O Herói das Eras, Mistborn #3 (1/2)


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Herói das Eras – Parte Um”, terceiro volume da trilogia Mistborn – Nascida das Brumas

Mistborn – Nascida das Brumas, de Brandon Sanderson, tem sido a saga que mais tenho lido neste segundo semestre de 2015. Depois de O Império Final e O Poço da Ascensão, eis que chega o último volume da trilogia… embora seja apenas a primeira parte, uma vez que a editora Saída de Emergência decidiu dividir este terceiro volume ao meio. Para quem não sabe do que se trata, é uma saga de fantasia passada num mundo pós-apocalíptico, que se tornou absolutamente insano após um herói ter vencido um “monstro” e se ter tornado deus e imperador.

Em O Império Final, conhecemos a alomância. É o dom daqueles que possuem sangue nobre; consiste na ingestão de metais que lhes proporcionam capacidades únicas como grandes saltos, recuperação de ferimentos, acalmar ou incentivar emoções ou até mesmo prever o futuro imediato. Aqueles que possuem todas estas capacidades são os chamados nascidos das brumas, algo mais raro do que um alomante comum. Somos apresentados ao mundo governado pelo Senhor Soberano. Ele foi originalmente um herói, mas assim que salvou o mundo e derrotou um “monstro”, tomou para si o mundo e tornou-se um deus e imperador. E em todos os governos liderados por um tirano, há sempre uma força antagónica. Essa força é representada por Kelsier, o Sobrevivente de Hatshin. Kelsier ergue uma rebelião contra o Senhor Soberano, unindo para isso um bando invulgar de alomantes, onde se encontra Vin, a protagonista da saga.

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Personagens Mistborn (tumblr)

No segundo volume, O Poço da Ascensão, assistimos ao governo de Elend e em como ele se transforma, gradualmente, de um estudioso imberbe e bondoso, num rei respeitável e dinâmico. Enquanto Elend e Vin vivem uma relação amorosa conturbada, a cidade de Luthadel resiste a um terrível cerco, montado pelas tropas de Cett, Straff Venture e Jastes Lekal, atraídos pelos boatos que dão conta de um importante depósito de átio – o mineral alomante mais almejado – nas suas instalações. Entre debates morais, Vin descobre mais sobre as misteriosas espécies de humanos produzidas pelo Senhor Soberano: os colossos, os kandra e os Inquisidores de Aço. Em simultâneo, a religião criada em torno de Kelsier cresce a níveis desmesurados.

O Herói das Eras traz-nos o casal mais unido do que nunca. Elend é agora Imperador de todo o Domínio Central e Vin continua, como sempre, a ser o seu porto de abrigo. As últimas batalhas levaram-lhes amigos e esperança, mas trouxeram conhecimento. O “monstro” que o Senhor Soberano matou era, na verdade, uma espécie de divindade. Uma divindade horrenda que, libertada através do Poço da Ascensão, começa a matar através das brumas. Elend e Vin tentam parar esse terrível inimigo, ao mesmo tempo que tentam manter um Império e planear o cerco a uma cidade dissidente.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

QUEM É O HERÓI DAS ERAS?

Para pôr fim ao Império Final e restaurar a harmonia e a liberdade, Vin matou o Senhor Soberano. Mas, infelizmente, isso não significou que o equilíbrio fosse restituído às terras de Luthadel. A sombra simplesmente tomou outras formas, e a Humanidade parece amaldiçoada para sempre.

O poder divino escondido no mítico Poço da Ascensão foi libertado após Elend e Vin terem sido ludibriados. As correntes que aprisionavam essa força destrutiva foram quebradas e as brumas, agora mais do que nunca, envolvem o mundo, assassinando pessoas na escuridão. Cinzas caem constantemente do céu e terramotos brutais abalam o mundo. O espírito maléfico libertado infiltra-se subtilmente no exército do Imperador Elend e os seus oponentes. Cabe à alomante Vin e a Elend descobrir uma forma de o destruir e assim salvar o mundo. Que escolhas irão ser ambos forçados a tomar para sobreviver?

OPINIÃO:

Esta “trilogia” foi, sem dúvida, uma das minhas maiores surpresas deste ano, e o terceiro volume veio apenas confirmar todas as ideias que se vinham formando sobre ela na minha mente. O crescimento das personagens Vin e Elend são fenomenais, os dilemas morais muito bem explorados, o mundo acabou por ser um bálsamo na fantasia atual e questões como religião e política são trabalhadas de forma consistente e incrível por Brandon Sanderson. Dos personagens que mais me surpreenderam, Susto, Elend e Sazed não podem deixar de ganhar o seu destaque. Ainda assim, Brisa ainda é um dos meus personagens preferidos.

Neste terceiro volume, há vários factores positivos: Vin perdeu as suas inseguranças, Elend é um homem muito mais esclarecido, sabemos mais sobre Marsh e o autor ata, de forma consistente, muitas pontas soltas deixadas nos volumes anteriores. Finalmente sabemos quem é o verdadeiro vilão da história, ainda que ele não se manifeste de forma física. A mudança de cenário, deixando Luthadel e passando para Urteau e Fadrex, também foi um ponto muito positivo, fazendo-nos conhecer novas cidades e dando fôlego à trama. Ter Elend mais móvel também foi uma surpresa bem agradável, assim como a viagem por mar, até agora nunca vista na série. As surpresas são muitas e tudo parece estar preparado para um final em apoteose.

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Inquisidor de Aço (pinterest)

Ainda assim, tenho várias críticas a tecer. No que diz respeito à história, as coisas não melhoraram em relação ao segundo livro. Ao mesmo tempo que os mistérios se vão dissolvendo, o mundo vai perdendo alguma magia. A hemalurgia é interessante, mas as explicações sobre como funciona ficam sempre aquém, nota-se a consciência do autor na impossibilidade daquilo.

Em contraponto, as descrições detalhadas sobre a alomância tornaram-se extremamente cansativas (e daí, o problema pode ter sido de ter lido os três livros quase de seguida, mas…). Os capítulos de TenSoon, com os kandra, foram sofríveis. Só queria acabar com aquilo. Se os Inquisidores de Aço, apesar de improváveis, são extremamente interessantes, tanto os colossos como os kandra são espécies completamente dispensáveis nesta história, e a forma como o autor se repete a fazer lembrar como eles surgiram e como funcionam é absurda. E eu adorava o kandra no primeiro volume…

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Elend e Vin (art oficial)

O segundo volume, entre várias inconsistências e arrastar de acontecimentos, foi excelente a nível filosófico. Os personagens tiveram um desenvolvimento incrível e questões como religião, política ou humanidade foram debatidas com têmpera pelo autor. Eles continuam a crescer, as pontas a ser devidamente amarradas, mas quanto mais se sabe, e mais se sente o autor a frisar as explicações, mais tudo parece um pouco forçado.

Vin é uma personagem marcante pelos imensos debates morais que suscita, pelo desenvolvimento da relação poder/ignorância, mas sobretudo é um exemplo de heroína acidental cujo papel certamente figurará nas lendas. Com tanto potencial, não gostei que o autor extrapolasse tanto os limites do credível com as suas cenas aparatosas. Questão pessoal.

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Sazed (anemone ink)

A surpresa final de Vin perdeu força com os seus pensamentos anteriores. Ela estava a pensar naquela pessoa antes de ela aparecer, como se o autor de repente quisesse fazer os leitores lembrarem-se de quem ele era. Espero sinceramente que o desfecho desta surpresa não seja banal. A minha avaliação baixa em relação ao segundo volume, graças aos capítulos fastidiosos dedicados a TenSoon, mas é justo frisar que a divisão do livro também a prejudica consideravelmente. Ainda assim, esta é das melhores séries de fantasia publicadas nos últimos anos em Portugal.

Nota: 6/10

Mistborn (Saída de Emergência):

#1 O Império Final

#2 O Poço da Ascensão

#3 O Herói das Eras Parte 1

#4 O Herói das Eras Parte 2

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16 thoughts on “O Herói das Eras, Mistborn #3 (1/2)

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  3. fiacha

    Oie,

    Excelente comentário, sem duvida que este escritor merece continuar a ser publicado por cá, mas tenho as minhas serias duvidas, mas a conclusão está para breve, ao menos isso 🙂

    Abraço

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