Proxy


E um vírus? Ébola, influenza? Saca-se num torrent, faz-se facilmente num laboratório amador!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro Proxy – Antologia Cyberpunk

Com prefácio de João Barreiros e contos de Vítor Frazão, Júlia Durand, Carlos Silva, Marta Santos Silva, José Pedro Castro e Mário Coelho, Proxy – Antologia Cyberpunk é uma experiência original no sub-género em Portugal e traz-nos um conceito pouco conhecido no nosso país, alimentado sobretudo pela cultura mangá e anime.

O cyberpunk é um braço da ficção científica, caracterizado por apresentar mundos em elevados níveis de desgaste ou depressão, mudanças tecnológicas imersivas e muitos, muitos corpos reconstruídos – total ou parcialmente – com recurso à cibernética avançada. Redes de alta tecnologia surgem normalmente ligadas a cérebros humanos e o virtual mescla-se ao autêntico em tons sombrios. Claro está, escusado será dizer que a grande maioria dos trabalhos apresentados pelo cyberpunk são passados num futuro distante ou em pleno espaço sideral.

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Olho ciperpunk (nikolasbadminton)

O prefácio de João Barreiros, com o título A Carregar… é uma triste constatação do espaço que este sub-género, e a FC no seu todo, ocupam nas prateleiras das nossas livrarias e nas bibliotecas dos portugueses. Um espaço ínfimo, para não dizer inexistente. Barreiros, na sua já habitual toada sardónica, lança a farpa às editoras pela sua falta de catálogo no que concerne ao género (que se foca em fast-foods como Star Wars), e sobretudo ao povo que ignora as poucas alternativas que vão surgindo. O relato das suas experiências do passado não podia ser mais atual, uma vez que a mentalidade coletiva pouco evoluiu nesse aspeto.

Não gosto desta chicha – berrou a criança, empurrando o prato para longe de si.

Os seis contos apresentados nesta antologia trazem-nos jovens autores nacionais cheios de talento. Vítor Frazão é arqueólogo. Júlia Durand musicóloga e guionista. Carlos Silva trabalha em laboratório e é um dos fundadores da Imaginauta. Marta Silva é jornalista, transmontana deslocada na capital e estreia-se na ficção. O madeirense José Pedro Castro é crítico literário e estudante de línguas. Mário Coelho é tradutor. Por fim, temos Anton Stark como editor deste pequeno livro da Editorial Divergência.

Em comum, contos cyberpunk muito bem escritos, com mulheres como protagonistas. São elas a Cleo, uma vendedora ilegal capaz de tudo para encher os bolsos; a Irissa, funcionária exemplar de uma multinacional, obstinada em ser promovida; a Kali, uma andróide determinada em denunciar o pecado da carne; a y e a t, duas amigas de infância com visões diferentes sobre a vida que levam; a sexagenária Maria, responsável por uma grande evolução tecnológica, que se esconde sob capa de livreira; e a Beatrice, líder natural de um grupo de hackers que se vê arrastado para uma armadilha bem montada. Cada um destes contos é um bom motivo para ler esta antologia.

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Capa Editorial Divergência
SINOPSE:

Bem-vindo, [Utilizador/a].

Proxy é o culminar de vários anos de trabalho e de estudo em leitura psico-criativa. Seis mentes, seis futuros que nunca existiram. Seis mundos. Os pináculos de Nova Oli e as entranhas de VitaVida. Modulações eléctrico-sonoras e o dilema da artificialidade. O poder da máquina e o desmoronar de uma simples equação.

Preste atenção. Aquilo que vai ler é estritamente confidencial.

Proxy é a primeira experiência antológica de cyberpunk em Português. Seis autores acompanharam-nos nesta viagem: Vitor Frazão, Júlia Durand, Carlos Silva, Marta Santos Silva, José Pedro Castro e Mário Coelho – seis dos melhores jovens autores de Ficção Especulativa nacional.

OPINIÃO:

Precisamos falar sobre esta antologia. Comprei-a no “Fórum Fantástico” e não é mais que um pequeno livrinho de 200 páginas, que se lê em dois dias. Proxy é uma iniciativa muito interessante por parte da Divergência, fruto de um trabalho exaustivo de investigação. É também a primeira antologia nacional com a temática do cyberpunk e foi recrutar alguns dos melhores jovens escritores de Ficção Especulativa do nosso país. Mas Proxy é muito mais do que isso. Os seis contos não têm qualquer filiação entre si, a não ser o sub-género apresentado. Coesos e extremamente visuais, acabam, no entanto, por ser bastante equilibrados, sendo difícil destacar um ou outro dos demais. Não vou, por isso, falar da escrita dos autores, porque qualquer um deles é ótimo. Vamos falar de conteúdo.

Deuses como Nós, de Vítor Frazão, tem um dos conceitos mais interessantes do livro. A venda ilegal de antiguidades, e uma vendedora em sarilhos, que se vê no meio de uma batalha entre os dois T-Rex lá do sítio. O conto pecou por um início algo confuso, que me atrasou a perceção da história. Os personagens também não conseguiram agarrar-me, por falta de aprofundamento, talvez. Modulação Ascendente, de Júlia Durand, consegue dar destaque ao poder da música numa envolvente cyberpunk, mas sobretudo fala-nos de competição no trabalho. Uma luta pelo poder original e muito bem tecida. Mas posso dizer que foi o Pecado da Carne de Carlos Silva que me injetou um maior entusiasmo pela antologia. Uma delegada de saúde andróide é trazida à vida, contra a sua vontade, e o mundo que agora vê mais não é que uma conspiração global. Como é hábito, contra o Zé – diga-se, a ralé.

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y+t é um conto muito original da autoria de Marta Silva (que escreve apenas com minúsculas). Cheio de cores cinzentas, é-nos apresentado um mundo marginal, onde duas amigas de infância vivem num alvéolo, uma construção “favo de mel”, como uma colónia de abelhas. Um ambiente fabril e de beco, uma narrativa cheia de debates morais e questões interessantes, e uma grande esfera como possível resposta para todas as perguntas. Não me fascinou, mas louvo o excelente trabalho da autora. Alma Mater de José Pedro Castro é uma divertida visita a uma Lisboa futurista, cheia de segredos por revelar, relações de soltar belas gargalhadas, fugas e tiroteios. Um conto à minha medida. Por fim, Bastet de Mário Coelho. Um grupo de hackers informáticos (os taditos não têm culpa de já não haver trabalhos honestos) é “convidado” a roubar uma caixa-negra com material tecnológico super importante. Um conto com um início algo arrastado, mas que me agradou no seu todo, a fazer lembrar um pouco as histórias de Scott Lynch.

Acabaram por ser os últimos dois contos a marcar-me mais pela positiva, graças ao tom leve e humorístico dos autores e por serem histórias mais ao meu jeito. Parabéns, Editorial Divergência.

Avaliação: 7/10

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4 thoughts on “Proxy

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