As Origens de Zallar #10: Histórias Vermelhas


A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro. Miguel de Cervantes

AVISO:

Este artigo contém spoilers do meu livro Espada que Sangra, mas pode ser lido em simultâneo, como um companion, pelos leitores mais curiosos. Conheçam mais do meu mundo fantástico.

É numa época extremamente sensível no que diz respeito a religiões e a ecos da História que encerro a primeira série de artigos sobre As Origens de Zallar. É tempo de reflectir sobre a nossa própria História, e sobre o quanto dela usei para construir este mundo fantástico.

Síria, Jordânia, Palestina, E. U. A., Inglaterra, França… Os ataques terroristas sucedem-se, em nome de grupos extremistas com a mesma base religiosa. Não é uma questão pacífica e nem todos concebemos o mesmo olhar sobre o mesmo assunto. Ao ler estas linhas, podem presumir uma comparação entre os extremistas muçulmanos e os hediondos mahlan, raça que um dia predominou em Terra Parda, a partir da qual sofreu alterações genéticas decorrentes do seu afastamento para os desertos, onde de alguma forma voltaram a evoluir. A verdade é que não pretendo estigmatizar uma civilização tão rica quanto é a muçulmana, nem de uma forma alegórica. Não porque o politicamente correto me embargue, mas porque a minha crítica dirige-se a toda a barbárie, e não a uma religião ou nacionalidade em particular.

Exige-se uma leitura aprofundada à nossa História, à filosofia cristã e à islâmica, para chegar-se a um efetivo esclarecimento sobre qual das visões foi a mais bárbara, em tempos vagamente retratados na saga. Mais do que um olhar filosófico e histórico, a própria perspetiva teológica das ideologias por mim montadas nesta série literária são extremamente divergentes em relação às crenças cristãs e muçulmanas, uma vez que elas se aproximam mais das teologias cosmológicas da Antiguidade. As ilações precisas ficam, então, reduzidas aos factores históricos e estratégicos de ambas as civilizações.

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Comum a todas as religiões, mono ou politeístas, está o sentido de sagrado, entre os fiéis de diversos credos, ateus ou agnósticos. É uma questão vinculada à própria noção de alma humana, à sua mentalidade individual ou colectiva. A diferença de experimentos, de pensamentos ou até mesmo de sentimentos – todos eles uma cadência ligada à perceção humana – é combustível para separatismos e guerras em todo o mundo, desde a aurora dos tempos.

Em Histórias Vermelhas de Zallar, a questão religiosa parece sempre subliminar aos interesses do Homem. O Homem parece agir por interesse próprio, movido por vingança ou por ganância, e pouco demonstra o lado fervoroso do sentimento religioso. Isso verifica-se, efetivamente, numa perspetiva intimista e pessoal, mas o mundo religioso está presente, as suas diferenças são patentes e sabe-se de antemão que muitos dos conflitos iniciaram-se por querer fazer valer a sua ideologia. Isso é religião. Foi para espalhar a sua mensagem que Ameril Ozilliar colonizou todas as Terras Quentes, da mesma forma que Maomé avassalou Meca e Medina. Com diferenças ao nível da perspetiva, do comportamento e do modo de agir, Maomé, Buda e Jesus Cristo foram mensageiros da sua própria doutrina, colocando-a em prática e tornando-se heróis por terem sido pioneiros e, mais do que isso, por terem sido bem-sucedidos. Como diz o ditado, dos fracos não reza a história.

Passou muito tempo até que Hamsha se habituasse à temperatura de Welçantiah, às paredes frias do Palácio Real, aos monumentos imponentes dedicados a reis deuses ímpios e pagãos. Nunca fora uma verdadeira fiel, mas habituara-se a homenagear a Estrela Flamejante, a prostrar-se aos reis solares, e por isso os deuses dos terrapardianos pareciam-lhe distantes e cruéis. Mas todo esse tempo depois, os novos deuses que conhecera já não lhe pareciam tão pétreos nem implacáveis, quando ali chegara as figuras nos painéis policromos e nas inexpugnáveis estátuárias de mármore pareciam mais graves e severas, censurando-a nas suas ações e prometendo condená-la ao frio eterno. Espada que Sangra

Os leitores de Espada que Sangra perceberam que o livro foca-se muito mais nas questões históricas do que nas religiosas, apesar de um rol de ritos, costumes e preconceitos entre culturas transparecer para quem o lê. O tempo religioso – cíclico – é manifestado sobretudo através dos dias da semana, mas não existe uma evidência efetiva de dias festivos como o Natal ou o Ramadão, que incitem os fiéis a uma verdadeira metamorfose no estilo de vida diário. Daí que classifique a leitura do Espada que Sangra como uma leitura mais histórica do que religiosa.

A nossa ideia do que é uma religião descende de duas crenças – a judaica e a cristã –  que implementaram um sistema de organização ética, ao contrário da religião muçulmana, cujas ideologias se tornaram intimamente contíguas às leis políticas e normas sociais. No mundo literário, em Terra Parda e nas suas principais cidades-estado (as espadas), preocupei-me em focar-me no lado mais materialista e objetivo do estado social, nas preocupações estratégicas e políticas. No entanto, umas pinceladas de noética – o estudo científico sobre a produção dos fenómenos do pensamento, oriundas da filosofia ateniense – e um sentido empírico das questões sobrenaturais são e serão encontradas em tempo oportuno.

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Para perceber como funcionam as religiões e o porquê de elas terem colorido de vermelho as Histórias, é necessário recorrer ao Antigo Testamento, um retrato complexo e bastante credível no que diz respeito à vontade dos homens e às suas consequências num contexto real. Importa perceber que na Antiguidade, todos os malefícios do mundo – doenças, frustrações pessoais, posições solares ou desgraças climáticas – eram atribuídas a erros de um todo, um mundo cósmico. Por conseguinte, esses erros seriam corrigidos através de dádivas ou sacrifícios, o que constituía uma crueldade animalesca, inerente à natureza humana. Rituais de sangue que desde cedo pintalgaram de vermelho o solo pisado pela humanidade. Segundo as escrituras, depois do pacto de sangue entre Abraão e Deus, ao qual é atribuído o início do judaismo, a humanidade abriu-se para uma nova realidade, separando a ideia de um todo universal para o simbolizar através de uma única divindade.

Paralelamente a esse pressuposto, as Histórias Vermelhas de Zallar são um retrato fantasioso daquilo que o Antigo Testamento quis mostrar. A génese de uma série de culturas, um compêndio de Histórias sobre civilizações confusas, que podem ser o fim ou o início de algo, as cisões entre culturas e também os seus atritos internos, o cruzar e entrecruzar de personagens, capitais para contar a história a que me propus. Um mundo de pessoas que morrem e pessoas que sobrevivem, pessoas que fogem e pessoas que enfrentam, pessoas que são aceites e outras reprimidas. O pano de fundo é uma panóplia de culturas extremamente bem enraizadas, com uma noção mais prática ou teórica do mundo, as suas diversas formas de abordar o problema e contorná-lo. Reinos quebrados e impérios em formação são o velo em que é tingido este Espada que Sangra e as Histórias Vermelhas que se vivem em Zallar.

Não é apenas a cultura islâmica que divide o mundo em “o meu mundo” (o mundo de paz), o mundo em que as normas têm de ser efetivamente cumpridas, ou sangue será derramado, e “o mundo dos outros” (o mundo da guerra), dos infiéis, dos pagãos, dos quais se forma a ideia de intolerância. Infelizmente, ainda hoje muitos ocidentais encaram a vida desta forma, vislumbrando no derramamento de sangue a solução efetiva, prática e única para a resolução de um problema. É tempo de refletir se, na era da informação em que vivemos, somos um povo assim tão civilizado como pensamos, ou se continuamos tão primitivos como nos tempos em que se matava crianças para satisfazer um deus.

Arrisca-te a entrar no sangrento mundo de Zallar.

Atreve-te a sobreviver.

Apaixona-te.

Nota: Para a realização deste artigo tive o auxílio de várias anotações minhas. Pesquisei também na net a citação de Miguel de Cervantes sobre história e um pouco sobre a cultura judaica.

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