V de Vingança


Consigo ouvir o meu coração a ribombar. Não há nenhum outro som no teatro. Devem estar todos mortos. O pai, a mãe, o Gordon…

O texto seguinte contém spoilers do livro V de Vingança (formato BD)

Escrita pelo incontornável Alan Moore e ilustrada por David Lloyd, chega a Portugal a icónica banda-desenhada V de Vingança, difundida pela Levoir na segunda série da coleção Novela Gráfica, distribuída com o jornal Público.

V de Vingança é uma graphic novel conceituadíssima, que deu origem ao filme de 2005 com o mesmo nome e influenciou movimentos em todo o mundo. Ela passa-se num passado distópico e pós-apocalíptico, após uma violenta guerra nuclear que fez um partido totalitário ascender ao poder. Estamos em 1997, no Reino Unido. O governo controla os media, vigia as ruas com câmaras de vigilância e tem campos de concentração para grupos minoritários como judeus, negros e homossexuais. É neste contexto que surge um revolucionário mascarado conhecido como V, fazendo explodir o parlamento e deixando uma esteira de morte à sua passagem. A máscara de V foi inspirada no rosto de Guy Fawkes, um soldado inglês que pretendeu assassinar o rei Jaime I de Inglaterra e fazer explodir o Parlamento inglês no ano de 1605. Na ficção, V foi uma das vítimas sobreviventes ao regime fascista implementado.

A graphic novel é dividida em três partes, sendo que a primeira começa quando Evey, uma menina que perdeu os pais durante a guerra, oferece o seu corpo em troca de dinheiro. V chega no momento em que ela está prestes a ser abusada, matando os homens que a maltratavam e levando-a para o seu covil, onde começou a instruí-la no caminho da anarquia. Segue-se um rol de pequenas vinganças todas elas relacionadas entre si. V invade um comboio e deixa o propagandista radiofónico do partido do governo, Lewis Prothero, em estado catatónico, gritando pela mãe. Faz Evey ser levada ao bispo Lilliman, para quase ser abusada por ele no momento em que V surge para o matar. Envenena a Dr.ª Delia Surridge e assassina o marido quando ele o surpreende. Depressa a investigação criminal descobre uma ligação entre as mortes e deduz que o terrorista mascarado seja uma das vítimas que sobrevivera à tortura no campo de concentração de Larkhill.

A segunda parte do livro centra-se na aprendizagem de Evey. A jovem é capturada e levada a uma cela, onde a deixam à míngua, rapam-lhe o cabelo e torturam-na para que ela divulgue a localização e os planos do seu mestre – V. Durante a clausura, Evey recebe mensagens de uma cela ao lado, onde uma mulher chamada Valerie, lésbica, relata o sofrimento por que passou e diz que a ama. Quando prova a sua lealdade a V, Evey descobre que a sua captura foi uma encenação montada pelo próprio anarquista, para que ela experimentasse os horrores que ele viveu numa cela com o mesmo número da fictícia. A cela 5, que deu origem ao nome V, 5 em numeração romana. Ela descobre também que os bilhetes de Valerie eram verídicos, pois era a vizinha de cela de V durante a sua clausura.

A terceira e última parte relata os acontecimentos que antecedem a morte de V. Depois de preparar Evey para o suceder, chega o 5 de novembro e as forças policiais apertam o cerco ao terrorista. O investigador Finch, enlouquecido pelas drogas e pela tentativa de perceber o que causou o comportamento de V, mata-o num beco sombrio. Ainda assim, V foge para morrer nos braços de Evey, deixando-lhe o seu legado e pedindo para ter uma cerimónia viking. Ela surge em público com a máscara de Fawkes e faz um discurso anarquista, mostrando que V não morreu e assumindo o seu lugar. Por fim, coloca o corpo de V num comboio cheio de explosivos, oferecendo-lhe o funeral que lhe prometeu.

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SINOPSE:

“O povo não devia ter medo do seu governo, o governo devia ter medo do seu povo.” Distopia futurista na linha do 1984, de George Orwell, V de Vingança imagina uma Inglaterra sob domínio de uma ditadura fascista, com campos de concentração e câmaras de televisão que vigiam todos os movimentos das pessoas. Hoje em dia, a actual omnipresença de câmaras de vigilância e a forma como as comunicações electrónicas são monitorizadas mostram que, neste caso, a realidade ultrapassou a própria ficção.
V de Vingança foi uma das obras que granjeou a Alan Moore a fama de ser o melhor argumentista de banda desenhada de todos os tempos. Inicialmente publicado na revista Warrior, com desenhos de David Lloyd, um dos mais notáveis artistas britânicos da sua geração, V de Vingança foi mais tarde continuado pelos autores no mercado americano e adaptado ao cinema em 2006. A máscara que Lloyd criou para a história acabou por transcendê-la e tornar-se num símbolo de protesto em todo o mundo.
A Inglaterra mergulhou num regime fascista depois de uma catastrófica guerra nuclear, e todos os opositores ao poder instalado foram exterminados. Neste universo, ao mesmo tempo distópico e familiar, V, um revolucionário anarquista, vai encetar uma campanha revolucionária complexa e dramática para deitar abaixo o governo, enquanto inspira uma jovem, Evey Hammond, que se tornará na sua protegida.”

OPINIÃO :

Embora distopias não sejam a minha praia, V de Vingança é um livro que todos deviam ler. Assuntos como discriminação, totalitarismo, anarquia e liberdade são debatidos na prosa carismática de Alan Moore com tato e profundidade. Conhecemos um herói sem rosto, que ainda assim não deixa de nos tocar e de transmitir toda a “doença” que o Estado lhe provocou. Trata-se, na verdade, de um anti-herói, alguém que poderia facilmente passar-se por um vilão dos mais terríveis, se não vivêssemos a sua perspetiva. A analogia com o anarquista Guy Fawkes é evidente, logo à partida pela máscara que ele enverga, mas também pelo comportamento do personagem. Também a sua protegida, a jovem Evey Hammond assume um papel preponderante no decorrer da narrativa, ao sentir na pele os espinhos do fascismo.

Confesso que a primeira parte do livro não me cativou. Achei um pouco maçudo e previsível, tratando-se de uma história de vingança, mas a segunda parte veio catapultar Evey para o protagonismo, mostrar-me os meandros do governo e os sentimentos vividos pelas suas vítimas. Uma surpresa tornou o volume esclarecedor e enganchou definitivamente a minha curiosidade para o restante. A terceira e última parte desenrolou-se a um ritmo vertiginoso, selando a história de forma épica. Mais do que foi escrito, o livro conquista pelo que nos deixa a pensar.

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A nível gráfico, o desenho de David Lloyd consegue passar os trejeitos essenciais. Adorei a máscara profundamente expressiva de V e todo o cenário remete-nos para a história que nos é relatada. As pranchas são bastante “legíveis” e o que nelas gostei menos foram os traços faciais das personagens, nomeadamente Evey. Ainda assim, tendo em conta o ano em que foi desenhado, a ilustração é muito boa. Para além de Lloyd, o desenho contou ainda com a participação de Tony Weare.

A edição portuguesa chega quase trinta anos após a sua publicação. Toda a encadernação é cuidada e agradável, e o maior senão deste livro – ou o único – prende-se com a tradução. Alguns erros ortográficos e aparentes brasileirismos tiram o brilho a este volume há muito esperado. Julgo que o trabalho de tradução merecia ser feito por um autor experiente e a revisão bastante cuidada. Ainda assim, fica a minha recomendação para com a obra de arte do mestre Alan Moore.

Avaliação: 8/10 

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3 thoughts on “V de Vingança

  1. Fiacha

    Ois companheiro,

    Antes demais as minhas desculpas por esta ausência, preguiça de um pobre corvo, apenas isso mas a ver se a situação se muda e venho aqui com mais tempo, pois gosto muito do blog, apesar das constantes reclamações da minha carteira…é que fico sempre com imensa vontade de ler os livros que comentas e este é só mais um exemplo 😀

    Abraço e boas leituras

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #6 – Nuno Ferreira

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