Histórias de Aventureiros e Patifes, Rogues #1


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Histórias de Aventureiros e Patifes”, primeira parte da antologia Rogues

Um detetive a viajar por mundos paralelos, um bardo com o poder do teletransporte, um marquês que perdeu o seu precioso casaco, um príncipe devasso, uma ladra louca ao ponto de desafiar feiticeiros, um bom malandro apostado em desmascarar a indústria cinematográfica e uma punheteira são alguns dos aventureiros e patifes que podemos encontrar nesta antologia que mistura fantasia, ficção científica, policial e terror.

Todos adoram um patife… embora, às vezes, as pessoas sobrevivam para se arrepender.

É esta a premissa com que George R. R. Martin, o célebre autor de Crónicas de Gelo e Fogo, inicia esta aventura literária chamada Histórias de Aventureiros e Patifes. Em parceria com Gardner Dozois, Martin organizou no ano passado uma antologia chamada Rogues, sendo que este volume inclui apenas metade dela, com contos dos prestigiados Neil Gaiman, Patrick Rothfuss, Gillian Flynn, Scott Lynch ou do próprio George R. R. Martin, entre outros. Fica a esperança que publiquem o restante da obra, porque há outros autores interessantes como Joe Abercrombie, Daniel Abraham e Steven Saylor nesta antologia.

O objetivo foi exatamente reunir grandes nomes do mundo literário e escrever contos sobre grandes patifes. Esta antologia já me tinha chamado a atenção aquando da publicação no Brasil, com o título Príncipe de Westeros e Outras Histórias, pelo que não tardei muito a adquirir o livro após a publicação em Portugal. Mais do que a sedução de ler boas histórias de patifes, saltam à vista os nomes dos autores. Posso dizer que Scott Lynch e George R. R. Martin estão entre os meus autores preferidos, e Neil Gaiman, do pouco que li, também agradou-me bastante.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Recomendamos cautela a ler estes contos: há muitos patifes à solta.

Há personagens malandras e sem escrúpulos cujo carisma e presença de espírito nos faz estimá-las mais do que devíamos. São patifes, mercenários e aldrabões com códigos de honra duvidosos mas que fazem de qualquer aventura uma delícia de ler.
George R. R. Martin é um grande admirador desse tipo de personagens – ou não fosse ele o autor de A Guerra dos Tronos. Nesta monumental antologia, não só participa com um prefácio e um conto introduzindo uma das personagens mais canalhas da história de Westeros, como também a organiza com Gardner Dozois. Se é fã de literatura fantástica, vai deliciar-se!

Ao ler este livro, estará a assinar um pacto de comunhão com os seguintes autores:
Gillian Flynn – autora de Em Parte Incerta
Neil Gaiman – autor de Sandman
Patrick Rothfuss – autor de O Nome do Vento
Scott Lynch – autor de As Mentiras de Locke Lamora
Connie Willis – autora de O Dia do Juízo Final

E muitas outras mentes perversas da literatura fantástica.

OPINIÃO:

As altas expectativas pregam-nos partidas, e foi o que se sucedeu com este livro. Apesar dos nomes sonantes, não o considero um livro em nada superior aos nacionais Lisboa no ano 2000 ou Os Anos de Ouro da Pulp Fiction Portuguesa. Ainda assim, não posso classificar nenhum conto desta antologia como mau. Cada um à sua maneira, cada conto foi trabalhado de forma a mostrar ao leitor que as intenções dos protagonistas nem sempre são as que imaginávamos. E é na busca por esse patife encantador que autores tão formidáveis como George R. R. Martin ou Patrick Rothfuss conceberam estas Histórias.

A introdução do livro, pelo próprio Martin, soube apelar ao encanto da bandidagem na literatura e no cinema, e também alimentar as expectativas já por si elevadas em relação à antologia. Como o Marquês Recuperou o seu Casaco, foi uma pergunta à qual Neil Gaiman soube responder com a mestria que lhe é habitual. Habitado no mundo do seu livro Neverwhere, que ainda não tive oportunidade de ler, o Marquês de Carabás inicia uma aventura para recuperar o seu maravilhoso casaco, na insólita Londres-de-Baixo. Para aquilo que já li de Gaiman, e do que se esperava deste conto, achei-o um tanto ou quanto fraco, apesar de respeitar o proposto e deixar uma moral.

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Marquês de Carabás (Forfaxia em deviantart)

Proveniência, de David W. Ball, foi uma narrativa um pouco confusa em espaços temporais e até ligeiramente maçuda, de qualquer forma como amante de arte e de História não pude deixar de gostar de muitos dos factos apresentados ligados ao Renascimento e até ao período Nazi. O final acabou por deixar a claro o que a narrativa tinha confundido. Não foi de fácil leitura, mas surpreendeu. Por sua vez, Qual É a sua Profissão?, de Gillian Flynn, fez-me querer e muito ler os seus livros Em Parte Incerta e Lugares Escuros e Objetos Cortantes. Neste conto, conhecemos uma “punheteira” que devido a um problema no pulso começa a testar os seus dotes de charlatã, mas isso acaba por levá-la a uma casa possivelmente assombrada. A escrita da autora é deliciosa, e o seu conto foi um híbrido entre comédia e terror, brilhante em ambos os géneros. A parte final podia ter sido mais convincente, apesar disso o final em aberto veio coroar a história. Uma Forma Melhor de Morrer, de Paul Cornell, foi um conto que começou muito bem, com um interessante jogo de cartas, e acabou por ter um desfecho algo fraco. Trata-se de um conto de ficção científica, onde um agente secreto ao serviço de Sua Majestade encontra uma forma de si mais jovem num dos mundos em que o nosso se desdobra.

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Um Ano e um Dia na Velha Theradane (kenlaager)

Pelas mãos de Scott Lynch, passamos Um Ano e um Dia na Velha Theradane. Bem, eu sou suspeito porque adoro a escrita e as histórias de Scott, mas este foi certamente o meu conto preferido da antologia. Repetindo a fórmula de sucesso da saga de Locke Lamora, numa perspetiva mais feminina, o autor apresenta-nos uma grande trapaceira e o seu bando aparentemente reformado, composto por uma maga e a sua esposa artesã mecânica e armeira (sim, esposa), um autómato e uma “funcionária pública” com escamas na pele e um sem-número de recursos nos brincos. Num mundo em que os feiticeiros se enfrentam pelo poder, de uma forma quase cómica, encontramos espécies que podiam ter saído de um Star Wars, uma estalagem feita no esqueleto de um dragão, diálogos divertidíssimos e uma missão quase impossível. A Caravana para Nenhures, de Phyllis Eisenstein apresenta um personagem comum na escritora, Alaric, um bardo que consegue teletransportar-se de um lado para o outro. Perseguindo uma cidade presumivelmente imaginária, onde as questões dos oásis e as drogas ganham predominância no enredo, assistimos a uma viagem pelos desertos. A escrita é boa e a própria premissa também, mas no fim fica a sensação de que pouco aconteceu e nada prendeu o leitor.

O conto Galho Vergado de Joe R. Lansdale é um policial moderno e duro, com uma linguagem violenta (que se adaptou e me agradou) e uma escrita atraente, contando uma história de Hap e Leonard, uma dupla já conhecida deste escritor. Aqui, Hap vê a sua companheira desesperada pelo desaparecimento da filha, uma rapariga que, atraída pelo mundo das drogas e da prostituição, se viu parar em mãos pouco recomendáveis. Para salvar a garota, Hap recorre à polícia, que o aconselha a procurar fazer justiça pelas próprias mãos. A escrita é agradável, mas o protagonista pareceu um pouco chocho e algumas situações foram forçadas e estranhas, para além de tudo parecer um pouco cliché neste género de policiais.

Nunca li nada de Patrick Rothfuss, pelo que este Árvore Reluzente foi a minha estreia no mundo de O Nome do Vento. Confesso que esperava mais. A escrita é ótima, os diálogos cativantes, mas os personagens não me prenderam, o mundo apresentado provavelmente é o que de menos importa na obra do escritor mas não cativou nada, e as tramóias de Bast levaram tanto tempo a serem concluídas que me perdi completamente no meio de tantos recados e juramentos.

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Daemon Targaryen (ironthronerp)

Connie Willis é outra das autoras que não conhecia e fiquei agradavelmente surpreso. Em Exibição é uma crítica contundente ao mercado cinematográfico, à frivolidade da juventude e ao mundo em que vivemos. De forma divertida, a autora mostra-nos um futuro não muito longínquo, em que o Homem de Ferro 8, Os Piratas das Caraíbas 9 e o Dr. Who estão nos cinemas, e uma jovem adolescente vê-se arrastada para um terrível complot que a impede de ver o filme de Natal que deseja. E se os filmes em exibição não estivessem realmente em exibição? Adorei a escrita e o desenrolar dos acontecimentos. Por fim, O Príncipe de Westeros ou O Irmão do Rei, de George R. R. Martin, não foi nada do que eu esperava. Trata-se apenas de uma nota documental sobre um período de Westeros em que Viserys e o seu irmão Daemon Targaryen conspiravam um contra o outro. Credível, tanto nos pormenores apresentados, como nas várias interpretações que existem para os mesmos factos históricos, é um conto importante para quem deseja saber mais sobre os períodos que antecederam a Dança dos Dragões onde Daemon desapareceu misteriosamente após o confronto com Aemond, no Olho de Deus, provavelmente morto. Sendo uma simples nota documental, foi agradável de ler mas teve nada de extraordinário.

Por fim, fica a ideia que é uma antologia agradável, mas um pouco abaixo daquilo que eu esperava. O conto de Scott Lynch ganha o ouro das minhas preferências, ficando Gillian Flynn com a prata e Connie Willis com o bronze. De facto, estes três contos foram muito melhores que os restantes, na minha opinião. A todos os que gostem de uma boa história de vigaristas, claro que recomendo.

Avaliação: 7/10

Rogues (Saída de Emergência):

#1 Histórias de Aventureiros e Patifes

#2 Histórias de Vigaristas e Canalhas

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9 thoughts on “Histórias de Aventureiros e Patifes, Rogues #1

  1. Hello!

    Recebi o meu hoje e já comecei a ler algumas páginas. Ainda vou na introdução…
    Gostei bastante de ler a tua opinião, que me ajudou a fazer uma ideia do que me aguarda. Espero que o do Scott não me desiluda, nem o do Rothfuss, se bem que já saiba que não temos Kvothe (bah!!!). Já vi que o do Martin não é nada do que se esperava, como já se tem tornado habitual nos livros de contos onde ele aparece…

    Espero gostar =)

    Beijinhos e boas leituras

    1. Hello! Espero que gostes do conto do Scott Lynch. O Rothfuss, uma vez que já conheces o mundo pode ser mais do teu agrado do que foi do meu. Tenho a certeza que algumas coisas passaram-me ao lado.
      Beijinho e boa leitura.

  2. fiacha

    Viva,

    Mais uma excelente analise coerente e bem explicada, eu ainda assim consegui, modo geral, gostar um pouco mais do que tu, mas li o Neverhere do Gaiman e já li Rofhuss o que ajuda a perceber um pouco melhor as histórias, mas pronto o importante é que tenhas dado por bem empregue as horas de leitura 😀

    Abraço e boas leituras

    1. Viva!

      Obrigado pelo comentário.
      Sem dúvida que dei por bem empregues as horas de leitura; quanto ao Gaiman e Rothfuss, talvez me ajudasse conhecer melhor os mundos, mas sinceramente um conto é bom ou não, independentemente de estar agarrado a outras histórias e é importante que o seja para quem não está familiarizado com o contexto. xD

      Abraço e boas leituras.

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