Watchmen


Quem guarda os guardiões?

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Watchmen (Formato BD)

Pelas mãos da editora Levoir, o passado mês de junho marcou a publicação, em português de Portugal, de Watchmen, a obra que lançou para as parangonas o famigerado argumentista Alan Moore. Ao seu lado apresenta-se Dave Gibbons, a quem competiu o desenho daquele que é, por muitos, considerado o melhor álbum de BD existente de super-heróis.

Moore lança uma questão: como seria a vida real com super-heróis, onde a polícia se insurge contra estes seres mascarados e o mundo vive em constante ameaça nuclear? Watchmen começa com o assassinato de um destes vigilantes, numa altura em que todos eles estão velhos e cansados, e todos os vilões foram exterminados.

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O Comediante (Dave Gibbons)

A morte de Edward Blake (o Comediante), no entanto, não provoca grande sobressalto aos restantes. Apenas Rorschach parece perceber que uma conspiração fora montada para os exterminar. Mas quem é este homem, que todos julgam um psicopata? Walter Kovacs era filho de uma prostituta que sempre o tratou mal. Passou por uma infância difícil, que o fez fechar-se sobre si mesmo, com grande dificuldade em conter as emoções. A sua máscara é a imagem de uma prancha do famoso teste de Rorschach, uma técnica de avaliação psicológica, que reflete o caráter insano do personagem. Rorschach torna-se uma figura à parte, embora o protagonismo seja repartido por vários personagens.

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Rorschach (Dave Gibbons)

1985. Uma série de acontecimentos leva os super-heróis a questionarem a emboscada que estão a ser alvos. A imagem de Jon, o Dr. Manhattan, é colocada em cheque pela imprensa, quando os seus poderes são acusados de provocar cancro com quem se relaciona, e o “azul” é obrigado a exilar-se do planeta Terra. A relação com Laurie também vai emaciando, e a jovem acaba por se entregar a Dan, o Coruja. Ozymandias, super-herói que mudou geneticamente um lince, é vítima de um atentado, mas sobrevive.

Quando Rorschach cai numa armadilha e é levado preso, a narrativa avança em ritmo frenético. Ficamos a conhecer o passado do personagem. As peças movem-se. Dr. Manhattan e Coruja são duas faces protagonistas do livro, e ainda que estejam do mesmo lado, disputam a mesma mulher. Laurie é a protagonista improvável. Se ao princípio, somos convidados a duvidar da sua índole (a mulher que se prepara para trair o companheiro, e que nutria um ódio de morte ao sujeito falecido), vamos percebendo a pouco e pouco que Moore foge a todos os clichés. Até o propósito da armadilha e as motivações do “vilão”.

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Capa Levoir
SINOPSE:

Quem guarda os guardiões? Considerada como a mais importante novela gráfica da história da banda desenhada, a história segue duas gerações de super-heróis, dos anos do pós-Guerra até aos tempos sombrios da Guerra Fria. A América venceu a guerra do Vietname, Nixon ainda é presidente, e a Guerra Fria está no seu auge, num mundo transformado pela presença de super-heróis. Um misterioso assassino persegue os heróis, mas aquilo que parece ser uma investigação criminal revela-se como uma conspiração mundial, que vai levar os heróis a questionarem a linha ténue que separa o Bem do Mal, ao mesmo tempo que o próprio conceito de super-herói é dissecado de maneira impiedosa.

Watchmen foi a obra que impeliu Ala Moore para a ribalta, e que lhe granjeou a fama de ser o melhor argumentista de banda desenhada de todos os tempos, juntamente com uma mão-cheia de títulos excepcionais, entre os quais V de Vingança, Piada Mortal e Liga de Cavalheiros Extraordinários. Com o desenho absolutamente rigoroso de Dave Gibbons este livro é considerado como a mais definitiva desconstrução da história de super-heróis.

OPINIÃO:

Começo por salvaguardar que, embora tenha crescido como confesso fã dos X-Men, de uns anos a esta parte tudo o que está relacionado a super-heróis perdeu o encanto para mim. Watchmen, de Alan Moore, veio-me parar às mãos por empréstimo e não hesitei em ler. Não ressuscitou, de longe, esse velho amor, mas a sua abordagem é diferente de tudo o que já foi visto e não é por acaso que é considerada uma das melhores histórias de BD do género. Mesclando o policial com o sobrenatural e a ficção científica, Alan Moore cozinhou um épico da literatura de banda-desenhada.

Watchmen é a história de um grupo de super-heróis à beira da reforma, quando um deles é misteriosamente assassinado e os restantes são arrastados para um rol de acontecimentos elaborados milimetricamente. Mais do que uma investigação ou um mistério bem intrincado em volta de super-heróis, esta distopia vem mostrar uma outra visão sobre as consequências dos atos humanos, aquilo que poderia ter acontecido se o rumo dos EUA fosse outro e também questões de Física e Astronomia são colocadas em causa.

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Laurie, Dr. Manhattan, Coruja, Comediante, Ozymandias e Rorschach (Dave Gibbons)

Não é uma leitura fácil. As quatrocentas e muitas páginas são para corajosos e exigem uma atenção visual constante. A própria trama contém várias camadas e interpretações, pelo que uma primeira leitura não será suficiente para as compreender no seu todo. A reeleição de Nixon alerta-nos para um pensamento coletivo e o uso de bandas-desenhadas sobre piratas (relegando as comics de super-heróis tão famosas) mostram a aversão que a própria sociedade nutre para com estes vigilantes reais. Algo que me agradou imenso foi o facto de não conhecermos o passado dos personagens logo de início, e de os irmos desvendando pouco a pouco. Podemos afeiçoar-nos a uns e a outros, mas todos eles têm as suas questões e interesses muito mais pessoais que coletivos. Chegamos ao final questionando o carácter de todos eles, e ao mesmo tempo, com um sentido de realização. Toda a história foi bem planeada e amarrada.

O desenho de Dave Gibbons, palpável e consistente, acaba por ter um papel secundário. Não prejudica em nada a qualidade do argumento, e coroa uma obra riquíssima no seu todo. Excelente aposta da Levoir no segmento.

Avaliação: 8/10

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4 thoughts on “Watchmen

  1. Saudações,

    A BD não é de todo o meu genero, já foi à muito tempo, mas ainda me fazes voltar a ler neste formato, fiquei com vontade de experimentar 🙂

    Abraço e boas leituras

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #7 – Nuno Ferreira

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