Estou no Wattpad #6


Boa tarde, amigos. Já saiu a minha publicação quinzenal no Wattpad, o livro Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Podem procurar lá na página ou por aqui mesmo. Divirtam-se!

CAPÍTULO SEIS: A BATALHA DE RHOVE

“Conheci Marovarola no dia em que me juntei aos Doze Vermelhos. Espirituoso e, por norma, bêbado, transportava duas alfanges às ancas, que nunca vi desembainhar. Diz quem viu que não era bonito. Andava sempre com Bar e Vivelma, dois homens mais poderosos que ele. Nunca se embebedavam, mas estavam sempre ao seu lado, com rostos sorumbáticos e cicatrizes que só os piratas mais experimentados podiam alcançar. Bar tinha uma barriga em forma de barril, e uma agilidade impressionante, impossível de prever com tal porte. Certa vez, enfrentei-o. Antes de dar por isso, tinha sido rasteirado e o brilho do seu aço cegou-me. Vivelma era esguio e franzino, com um par de olhos encovados, ao ponto de fazer tremer um fantasma. Nunca o vira falar, e ouvi histórias sobre o dia em que lhe arrancaram a língua. Eram homens poderosíssimos, esses dois. Estive lá no dia em que eles morreram. Por minha culpa. Graças à minha traição. Marovarola nunca me perdoou por isso.”

Enforcaram Michelle ao raiar da manhã. A sua utilidade desaparecera como um fiapo de névoa numa manhã de inverno. Língua de Ferro pagou as setenta pratas que Ravella dizia valer, e esperou que Rivia contasse, uma a uma, as moedas que lhe entregara. Avaliava a cunhagem e mordia os discos de prata, até ter a certeza que não estava a ser enganado. Os Doze Vermelhos, que agora eram cerca de sessenta, saíram de Selaba em clima de euforia, ostentando Língua de Ferro como líder, agora que Dooda Vvertagla havia perecido. Língua de Ferro pareceu desagradado com a ideia, pois a sua consciência murmurava-lhe que seria o consumar de uma traição perpetrada anos atrás, mas havia coisas para as quais um homem não tinha escolha, e quando as gentes o seguiam, não havia modo de escapar ao papel de líder.

O salteador montava um camelo pachorrento, levando Ravella a pé, aprisionada à pata do animal por um forte cordão de couro. A uraniana praguejava e estrebuchava, pois nunca imaginou que seria esse o tratamento a ser-lhe aplicado. Atrás dela, Empecilho vigiava-a, instigando-a a prosseguir com um pequeno chicote. Por vezes, Ravella tropeçava, outras vezes sentava-se e deixava-se arrastar, mas as parcas palavras de Língua de Ferro incitavam-na a obedecer.

― Tens cara de porco ― rugiu Ravella. ― Miserável bastardo, vou-te fazer engolir um bom bocado de merda, ou não me chamo Ravella. Eu vou-te foder, magnânime Língua de Ferro.

Sem desviar o rosto do horizonte, o salteador soltou uma risada e assentiu.

― Aposto uma mão cheia de prata em como estás louca por isso. Mas antes, irás contar-me tudo o que sabes, ou arrancar-te-ei dente a dente… e não sou grande apreciador de mulheres desdentadas.

A mulher rugiu.

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O sol estava baixo e a sua luz torrava a pele em exposição, conseguindo até atravessar as sedas vermelhas dos trajes que envergavam. Ravella tinha a boca seca e grunhia frequentemente por um pouco de água. Língua de Ferro, que pouco usava do seu odre, dava-lhe apenas um pouco de hora em hora, e não se abstinha de a castigar quando ela bebia mais do que lhe era permitido.

Sucederam-se dois dias a este ritmo, sobre charnecas e campos inférteis intermináveis. Aquilo não era estranho para Língua de Ferro, para quem as entranhas dos desertos eram uma velha companhia. Aquelas eram zonas inóspitas, recortadas pelo céu quente a horizonte. Os passos eram abafados pela areia, e as nuvens tomavam a forma de guerreiros enclavinhados em demonstração de combate. Paravam duas vezes ao dia, para comer, descansar e reabastecer, mas havia pouca caça por aqueles caminhos estéreis. Tinham também dificuldade em fazer fogo com as condições que encontravam, embora a pederneira que Língua de Ferro trazia nos seus alforges fosse uma preciosa ajuda.

― Para onde vamos ao certo, senhor? ― perguntou Empecilho.

― Para Ccantia, a cidade-sombra. Creio que possamos encontrar lá a Companhia dos Ossos. Agravelli estava sediado lá, da última vez que tive notícias dele.

― E porque precisa desse homem? Podemos recrutar em qualquer povoação que nos separe de Chrygia.

Língua de Ferro sorriu com a inocência do jovem.

― E atacaremos a sede do Império com o quê? Sessenta miúdos? Um exército de tribais? Uma rebelião prisional, composta por homens há tanto tempo em cativeiro que mal se recordam de como se combate? Não conheceste os Doze Vermelhos originais. Cada um deles… Bem, não posso dizer que derrotaria um exército, mas seria colocado como general em qualquer um. Eu não quero apenas estes homens. Quero o seu nome, e a sua influência. Quero a quantidade de homens que posso granjear com qualquer um deles, as suas companhias de mercenários, os que possam seguir-nos pela fama. Quero ouvir o mundo gritar que os Doze Vermelhos estão de regresso. Quero ver o Império sangrar só de ouvir os seus nomes. Já não estão cá os Doze… mas quero ouvir rumores de que os Doze estão de novo juntos.

Empecilho assentiu com a cabeça.

― Perdoe-me a questão, mas isto tem um significado muito pessoal para si, não tem?

É claro que tem, pensou. Língua de Ferro estava a fazer um nó num bocado de corda, e virou o rosto abruptamente para o jovem, que enrijeceu a sua postura. Caminhava em terrenos movediços.

― Não fazes ideia o quanto. Dzanela e Dooda eram meus amigos.

― Dzanela traiu-o.

― Para salvar a vida ao irmão.

Levantou o braço na direção de Allen, o suposto Imperador, que parecia ter-se adaptado aos Doze Vermelhos, entrando alegremente nas suas brincadeiras. Havia surpresa nisso, não só por o homem ser a face do Império que queriam abater, como também por ele ser mais velho que a maioria e um patrício de Chrygia, com uma educação refinada e sobranceira.

― Ele está a fazer o seu papel ― disse Língua de Ferro. ― É o que tem a fazer, se quer sair disto vivo.

― Terá a sua vingança ― disse Empecilho, mas estava a referir-se a Língua de Ferro e não a Allen.

― Só terei a minha vingança, no dia em que morrer. A minha batalha é contra mim mesmo. A culpa disto, é toda minha. Lucilla está viva, rapaz. O poderoso L. que Allen diz ser a mente por detrás da máscara Landon X, é a minha Luce. É ela quem controla o Império. E fui eu que a corrompi. Se eles estão todos mortos, foi porque eu os traí. No fundo, rapaz, fui eu quem forjei Landon X. Só agora percebi isso. Treinei-a para conquistar um Império, e foi o que ela fez. Antes de morrer, Dooda garantiu-me que ela estava viva. Ele sabia, portanto…

Afastou-se, remoendo naquilo.

As palavras de Língua de Ferro deixaram Empecilho estupefacto. Prosseguiram viagem, sem trocarem qualquer palavra. Quinze horas depois, ouviram o som de bombardas e canhões, e uma hora mais tarde, a canção do aço.

Chegaram ao alto de um penhasco. Lá em baixo, num planalto árido onde cresciam ervas castanhas, dois exércitos enfrentavam-se num combate sem quartel. Ainda se ouviam tiros de bacamarte, mas eram escassos. As armas de fogo perdiam toda a utilidade quando os exércitos se mesclavam. Naquele momento, as forças pareciam anular-se uma à outra. Havia cavalos a relinchar, empinando e ostentando as suas belas crinas entrançadas. Os escudos embatiam uns nos outros e amparavam golpes de espada. Havia gritos por todo o lado. Berros jactantes e moralisadores, gritos de desertores e estertores de moribundos.

Língua de Ferro solicitou um monóculo, que lhe foi fornecido de pronto. Tentava distinguir quem eram os dois exércitos. Três mil homens de cada, aproximadamente, pensou. A batalha estava equilibrada.

― Rhove ― esclareceu Allen, que se aproximara para ver o mesmo. Vestia agora a farda vermelha dos Doze. Apontava para a terra que ficava no horizonte, onde uma enorme torre de vigia fora erigida num penhasco. ― Uma província que tem causado sarilhos desde o início. A rebelião alastrou-se às províncias vizinhas, por isso fomos obrigados a pôr um termo nesta confusão, antes que os seus números nos escandalizassem. Bem, pelo que vejo, talvez o general Cane tenha tido a sua surpresa.

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Pelo minóculo, Língua de Ferro percebeu que Allen tinha razão. Os rhovianos, vestidos com caxemiras e peles de leopardo, estavam bem aprovisionados de armamento, e os seus números igualavam-se às forças imperiais. As divisas e uniformes não deixavam margem para dúvidas. A força bélica com quem os rhovianos mediam forças era um exército do Império, com a sua alvura pecaminosa e olhares escarninhos. Vou fazer pender os pratos da balança, pensou, e organizou os seus homens.

― Vamos participar nesta batalha? ― perguntou Segen, um dos Doze Vermelhos, afivelando um punhal à cintura.

― E perder as vossas vidas em nome da rebelião rhoviana?

― Rebelião é rebelião ― respondeu o rapaz. ― Inimigos do Império são nossos amigos.

Língua de Ferro gargarejou.

― As coisas não são tão lineares assim. Vocês vão ficar aqui escondidos.

Soaram esgares e grunhidos de incompreensão, enquanto os Doze Vermelhos se entreolharam. Empecilho, Allen e até Ravella pareciam incrédulos perante a decisão de Língua de Ferro.

― O que está a pensar? ― perguntou Allen.

― Não importa aquilo em que estou a pensar ― disse Língua de Ferro, enquanto se livrava da sua veste vermelha. Exibindo os seus músculos densos, deixara apenas a bragadura de couro à cintura e prendera Apalasi e um escudo em madeira de tília às suas costas, sobre dois cintos cruzados. ― No final desta batalha, eu não estarei mais convosco, independentemente do seu resultado. Se as gentes do Império vencerem, Rhove estará perdida e os seus aliados perderão a arrogância. Ou seja, voltarão a servir o Império com toda a humildade. Vocês rumarão ao deserto rezoli, contar o que ocorreu e convencer Bortoli a procurar o remanescente dos Doze Vermelhos. Não se esqueçam que é ele, e não eu, o vosso líder máximo. O plano prossegue sem mim. Reúnam Agravelli, Marovarola, Brovios e Bortoli. Mantenham a sede na Prisão. Marchem para Chrygia.

Empecilho engasgou-se.

― Está a falar como se não sobrevivesse a esta batalha…

Língua de Ferro sorriu.

― Não é esse o meu plano, de todo. Espero encontrar-vos mais tarde. ― Levantou o indicador para Ravella. ― Façam-na vomitar tudo o que sabe. Acho que ainda não contou tudo o que Regan lhe confessou.

Com essas palavras, Língua de Ferro virou-lhes costas e correu para um declive menos acentuado. O meu plano é deixar uma esteira de idiotas mortos atrás de mim. O coração martelava-lhe no peito. Será que estou a fazer a coisa certa?, perguntou a si mesmo. Há muito que deixara de saber o que era certo ou errado. Fazia o que os seus instintos lhe segredavam. Iria provocar uma fenda nos alicerces do Império.

Nem Luce imagina isto.

A batalha estava a ser vivida tão intensamente que ninguém deu pela sua aproximação. Correu, subtil como uma pantera, entre os cadáveres mortos, e procurou um corpo com um porte idêntico ao seu. Teve alguma dificuldade em encontrar, e praguejou para si mesmo que os soldados imperiais eram todos uns lingrinhas. Quando finalmente encontrou um cadáver à sua medida, arrancou-lhe a cota de malha, o uniforme, e vestiu-os. Por pouco não fora apanhado de surpresa enquanto o fazia, porque um soldado imperial a cavalo percebeu o que ele estava a planear e cavalgou na sua direção, com o sobrolho franzido e uma expressão apreensiva. A sua espada encontrou o escudo de Língua de Ferro, provocando-lhe uma pequena racha. Um fio de madeira saiu impelido da sua casca e Língua de Ferro brandiu a Apalasi para decepar o braço ao cavaleiro. O homem ofendeu a sua mãe e caiu em seguida, para ser silenciado com um golpe entre os olhos, enquanto o cavalo afastava-se desgovernado. Um jato de sangue brindou o rosto de Língua de Ferro, quente como vinho fervido.

Sem mais demoras, limpou o rosto com o antebraço e acabou de vestir o uniforme, afivelando o cinto de espada com o florete torcido de aço mole que pertencera ao falecido na bainha. Escondeu Apalasi debaixo da capa e correu para procurar um escudo imperial ainda em condições. Foi mais fácil do que previra, porque alguns soldados tinham sido atingidos antes de sequer conseguirem erguer os escudos. Isso dizia muito sobre a brutalidade dos rhovianos. Devidamente equipado, avançou para a escaramuça como um soldado imperial, tendo também o cabelo preso na nuca com um nó e uma presilha de osso encontrada entre os despojos. Correu para o cerne da batalha.

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Os rhovianos eram verdadeiros animais em pele de homem, com bocas desdentadas e apodrecidas, maxilares salientes e cabelos entrançados. Tinham cores algo amarelecidas e vestiam peles de leopardo na sua maioria. Ouvira dizer que aquele animal era ali muito comum, e a sua carne também era consumida pelos locais. Rhove era uma lenda verdadeira, como a maioria, na verdade, mas Língua de Ferro também o era. Não desembainhou o seu florete. De qualquer forma, não o conseguiria fazer. Não fora fácil conseguir endireitá-lo e colocá-lo na bainha. Dali não sairia com facilidade. Do nada, apareceu a sua Apalasi, depois de se defender ao ataque de rhovianos por duas vezes com o imponente escudo erguido. O broquel era ovalado, com as súmulas imperiais gravadas na madeira e um umbo de metal. As mãos escorregaram na pega do escudo quando o arremessou sob o queixo de um inimigo. Baixou o escudo para descrever um risco no ar com Apalasi, da esquerda para a direita, e a espada terminou no crânio de um rhoviano. Um banho de sangue deu-lhe as boas vindas ao tabuleiro de jogo.

Naquela altura tinha já vários guardas imperiais a flanquearem-no, como se a sua presença fosse de algum modo inspiradora. Foi ali que encontrou o general Cane, famigerado chefe militar da Chrygia. Ouvira falar muito dele, mas só o conhecera em Constania, dias antes de ser aprisionado. Cane estava agora lívido e boquiaberto, com manchas negras nas têmporas e nas abas do nariz. Não como o pretendia encontrar, a liderar as suas tropas, mas no chão, morto e esventrado como um animal.

Foi a primeira vez que teve medo dos rhovianos.

Uma nova carga aproximou-se. Os rhovianos atacavam em bloco, desbaratando as forças imperiais. Terei escolhido o lado perdedor? Pensou, por momentos, no que aconteceria caso Rhove vencesse essa batalha, humilhando o Império com as cabeças do general Cane e dos seus sequazes colocadas nos espinhos, aos portões. A sua vitória inspiraria outros povos, a rebelião adensar-se-ia, e o Império perderia fulgor, especialmente quando Bortoli assumisse a sua vontade de tomar Chrygia, com os Doze Vermelhos remanescentes ao seu lado e um exército imenso. Tudo mudaria, pensou. Mas também sabia que isso excluiria o papel que estava determinado em desempenhar. Estou a lixar-me para o Império, para os rebeldes e para o bem do povo. Isto é sobre mim e Luce. Isto é sobre a armadilha de que fui alvo. Isto é porque preciso saber por que é que ela me mandou para a Prisão.

Com um grito, moralisou os soldados imperiais e avançou, ao encontro da investida adversária. Os homens fizeram o mesmo. Cheirava mal. Era incrível como, nas guerras, cheirava sempre mal. Não era só o cheiro do suor, o cheiro do sangue e o cheiro dos resíduos de pólvora. Era o cheiro do medo. Língua de Ferro era um guerreiro lendário, mas isso não significa que não tivesse medo. Todos tememos o desconhecido, e a morte é o ícone do oculto. Temia também que, no além-vida, todos os homens que enganara, todos os homens que matara, o esperassem para se vingar. A tormenta dos meus irmãos, é isso que mais temo enquanto enfrento cada rhoviano. É isso que me faz girar Apalasi na mão esquerda, enterrando-a nos ventres moles dos meus inimigos. E quanto mais vezes o fazia, menos os temia.

Algures no meio da refrega, encontrou um rosto familiar. Haviam passado tantos anos, e continuava sem qualquer dificuldade em reconhecê-lo, mesmo naquele frenesi insano. Calhou fitá-lo naquele momento, como uma ironia divina. Ele lutava pelos rhovianos, com uma faixa em pele de leopardo entre o ombro direito e a anca esquerda, e manejava uma azagaia comprida. Debatia-se com brutalidade e matava soldados imperiais à sua passagem. Tinha um rosto aquilino e moreno, e as tranças mais negras do que se lembrava, caídas sobre os ombros. Um aro dourado pendia do nariz e tinha as orelhas pejadas de diamantes em forma de botões. Uma cicatriz atravessava-lhe o queixo. Teria uns cinquenta anos, mas era esguio e mantinha-se em forma. Marovarola. Então foi aqui que te escondeste… Em Rhove? Teve a certeza que ele não o viu, e seguiu em frente.

Desviou-se de um rhoviano com a certeza que seria decapitado por uma espada curva se não o fizesse. Matou dois homens de uma vez, abrindo-lhes a boca com sorrisos encarnados. Estava a ficar otimista quando uma espada abriu o seu uniforme com um rasgão ostensivo, e ficou presa na sua cota de malha. Os sacanas não têm cota de malha, é isto que nos vai fazer ganhar. Mas os homens que o ladeavam ficaram para trás, e ouviu os seus gritos antes de morrerem. Estava agora sozinho, com os soldados imperiais mais longe do que seria aconselhável, e três rhovianos investiram para si. Mordeu o pescoço exposto do homem que o golpeara no peito, e sentiu o gosto agro do seu sangue a revolver-lhe as vísceras. O rhoviano ampliou muito os olhos e largou arma e escudo para estancar o sangue, mas Língua de Ferro, selvagem como um animal, com a boca cheia de sangue que não era seu, pontapeou o homem para o lado, certo que ele iria morrer, e cuspiu bocados de algo que não lhe pertencia para o solo juncado de cadáveres. O homem ficou perdido nos seus estertores desumanos, com os dedos pegadiços do seu próprio sangue.

Um cavalo passou por Língua de Ferro a galope, montado por um rhoviano que nem dera pela sua presença, mas deixara um monte de excrementos mesmo à sua frente. Cheirava pior que o medo, e Língua de Ferro desejou que as moscas se aglomerassem ali, e que poupassem o seu cadáver. Havia cavalos mortos, caídos nos montes de corpos que mais pareciam entulho. Avançou quando os três adversários o cercaram. Não tinha como fugir. Dois deles eram esguios, mas um tinha uma maça de armas e outro um sabre afiado. O terceiro era grande como um pequeno gigante e brandia um machado, enquanto chamava-lhe nomes em idiomas que não compreendia. Optou por enfrentar o sujeito de sabre, que era o mais acessível, e precisava começar por algum lado. Apalasi chocou contra o sabre, e Língua de Ferro soube que tinha vantagem. Uma sombra engoliu-o pela direita, e ergueu o escudo sobre a cabeça, fletindo o cotovelo, para ver a sua defesa a explodir em farpas e pedaços de madeira, quando o pesado machado caiu sobre ela com violência. Uma segunda investida libertou mais pedaços. Língua de Ferro continuou concentrado no seu adversário, mas também não era um homem pequeno e precisou de pouca incisão contra o sujeito para o fazer largar o sabre. Caiu sobre ele e largou o escudo quebrado. A maça de armas sobrevoou-o quando caiu, mas desviou-se com agilidade e a arma atingiu o rhoviano que enfrentava. O rosto ficou desfigurado e o homem morreu no preciso instante. A cara esmagada não era uma visão agradável, com as cavidades a jorrar de pus e sangue e outras viscosidades repugnantes. Restavam-lhe os dois adversários mais temíveis, e não tinha o escudo. Desviou-se de um golpe de machado, e certo que o balanço dado pelo rhoviano o faria pender para a frente, correu para ele e estocou sem hipótese para o gigante, que viu a barriga aberta pelo aço lendário de Apalasi, frio como a morte.

― Língua de Ferro… é o meu nome ― grunhiu. E o sujeito ampliou muito os olhos antes de morrer.

Ouviu o tilintar de correntes e voltou-se de imediato para a frente, certo que o homem com a maça de armas o iria atacar, e surpreendeu-se quando viu o homem a deixar cair a ferramenta de morte no solo, correndo para longe de si. Juntava-se ao remanescente das forças rhovianas, que retiravam em direção ao penedo que ocultava os seus portões. Parecia extremamente improvável, mas os rhovianos estavam a retirar.

― Vencemos ― ouviu gritar, e pensou que as suas palavras tivessem motivado o resto dos homens. O nome que os vencedores evocavam, no entanto, era outro.

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Parecia-lhe bem, que o herói do Império fosse outro. Cane parecia ter um sucessor natural, se Landon X o achasse digno dos seus desígnios. Língua de Ferro soltou uma gargalhada, quando sentiu uma forte pancada na nuca.

De repente, tudo ficou escuro.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse

Capítulo Um: A Prisão

Capítulo Dois: Os Doze Vermelhos

Capítulo Três: Hereges

Capítulo Quatro: Veza

Capítulo Cinco: Mentiras

Capítulo Seis: A Batalha de Rhove

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