Em Parte Incerta


O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Em Parte Incerta”

Gillian Flynn é uma autora norte-americana de thriller psicológico, responsável pelos grandes sucessos Objetos Cortantes, Lugares Escuros e Em Parte Incerta. Galardoada com imensos prémios e com uma carreira curta mas cheia de fôlego, Flynn é um dos casos de sucesso mais recentes no âmbito do terror e do thriller.

Em Parte Incerta, ou Gone Girl, o título original, é um complexo drama familiar sobre um homem acusado de um crime passional. Amy e Nick Dunne são um casal aparentemente perfeito. Ele é um escritor de revista bem-sucedido, ela a estrela de uma série de livros infantis (A Incrível Amy), escrito pelos pais – rótulo que a acompanha desde a infância. O sucesso da relação deveu-se ao entusiasmo insaciável um do outro, no alimentar dos egos inflados e na forma como fingiam ser pessoas que não eram, compreendendo-se através de piadas privadas que apenas os dois conheciam.  A perda dos empregos veio retirar o brilho à relação, os egos entraram em rota de conflito e o desapego veio mostrar as suas verdadeiras essências. Nick e Amy são duas pessoas cheias de defeitos e obsessões. Com o fundo que os pais de Amy lhe deixaram, graças ao sucesso dos livros infantis, Nick abre um bar em conjunto com a irmã gémea, Go. No dia do seu quinto aniversário de casamento, Nick chega a casa e encontra a casa revirada, a mulher desaparecida e todas as provas apontam para si como o mais que provável suspeito de um hediondo crime. Será mesmo ele o culpado?

O livro foi adaptado para os cinemas, num filme bastante elogiado com Ben Affleck e Rosamund Pike nos papéis principais.

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SINOPSE:

Uma manhã de verão no Missouri. Nick e Amy celebram o 5º aniversário de casamento. Enquanto se fazem reservas e embrulham presentes, a bela Amy desaparece. E quando Nick começa a ler o diário da mulher, descobre coisas verdadeiramente inesperadas…
Com a pressão da polícia e dos media, Nick começa a desenrolar um rol de mentiras, falsidades e comportamentos pouco adequados. Ele está evasivo, é verdade, e amargo – mas será mesmo um assassino?
Entretanto, todos os casais da cidade já se perguntam, se conhecem de facto a pessoa que amam. Nick, apoiado pela gémea Margo, assegura que é inocente. A questão é que, se não foi ele, onde está a sua mulher? E o que estaria dentro daquela caixa de prata escondida atrás do armário de Amy?

Com uma escrita incisiva e a sua habitual perspicácia psicológica, Gillian Flynn dá vida a um thriller rápido e muito negro que confirma o seu estatuto de uma das melhores escritoras do género.

OPINIÃO:

Conheci a obra de Gillian Flynn no passado mês de Dezembro, na antologia organizada por George R. R. Martin, Histórias de Aventureiros e Patifes, onde escreveu o brilhante conto Qual É a sua Profissão?. Fiquei desde logo apaixonado pela sua escrita e quis ler mais desta autora, razão pela qual adquiri Em Parte Incerta. No entanto, as minhas expectativas saíram de certa forma goradas.

Em Parte Incerta apresenta-nos uma narrativa sólida, apresentando capítulos sob o ponto de vista de Amy e Nick, alternadamente. Somos, no entanto, enganados durante a primeira metade do livro, ao descobrirmos que um dos pontos de vista é uma falácia morbidamente planeada por um dos personagens. Se posso elogiar a autora pela forma gradual com que descreveu os personagens e as suas mentes doentias, posso também atribuir várias críticas ao livro. Possivelmente este não é o meu género literário predilecto, mas o ano passado li e adorei A Rapariga no Comboio e, na minha perspetiva, esperava bem mais deste livro que foi um fenómeno de vendas.

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Gone Girl (The-Poumi em deviantart)

As primeiras cem, duzentas páginas, convidam-nos a conhecer dois personagens do mais irritante com que nos pudemos cruzar no nosso quotidiano, Nick e Amy, mas também podemos encontrar neles defeitos e comportamentos que se escondem nos meandros das nossas personalidades. É muito difícil, aqui e ali, não nos identificarmos com eles, o que torna tudo… arrepiante. Comecei o livro a não gostar da história, e a primeira impressão costuma sempre ser fulcral para a nossa opinião final. A escrita da autora foi competente, mas não encontrei o entusiasmo e humor que encontrei no conto que já tinha lido dela, antes uma escrita banal, intimista mas um pouco neurótica. 600 e tal páginas nesse frenesim irritante não me podia deixar a melhor das opiniões. De facto, o livro tem capítulos e capítulos que não adiantam nada à história. Assim, o melhor que posso dizer deste livro é que tem vários volte-faces, mas isso não chegou para me convencer. Nem mesmo esses twists, muito bem planeados pela autora, conseguiram surpreender-me. Acho que neste livro as surpresas seriam bem mais chocantes se a narrativa fosse contada na terceira pessoa.

Um livro que certamente cativará os consumidores de revistas cor-de-rosa, mas sem um mistério suficientemente bem trabalhado para arrebatar os apreciadores de um bom policial ou thriller.

Avaliação: 4/10

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5 thoughts on “Em Parte Incerta

  1. Bom, não sou consumidora de revistas cor de rosa, e considero-me uma pessoa com um nivel cultural bastante razoavel em termos literários, na medida em que nos meus já bastantes anos de vida já li muita coisa, de muitos géneros distintos, autores muito diferentes uns dos outros e aprecio imensamente a leitura. Assim sendo, devo dizer que nos últimos anos a Gillian Flynn foi das autoras que mais me surpreendeu e mais me captivou – assim como que uma nova Donna Tart! – e este livro está no topo dos meus favoritos, pela história em si, pela escrita irónica e com um humor extremamente sarcástico – li na lingua original, se calhar há coisas que se perdem com a tradução, não sei… – pelos twists que tem a narrativa, e sim, por ser contado a duas vozes e nunca na terceira pessoa. Li também o Dark Places dela e gostei bastante, acima de tudo gosto dos personagens que ela cria, é eximia nisso, ao nível do Stephen King. Mas vai na volta sou é apreciadora de revistas cor de rosa e não fazia a menor ideia até ler este post, obrigada por me elucidares nisso, acho que vou já ali comprar a Hola (ainda existe??) 😉
    http://bloglairdutemps.blogspot.pt/

    1. Olá, Miranda.
      Obrigado pela opinião.
      O último parágrafo do meu texto: “Um livro que certamente cativará os consumidores de revistas cor-de-rosa, mas sem um mistério suficientemente bem trabalhado para arrebatar os apreciadores de um bom policial ou thriller”, não é uma crítica aos consumidores de revistas cor-de-rosa, e não a conheço para saber se se enquadra ou não no perfil. Nem tão pouco os qualifico como consumidores literários menos dignos. Quis com isso dizer que é um livro mais virado para pessoas interessadas em conhecer os meandros das relações humanas, do que propriamente a fãs de policiais, uma vez que o mistério é facilmente resolvido.
      De qualquer forma, não passa da minha opinião pessoal.
      Beijinho e boas leituras.

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #5 – Nuno Ferreira

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