como ele fez a analogia ao Feiticeiro de Oz foi rebuscada mas acabou por fazer sentido.

Houve momentos em que odiei este livro. Ele tem 840 páginas e o grosso delas foi passado em recordações. Ou seja, percebi desde logo que a ação propriamente dita da saga ia ser muito pouca ou nenhuma. E ao longo dessas muitas e muitas páginas, Roland conta como conheceu Susan, o grande amor da sua vida, e a sua passagem por Mejis, um vilarejo de cowboys onde vivia a rapariga. Os núcleos foram muito bem trabalhados pelo autor… bem demais. A história é muito boa, há personagens que marcam, como o fantástico Eldred Jonas e os seus cavaleiros com caixões tatuados nos dedos, a referência a Sheb, o pianista que surgiu no primeiro livro da saga ou mesmo Rhea, a bruxa, uma personagem que não gostei nada, que me conseguiu irritar do princípio ao fim mas que mostrou fazer muito sentido para toda a história do Roland.

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Rhea de Coos (RedHeretic)

Metade das páginas teria sido o suficiente para narrar a aventura com o devido desenvolvimento, e isso desanimou-me imenso ao longo da leitura. Cansou-me, é verdade. Mas King é perito em animar-nos quando as coisas estão a dar para o torto e a sua linguagem intimista e nuances de falsa infantilidade relançaram-me para a leitura.

Não fico com a melhor das impressões sobre esta história tão repleta de vilões e personagens desprezíveis, que não terminou da melhor maneira… mas não consigo dizer que não gostei. Foi bem construída e ajudou a dar mais alma à personagem principal da saga. E no fim, bem, as poucas páginas no final do livro que voltaram ao presente da narrativa fizeram desenvolver de uma forma rápida a ação da trama, atar pontas soltas, trazer respostas e um novo rol de perguntas.

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Não tenho grandes ilusões em relação a esta saga. Percebe-se facilmente que o autor não sabia o que viria a fazer à obra e foi escrevendo conforme a imaginação dele assim o ditava, mas o empolgamento e a riqueza deste estranho mundo que mistura a lenda do Rei Artur, cowboys, viagens pelo tempo e dimensões, e utiliza de uma forma inteligente pedaços do folclore americano e das suas criações literárias, a par da elegância e empolgamento do escritor, vão-me mantendo com vontade de ir lendo estes livros e chegar, tal como Roland e o seu ka-tet, à malfadada Torre Negra para descobrir os seus mistérios.

Recomendo esta saga a quem queira embrenhar-se no mundo do bizarro e do fantástico de uma forma descomplexada, tentando acompanhar o raciocínio do autor e os traços multifacetados destes personagens tão ricos que vão aparecendo. Aviso que os livros vão-se tornando cada vez maiores e menos interessantes, mas a curiosidade vai sendo fomentada pelo autor. Porque o mundo avança, e os personagens avançam com ele. É o ka. Os livros estão todos escritos, e a curiosidade não me permite parar por aqui.

Avaliação: 7/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e A Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

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11 thoughts on “O Feiticeiro e a Bola de Cristal, A Torre Negra #4

  1. fiacha

    Ois

    Bem começa a acontecer aquilo que não gosto neste escritor o que é pena, vejo que tem momentos de seca e algo descritivos 😀

    Mas o teu comentário está excelente, alias é sempre um prazer ler 😉

    Abraços

    1. Obrigado, companheiro! 😀
      Pois, o King empata bastante… nem acho que seja muito descritivo, mas nestes últimos livros tem escrito capítulos e capítulos de cenas que não acrescentam em nada. Muito bem que dão consistência e credibilidade à história, mas sem esses capítulos não deixava de ser credível ou consistente… Estas 800 e tal páginas foram um osso duro de roer, mas acabei o livro satisfeito e com vontade de ler mais. 😀 O final foi muito bom.

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