Dagon


O texto seguinte pode conter spoilers do conto “Dagon”

Dagon é uma figura extremamente celebrada na mitologia fenícia; um deus-peixe venerado por várias civilizações. A Bíblia atribui-lhe uma aparição extremamente chocante e aziaga diante da Arca da Aliança, quando os filisteus levaram o objeto sagrado para um templo em sua honra. É também uma figura evocada e difundida comercialmente pelas mãos de Howard Phillips Lovecraft. Escrito no mesmo mês e ano em que outro conto aqui comentado, A Tumba, o conto Dagon foi escrito em 1917, passado no mesmo âmbito que o conto A Sombra Sobre Innsmouth, que escreveu quatorze anos depois.

Este conto segue a tradicional linha de ação dos contos de Lovecraft: a realidade do homem comum, a estranheza, a pesquisa e o encontro com o abominável, que conduz o leitor através de uma peregrinação onírica e inominável a um estado de loucura que resulta na própria aceitação da irrealidade. O protagonista deste conto é um marinheiro de guerra, que descobre coisas horripilantes depois de ser libertado após um tempo aprisionado pelas forças alemãs no decorrer da Segunda Grande Guerra. Perdido numa costa tortuosa, é convidado a conhecer um mal muito antigo profundamente ligado ao mar.

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SINOPSE:

I am writing this under an appreciable mental strain, since by tonight I shall be no more. Penniless, and at the end of my supply of the drug which alone, makes life endurable, I can bear the torture no longer; and shall cast myself from this garret window into the squalid street below. Do not think from my slavery to morphine that I am a weakling or a degenerate. When you have read these hastily scrawled pages you may guess, though never fully realise, why it is that I must have forgetfulness or death. It was in one of the most open and least frequented parts of the broad Pacific that the packet of which I was supercargo fell a victim to the German sea-raider…

OPINIÃO:

Perturbador, intenso e delicioso: três adjetivos que poderiam qualificar qualquer obra de Lovecraft, a que Dagon não foi exceção. É um conto curto e dinâmico, com uma linguagem íntima e intencionalmente negativa, como é apanágio do escritor. É engraçado que, ao tomar conhecimento que o autor escreveu este livro na mesma altura em que escreveu A Tumba, encontrei algumas parecenças entre ambos; ainda que o tema seja diferente, os personagens e horrores também. Há uma certa ironia na forma como os acontecimentos decorrem, e na falta de credibilidade dos mesmos. Não me refiro ao horror palpável com que o autor nos brinda; no conto The Call of Cthulhu, o mal é de uma dimensão igual ou maior, mas é apresentado em forma de relatos e provas físicas da existência do mesmo. Em A Tumba e Dagon, o autor prefere deixar-nos na dúvida se aquele acontecimento é real ou decorre da insanidade do protagonista narrador. Em qualquer dos casos, fica a incrível sensação que o horror é bem real, algo que em que o autor atingiu o seu zénite com o conto The Festival.

Neste conto, o autor volta a convidar-nos a assistir a uma sessão de medo repugnante, carregado de odores e sensações pesadas. No fundo, ele pode ser visto como um preâmbulo de uma história maior, que ele viria a escrever muito tempo mais tarde. O relato na primeira pessoa é algo que dá um toque personalizado à escrita; algo que raramente me agrada em leitura e que poucos autores como Lovecraft conseguem fazer com uma destreza fria e inegável.

Apesar de tudo, fiquei com a sensação que o clímax passou demasiado depressa. O choque foi repentino, e não durou mais que duas ou três frases. A criatura que decerto viria incendiar o conto e remeter-nos aos medos mais profundos foi uma “visita de médico” e o protagonista não teve nenhum obstáculo nem confronto, para além dos seus próprios medos e fantasmas. A sensação que este conto me deixa, tal como o último que li do autor, é que a ameaça é extremamente apocalítica, mas muito mais para o mundo que conhecemos do que para o próprio narrador, que após o acesso ao conhecimento apenas poderá sofrer as represálias resultantes dos seus próprios pesadelos, que certamente não cessarão após essa experiência. Diz-se que este conto resultou de um próprio sonho de Lovecraft, e talvez ele quisesse mesmo demonstrar que eram os seus sonhos e pesadelos, os monstros que enfrentava e que o levavam ao limiar da loucura reproduzida na escrita, tão comum em talentosos enfermos como foi Howard Phillips Lovecraft.

Avaliação: 7/10

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2 thoughts on “Dagon

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