O Retrato de Dorian Gray


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Retrato de Dorian Gray”

O Retrato de Dorian Gray é o único romance publicado por Oscar Wilde, considerado um nome de culto da literatura  irlandesa do século XIX. Foi inicialmente publicado em forma de conto, na edição de junho de 1890 da Lippincott’s Monthly Magazine, após ser alvo da censura dos editores – alarmados pelo indecoro do seu conteúdo. O autor efetuou uma revisão ampla e alterou a obra, lançando-a em formato de romance no ano seguinte, em abril de 1891, pela editora Ward, Lock and Company.

A história decorre na Londres aristocrática onde a arte e o frívolo caminham de mãos dadas. Tudo começa quando dois homens contemplam o retrato de um jovem modelo – o jovem, belo e inocente Dorian Gray. Um desses homens é Basil Hallward, pintor do retrato e amigo do rapaz, por quem está deveras encantado. O outro é Lorde Henry Wotton, um cínico aristocrata que fica desde logo interessado em conhecer o modelo que despertou no seu amigo não só tais emoções, como o melhor da sua arte. O retrato é, de facto, de uma beleza assustadoramente real.
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O Retrato de Dorian Gray (Throne of the Roses)
É então que Basil, a contragosto, se vê obrigado a apresentar os seus dois amigos. Henry fica cativado por Dorian Gray, uma vez que este revela-se igual ao retrato, um ainda jovem Adónis, com tudo para ser um caso de sucesso na alta burguesia inglesa. Por seu lado, Dorian fica também apaixonado pelos ideais de Henry e pela forma leve com que ele encara a vida, onde os prazeres do momento assumem o seu protagonismo. É durante as suas conversas que Dorian começa a odiar o seu auto-retrato, ao dar-se conta que, enquanto ele permanecerá sempre belo e jovem, o seu corpo irá envelhecer e com isso, perder toda a sua magia e interesse. A partir daí, nada será igual na sua vida.
Viagens à Lareira #12: Finalizo então, com sucesso, o desafio Viagens à Lareira. 😀 O objetivo para o mês de Dezembro era ler um clássico, e foi com essa ideia que adquiri este livro que há muito me havia despertado interesse.
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SINOPSE:

Dorian Gray é um jovem invulgarmente belo por quem Basil Hallward, um pintor londrino, fica fascinado. Determinado a eternizar a beleza de Dorian numa tela, Basil convence-o a posar para ele. Numa dessas sessões, o jovem conhece Lorde Henry Wotton, um aristocrata cínico e hedonista, que o desperta para a beleza e o seduz para a sua visão do mundo, onde as únicas coisas que valem a pena perseguir são a beleza e o prazer. Horrorizado com o destino inevitável que o fará envelhecer e perder a sua beleza, Dorian comenta com os amigos que está disposto a tudo, até mesmo a vender a alma, para permanecer eternamente jovem e manter a sua beleza.

Fortalecido pelo hedonismo, Dorian trata cruelmente a sua noiva, Sybil Vane, que se suicida com o desgosto. Ao saber do sucedido, o jovem começa a notar certas mudanças subtis na sua expressão no quadro, e constata que é o Dorian do quadro que envelhece e que sofre com a passagem dos anos, ao mesmo tempo que o Dorian real permanece com a juventude e beleza intacta. Um romance gótico de horror com um forte tema faustiano, O Retrato de Dorian Gray é considerado pela crítica como a melhor obra de Oscar Wilde.

OPINIÃO:

Não é qualquer livro que se torna um clássico da literatura, ainda para mais sendo o único romance publicado pelo célebre dramaturgo. Isso não obriga a que todos os leitores apreciem da mesma forma o livro, mas posso dizer que para mim teve um sabor especial. Li-o em apenas quatro dias, e para isso teve influência a escrita fluída de Oscar Wilde, a abundância de diálogos (certamente impulsionada pelo hábito do escritor de escrever para teatro) e o próprio tamanho do livro.

A história não é nada de extraordinário; resume-se ao que é revelado na sinopse e às consequências expectáveis do caminho tomado por Dorian Gray. Vou, por isso, revelar as particularidades que me fizeram adorar este Retrato. Em primeiro lugar, a forma em simultâneo simples e elegante com que o autor descreve todas as cenas e contextos, em contraste com a escrita corrida e apaixonada que imprime nos diálogos. A profundidade da alma do protagonista e a sua constante inquietação e dilemas. Por muito que se possa amar ou odiar Dorian Gray, é incontestável a riqueza do personagem. No meu caso, não o amei nem odiei, mas achei-o muitíssimo singular e estranhamente real. Assim como Basil Hallward pintou Dorian Gray com uma arte grotescamente viva, Oscar descreveu-o com igual perícia.

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O Retrato de Dorian Gray (weheartit)

O amor desesperado de Sybil Vane e a ideia de vingança do seu irmão James, a resignação de Basil e a perda do seu talento, o sub-desenvolvido personagem Alan Campbell e uma série de personagens circunstanciais como a duquesa e o caçador vieram erguer Dorian Gray como um ser acima de todos os outros; um ser aziago que condena tudo o que toca. A sua auto-comiseração foi outro dos pontos fortíssimos deste personagem, que tanto se critica e condena, como se desculpa e arranja justificações para os seus atos. É um homem da aristocracia, adorado e temido, sem nunca deixar de deter dentro de si uma alma de criança, que não conheceu nada para além da veneração dos outros e as ideias que lhe eram conjuradas, fortalecidas pelo hedonismo e pelo culto do eu. Nesse sentido, Lorde Henry veio a ter um papel crucial. Surpreendeu-me a forma como esse personagem foi perdendo o protagonismo, sem nunca deixar de mostrar a sua influência em Dorian.

Mais do que a história de um homem que não envelhece e de um retrato amaldiçoado, é a história da aristocracia volúvel e superficial da Inglaterra do séc. XIX. Adorei as conversas de Henry e os seus ideais; entre a sublime crueldade do seu pensamento e o endeusamento do eu, do prazer momentâneo e do belo, houve muito do seu discurso que me fez enorme sentido, e marcantes são as frases em que Henry defende que o assassínio é um ato de vulgaridade (que se torna uma metáfora do que Dorian se tornou), e aquela em que aponta a corrupção e a cultura como as duas formas de atingir a civilização.

Aos meus olhos críticos, Dorian Gray tinha pouco de cultura, e pouca argúcia para mais do que uma corrupção ingénua e viciosa. Julgo mesmo que não passava de um garotinho – mesmo a chegar à velhice. Um garoto apaixonado pelas coisas mais belas que conheceu, uma pessoa extremamente fútil e superficial, sem nunca ter sentido o dever e o prazer da utilidade. Dorian sempre viveu encantado pela experiência dos homens mais sábios, mas no fim outra das frases marcantes de Henry alerta-o para a pouca sapiência dos homens velhos, porque deles são poucos os que têm sabedoria, uma vez que não evoluíram e continuam a falar com as mesmas ideias do passado. O muito pensar nas coisas e as consequentes frustrações, conduziram Dorian ao estado de quem não vive a vida de forma fluída e que se perde na falta de consciência. Um estado de loucura, um estado de sobrevivência primitiva, um estado de cobardia. A maldade humana em estado puro.

Tentei tecer uma opinião sem soltar spoilers, e embora tenha revelado alguns, muito ficou por dizer sobre esta obra de grande alcance, que pode ser analisada de uma forma completamente diferente por uma visão diferente da minha. É um livro com uma certa carga homossexual, que penso que o autor tenha tentado mitigar aquando da sua revisão, para não ferir as susceptibilidades da época. De qualquer forma, para os amantes de literatura e de comportamentos humanos, este é mais do que recomendado.

Avaliação: 9/10

 

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10 thoughts on “O Retrato de Dorian Gray

  1. fiacha

    Viva,

    Penso ter o livro por aqui algures por ler, a ver se consigo encontrar pois pelo que percebo estou a perder uma grande leitura, excelente comentário, mais uma vez 🙂

    Abraço e boas leituras

    1. Não sei se irás gostar, mas é de uma grande complexidade a nível do comportamento humano. A nível de escrita lê-se muito bem, li-o em 3 dias xD
      Abraço e boas leituras 😀

  2. Olá Nuno!

    Fico muito contente por teres terminado o desafio (que eu própria tenho deixado para trás nos últimos meses). O Retrato de Dorian Gray também está na minha estante, mas em inglês. Pensava que já conhecia os traços gerais da história, mas depois de ler a tua opinião vejo que há muito para descobrir dentro daquele livro tão fininho. Deve ser uma crítica social muito boa e aposto que muito do que por lá leste se pode aplicar aos dias de hoje. Li recentemente O Rouxinal e a Rosa, que é uma compilação de contos do autor. Ainda não fiz opinião e nem sei se vou fazer. Livros de contos não são a minha praia, mas deixando os contos que gostei e não gostei à parte, fiquei encantada com a escrita do autor. Muitas vezes senti que estava a ouvir o narrador de uma peça de teatro, a contar-me a história. Gostei muito de ler a tua opinião, muito completa e bem escrita – dá gosto ler!

    Ainda voltando ao desafio, vou tentar terminar o ano com Um Conto de Natal, de Dickens. Bem sei que parece cliché ler este livro no mês de Dezembro e todos sabemos a história por alto, mas não me imagino a desfrutar esta leitura noutra altura do ano. Deseja-me sorte 🙂

    Beijinhos e boas leituras

    1. Viva, Sofia. É verdade, consegui completar o desafio 😛
      Em relação à história, é o que conta a sinopse e as consequências previsíveis disso. A verdadeira riqueza do livro está mesmo na crítica social e dá muito que pensar. Como disseste, pode aplicar-se aos dias de hoje. 🙂 Também gostei da escrita do autor.
      Cheguei a pensar em ler o Conto de Natal, mas este apareceu-me primeiro à frente 😛 Talvez leia esse no ano que vem, apesar de já saber a história de cor xD
      Boa sorte e obrigado pelo comentário.
      Beijinho e boas leituras. 😀

  3. Olá Nuno!

    Ainda não o li, tenho ali em inglês para ler, mas sei a história, porque vi o filme, e gostei muito. Espero sinceramente não me desiludir com este livro, uma vez que é um dos meus filmes favoritos (a versão mais moderna, de 2000 e tal).

    Excelente opinião, que reflete muito bem o que sentiste ao longo da leitura.

    Beijinhos e boas leituras

  4. Su

    Olá, Nuno!
    Estás de parabéns por teres completado o desafio 😀 tal como a Sofia também vou ler o “Christmas Carol” de Dickens para o completar.
    Gostei da tua opinião. Tenho o livro por ler na estante e fiquei ainda mais curiosa.

    Boas leituras (e boas festas!)

    1. Olá, Su 😀 Obrigado.
      Fazem bem, depois quero ver as vossas opiniões 🙂
      Quanto ao Retrato, não sei se já viste o filme. Eu nunca o vi, nem conhecia bem a história.

      Boas festas e leituras também para ti.
      Beijinhos

  5. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #4 | Nuno Ferreira

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