O Último Reino, Crónicas Saxónicas #1


Sentadas aos pés de Yggdrasil, a árvore da vida, as três fiandeiras faziam troça de nós.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Último Reino”, primeiro volume da série Crónicas Saxónicas

Bernard Cornwell dispensa apresentações. O autor britânico é o nome mais sonante da ficção histórica atual, e conta com imensas narrativas publicadas. As Crónicas de Starbuck, Stonehenge, As Aventuras de Sharpe e Crónicas dos Senhores da Guerra são algumas das obras que mais elogios lhe granjearam. As Crónicas Saxónicas, já com 10 volumes escritos, vieram apenas agigantar o seu prestígio, e reforçar a incomensurável fama de brilhante narrador de batalhas.

A Edições Saída de Emergência veio, este ano, republicar esta série magnífica, agora que as crónicas foram adaptadas para série de TV pelas mãos da BBC. Em bom tempo, porque eu só ouvia elogios à história, e apesar de já ter lido este autor e ser seu fã, nunca tinha pegado neste relato convincente sobre a conquista de Inglaterra pelos dinamarqueses.

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Uthred de Bebbanburg (superamiches)

Quem é Uthred?

Conhecemos este sujeito ainda criança, quando se chamava Osbert. O seu pai era Uthred de Bebbanburg, um senhor saxão, e o filho mais velho tinha o mesmo nome, por ser o primogénito. Certo dia, avistaram um navio dinamarquês a aproximar-se das suas terras. Esse dia iria mudar a história de vida do pequeno Osbert. O irmão, que fora enviado para espiar as movimentações dos salteadores, não regressou com vida. O temível conde Ragnar apareceu às portas de Bebbanburg, com a cabeça do jovem Uthred.

Foi então que o pai renomeou Osbert de Uthred, agora que era o primogénito, embora nunca colocasse grande fé no seu futuro como guerreiro. Para o endurecer, levou-o para a batalha contra os dinamarqueses, onde o seu exército foi derrotado. O pai do pequeno Uthred morreu, e o rapaz foi levado pelos sanguinários, uma vez que Ragnar gostou da ousadia do garoto ao enfrentá-lo com uma pequena espada dobrada. Sim, O Último Reino é uma história de viquingues. Como Cornwell explica em nota histórica, os viquingues não usavam elmos chifrudos como as histórias vulgarmente contam, e viquingue é uma atividade de saque, e não o seu nome como povo, daí que tenha optado por chamá-los de dinamarqueses. Isso não retira nenhum brilho ao imaginário coletivo, muito menos à história concebida pelo autor.

De um lado temos os cristãos. Beocca, o padre, e Ealdwulf, o ferreiro, eram os que mais gostavam de Uthred em Bebbanburg. Mas ele iria encontrar-se com muitos outros, entre eles Alfredo, o senhor de Wessex, que pode ser visto como um outro protagonista desta história, embora seja indubitavelmente um personagem secundário na narrativa apresentada.

Do outro, os dinamarqueses. O jovem Uthred não tem dificuldade a afeiçoar-se a Ragnar e à sua família, passando a ver os seus filhos Thyra, Rorik e Ragnar, O Novo, como irmãos. Assim como vê o Ravn, o cego pai de Ragnar, como um avô, que não só lhe dá conselhos, como pede a Uthred que este seja os seus olhos. Os dinamarqueses eram livres e queriam fazer dele um guerreiro, enquanto os saxões só pensavam em rezar e queriam obrigá-lo a ler. A vida com os dinamarqueses era muito mais apetecível para aquele menino, mas nem todos eram tão confiáveis, o que veio a descobrir com o passar dos anos. Os filhos de Ragnar Lothbrok (Ivar, Ubba e Halfdad) e o “desditoso” Guthrum eram sujeitos odiáveis, assim como Kjartan e o seu filho Sven, inimigo de Uthred desde tenra idade. Há também Brida, jovem capturada pelos dinamarqueses que se transformou não só em amiga de Uthred como também em sua companheira de cama. As mulheres têm um papel secundário nesta história, mas Brida é aquela que mais que se destaca.

Nunca, mas nunca, dissera Ravn, combatas contra Ubba.

Uthred Ragnarson

A vida dos dinamarqueses era, de facto, admirável. A forma como Ragnar trata Uthred chega a ser enternecedora, por se manter sempre afável, divertido e preocupado, nunca duvidando dele e deixando-o descobrir as suas próprias limitações, protegendo-o ao seu jeito, levando-o para as batalhas e deixando-o combater. Deixando-o ferir-se, com homens a postos para impedir que a sua vida corresse real perigo. Ragnar mostra o lado bom dos dinamarqueses. O conceito de família, a liberdade, o ideal, ensombrado pelo lado bélico e demolidor de Ubba e Ivar. O próprio Ragnar é um apologista do saque e da conquista, muito embora exiba valores muito mais nobres que os demais, e os seus filhos sejam um espelho disso mesmo.

Mas as fiandeiras, como diz Ravn, tecem o destino do mundo aos pés da árvore da vida, e troçam de todos nós. Uthred sente-se um dinamarquês de alma e coração, aprendendo a amar os seus deuses. Participa da tomada da Mércia e da Ânglia Oriental, até que Wessex se transforma… no Último Reino. É lá que reside Alfredo, um estratega ímpar, cuja maior falha são os fracassos na tentativa de resistir ao pecado da carne, que Beocca, agora ao lado do Rei, trabalha por purgar. Uthred, cujo principal objetivo era recuperar Bebbanburg, a terra que o viu nascer, agora propriedade de um tio que o quer ver morto, assiste a um evento que o coloca em dúvida. Até esse dia, nunca julgaria que isso seria possível, e algo dentro de si sente orgulho num glorioso feito dos saxões. Afinal, quem é Uthred? Um saxão ou um dinamarquês? O destino é tudo.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Nos ombros de um homem recai o destino de uma nação.

Nascido entre a nobreza de Inglaterra, Uhtred é o herdeiro das terras de Bebbanburg na Northumbria. Aos 10 anos foi para a guerra pela primeira vez e viu o seu pai morrer em combate. Raptado pelos vikings, tornou-se primeiro um escravo e, depois, um filho para Ragnar, o Destemido.
O destino tornou-o um guerreiro viking, mas o destino também trouxe traição. E essa traição levou-o até Alfredo, Rei de Wessex, o último reino a resistir à invasão dos vikings. A quem será Uhtred fiel?
Em O Último Reino, Cornwell transporta-nos para um passado violento e apaixonante, onde testemunhamos o nascer de Inglaterra e de toda uma nova era.
OPINIÃO:

Ler Bernard Cornwell é sentirmo-nos dentro de uma guerra real, entre paredes de escudos e montanhas de cadáveres. É vestir a pele de um personagem, sentir as suas emoções, amores e ódios, dramas e alegrias. Uthred viveu tudo isso, e nós vivemos com ele. Claro está, com a espada Bafo de Serpente em punho. O Último Reino é o primeiro volume de Crónicas Saxónicas de Bernard Cornwell, e inclui uma narrativa que daria para encher dez. Passamos pelos anos de ouro de Uthred, da infância à maioridade.

São tantos os elogios a tecer a este livro, que posso vir a esquecer-me de algum. A descrição de Cornwell é genial, sem ser maçadora em nenhuma situação. A escrita é adulta, pertinente, sofisticada, uma bela canção que estamos sempre dispostos a voltar a ouvir. A canção da espada que tanto formiga nos sentidos de Uthred conduz-nos através da sua vida, das suas dicotomias, dos seus debates interiores. Somos convidados a descobrir um personagem fictício fantástico, através do seu próprio relato, num contexto real. A maioria daqueles acontecimentos ocorreram, e embora Cornwell não se tenha privado a pequenas liberdades narrativas, todo o volume exibe um rigor histórico notável.

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Ataque viquingue (selesnafes)

As descrições de batalha são comummente eleitas como a grande virtude deste escritor, mas não me surpreenderam por aí além. São descritas como todos os autores devem descrever, com rigor e credibilidade. Cornwell fá-lo com distinção, embora eu não tenha sentido o frenesi insano que caracteriza a batalha como eu previa, talvez por ter colocado a fasquia demasiado elevada. A forma corrida como é contada a história, com saltos temporais constantes, também não me agrada muito, embora a leitura seja fluída e muito acessível. O livro tem apenas 400 páginas, e tanta história é-nos contada. Conhecemos tantos personagens, e entre todos, Uthred é, obviamente, o mais desenvolvido. Destaco também Ragnar e Ravn, num primeiro momento, e Alfredo e Leofric, num segundo, como sombras influentes sobre o protagonista. Personagens incríveis que vamos descobrindo pouco a pouco.

A forma como Cornwell construiu todo este bolo é venerável, e a forma como muitos dos personagens fugiram aos estereotipos, e questões complexas foram rapidamente resolvidas, faz deste um dos melhores romances históricos que já li. Quem lê este livro fica imediatamente ligado a Uthred, identificando-se com todos os seus pensamentos e ações. É um personagem extremamente humano, que consegue ver o melhor em todos aqueles que o cercam, excepto naqueles que nada têm de bom. Uthred é incrível e este livro está mais do que recomendado.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 8/10

Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

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8 thoughts on “O Último Reino, Crónicas Saxónicas #1

  1. Viva,

    Fico contente que tenhas gostado e sem duvida que consegues referir tudo o que o livro tem para oferecer. Mais personagens boas irão aparecer e que te irão agradar, para mim a saga vai melhorando de livro para livro e ainda vai dar muitas voltas.

    Abraço e boas leituras

  2. Luisa Bernardino

    Olá Nuno
    Eu também acabei este livro a semana passada. Gostei imenso. Já tive a oportunidade de ler também a trilogia dos senhores da guerra deste mesmo autor. Fiquei muito satisfeita que a SDE tenha apostado nesta saga. O Cornwell descreve batalhas como ninguém.
    Gostei imenso da tua opinião. Muito completa e define muito bem a obra.
    Beijinho

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