O Defunto


O texto seguinte pode conter spoilers do conto “O Defunto”

Nascido na Póvoa do Varzim, Eça de Queirós foi considerado por muitos como o melhor romancista português do século XIX. Autor de famosas obras como O Mistério da Estrada de Sintra, Os Maias, O Primo Basílio ou A Ilustre Casa de Ramires, José Maria de Eça de Queirós foi uma figura incontornável da literatura portuguesa.

O Defunto é um conto de terror passado no ano de 1474. Conta a história assombrada de D. Rui de Cardenas, fidalgo em Segóvia, fiel devoto de Nossa Senhora do Pilar. Numa das suas diárias peregrinações à Igreja, cai de amores por D. Leonor, esposa do grande senhor D. Alonso de Lara. Mais do que uma história de amor, é um thriller sobrenatural que acompanha uma armadilha tecida por um nobre ciumento e a inesperada intervenção de um morto.

Sem título

SINOPSE:

Ela ficara sobre o escabelo, as mãos cansadas e caídas no regaço, num infinito espanto, o olhar perdido na escuridão da noite silente. Menos escura lhe parecia a morte que essa escura aventura em que se sentia envolvida e levada! Quem era esse D. Rui de Cardenas, de quem nunca ouvira falar, que nunca atravessara a sua vida, tão quieta, tão pouco povoada de memórias e de homens? E ele decerto a conhecia, a encontrara, a seguira, ao menos com os olhos, pois que era coisa natural e bem ligada receber dela carta de tanta paixão e promessa…
Assim, um homem, e moço decerto bem nascido, talvez gentil, penetrava no seu destino bruscamente, trazido pela mão de seu marido? Tão intimamente mesmo se entranhara esse homem na sua vida, sem que ela se apercebesse, que já para ele se abria de noite a porta do seu jardim, e contra a sua janela, para ele subir, se arrumava de noite uma escada!… E era seu marido que muito secretamente escancarava a porta, e muito secretamente levantava a escada… Para quê?…

OPINIÃO:

Apesar de o início apontar para uma narrativa habitual em Queirós, com um amor proibido e uma narração trágica, o conto surpreendeu-me pela positiva. Não só manteve o meu interesse ao longo das páginas, também me deixou curioso em relação ao personagem joker que dá título ao conto. No fim, a história parece tornar-se cliché na parafernália de lendas proliferadas no nosso país, o que não tira brilho à história.

A escrita de Eça de Queirós é sublime e riquíssima, sem perder a fluidez. Gostei de todos os pormenores apresentados, da forma como os personagens foram tecidos, caindo em esteréotipos completamente banais na literatura de cordel, mas sem se tornarem enfadonhos ou demasiado previsíveis. Nenhum pormenor foi descurado pelo autor. O conto é de leitura fácil, com três pontos de vista e uma conclusão bem amarrada.

Recomendo a quem é fã do fértil legado nacional em lendas, mas também a todos os que gostam de um bom conto que mistura romance e terror.

Avaliação: 8/10

3 comentários em “O Defunto

  1. Ois,

    Bem como sei que és exigente e atribuis uma nota alta ao livro, fica registada a tua recomendação 😉

    Abraço e boas leituras

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