O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2


É a reputação. É o orgulho. É a loucura da batalha. Pus-me a bater com Bafo de  Serpente no meu escudo semi-quebrado, e outros homens acompanharam o ritmo e os dinamarqueses, tão próximos, estavam a convidar-nos para irmos ser mortos e eu gritei que íamos a caminho.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “O Cavaleiro da Morte”, segundo volume da série Crónicas Saxónicas

O Cavaleiro da Morte é o segundo volume das Crónicas Saxónicas do célebre escritor Bernard Cornwell, romance histórico que prossegue a narração, na primeira pessoa, do percurso de vida do personagem fictício Uthred de Bebbanburg durante o combate entre dinamarqueses e saxões pela conquista de Inglaterra, nos finais do século IX. A saga literária é a base canónica da série televisiva da BBC, The Last Kingdom.

O último reino

No primeiro volume, O Último Reino, conhecemos Uthred como uma criança, vimos como ele perdeu o pai e foi feito prisioneiro pelos dinamarqueses, mais propriamente por Ragnar, o Destemido, e como este o tratou como um filho e o ensinou a guerrear e a amar os seus deuses. Vimos também como Uthred se apaixonou pelo modo de vida dos dinamarqueses, mas também arranjou inimigos entre eles, o que resultou num massacre e numa traição. Uthred mudou de lado, não por amar mais os saxões do que os dinamarqueses, mas porque as contingências da vida assim o obrigaram. Entre os dinamarqueses só lhe restou um amigo: Ragnar, filho do Ragnar que o criara, e agora os seus inimigos galgavam terreno para conquistar o Wessex, o último reino ainda ocupado por saxões.

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Luta entre vikings (thecasperart em deviantart)

O Rei Alfredo dos saxões, por quem Uthred nunca criara grande empatia, obrigou-o a casar com Mildrith, uma bela saxã que Odda, o Novo, filho de um importante homem de armas de Alfredo, desejava para si. Uthred casou e teve um filho, mas herdou também as dívidas da mulher para com a Igreja. Alfredo acordou uma trégua com Guthrum, o Desditoso, um dos mais poderosos senhores entre os dinamarqueses. Nessa trégua, cada qual ficou com um número de reféns e Uthred estava entre os reféns de Guthrum.

O terrível dinamarquês ordenou a morte dos seus e Uthred só foi poupado porque Ragnar estava lá para lhe salvar a vida. Depois disso, Uthred tentou regressar para a mulher e filho, mas estes tinham sido levados por Odda, o Novo, porque o julgaram morto. Foi então que se viu em Cynuit, épica batalha onde as forças de Alfredo venceram as dinamarquesas, e onde Uthred, Odda e o pai deste desempenharam papéis bem diferentes. Uthred venceu um temível senhor dinamarquês, mas no fim, em vez de ir colher os louros do seu feito junto de Alfredo, preferiu correr para junto da mulher e filho. É neste contexto que chegamos a O Cavaleiro da Morte.

A impetuosidade de um jovem

Depois de descobrir que Odda, o Novo, reclamou para si os louros da vitória, Uthred é atraído para Alfredo como um jovem imberbe, exigindo que a verdade fosse reposta. Mas os homens que haviam combatido consigo ainda o consideravam um vira-casacas e Odda era importante. Alfredo castiga Uthred pela impetuosidade e isso fá-lo revoltar-se. O azedume leva-o a disfarçar um dos seus navios como um dinamarquês, procurando no mar as riquezas que pudessem pôr cobro às dívidas da sua esposa e granjear-lhe homens.

O seu propósito sempre foi recuperar Bebbanburg, o forte da Nortúmbria que era seu por direito e havia sido roubado por um tio que o tentou matar, e para isso precisava de homens e de dinheiro. Foi com esse pensamento que se viu envolvido num massacre contra uma povoação de cristãos, os quais prometera ajudar antes de descobrir que estavam a ser ameaçados por dinamarqueses. Ao perceber que ia perder a batalha, Uthred aliou-se aos dinamarqueses e juntos assolaram a região, repartindo entre si todas as riquezas. Uthred apropriou-se de Iseult, uma bretã que se dizia adivinhar o futuro, e sentiu empatia para com o dinamarquês a quem se havia aliado. Svein do Cavalo Branco.

– Ele morreu sem cortar as unhas – disse, numa acusação, como se eu fosse responsável por esse azar, e era de facto má fortuna porque agora as coisas sinistras do submundo iriam usar as unhas de Ivar para construir o navio que traria caos ao fim do mundo.

Svein era um importante senhor dinamarquês. O mais importante, ao lado de Guthrum, e embora não gostassem um do outro, juntos poderiam esmagar o Wessex de uma virada. Foi o que quase acabou por acontecer. Separou-se de Uthred e dirigiu-se a Cynuit, onde os monges haviam erigido um templo no local da famosa batalha, e ali incendiou, pilhou e matou. Uthred, por sua vez, assaltou um navio dinamarquês e enriqueceu com o espólio saqueado, o que o fez restaurar as contas de Mildrith para com a Igreja, graças a uma estratégia bem montada de Uthred junto do bispo. No entanto, a sua boa sorte não durou muito.

Os ventos mudam

Sem estar preparado para isso, Uthred foi convocado a um julgamento diante de Alfredo, e ali não só foi acusado do massacre que esmagou a população cristã, por um monge que havia fugido, como foi acusado – falsamente – por Steapa, o enorme guarda-costas de Odda, o Novo, de ter estado junto de Svein no massacre de Cynuit.

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Guthrum, o Desditoso (série BBC)

Sem forma de provar a sua inocência, Uthred recorreu ao seu poder de oratória, e ao apoio da bela Iseult, para rebater as acusações. Por fim, Alfredo decretou um julgamento por combate, que colocaria Uthred ao imenso Steapa. O Rei ofereceu a Uthred uma escapatória, se assumisse novamente a dívida da mulher para com a Igreja, mas este declinou e Alfredo decidiu viajar, para não assistir à sua morte. Durante o combate, que Uthred não teria forma de vencer, Cippanhamm, a sede de Alfredo, foi tomada pelas forças de Guthrum. A invasão salvara a vida de Uthred, e este fugiu, como muitos tentaram fazer.

Cippanhamm era de Guthrum e o Wessex estava praticamente esmagado pelos dinamarqueses. Com o bravo Leofric e a bela Iseult, Uthred errou por campos e mais campos, e durante muito tempo, tudo pareceu perdido. Mas a história deste livro ainda ia a meio e os ventos mudaram. Alfredo, Guthrum e Svein viriam a travar uma guerra sem quartel. Uthred viria a perder mulheres e crianças e a estimar antigos inimigos. Uhtred viria a tornar-se um cavaleiro da morte. Para perceberes a envolvência e o sentido de tudo isto, lê este fantástico livro da Edições Saída de Emergência.

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Capa Saída de Emergência
SINOPSE:

Uma poderosa história de traição, romance e luta numa Inglaterra cheia de convulsões, sublevações e glória

Uthred, criado como viking e casado com uma saxã, é visto como um guerreiro formidável. Contudo, aos vinte anos, continua a ser um pagão arrogante e teimoso, e um aliado pouco confortável para o sensato e pio rei Alfredo. Mas os dois, juntamente com a família de Alfredo e uns poucos companheiros de Uthred, parecem ser tudo o que resta da liderança do Wessex depois de uma trégua desastrosa.

Derrotados em toda a linha pelos vikings, os saxões procuram agora sobreviver entre os seus seguidores e fazer crescer a sua força. Uthred continua a acalentar a ideia de se juntar aos vitoriosos vikings, mas ganha um crescente respeito pela liderança de Alfredo. A única esperança do rei é de conseguir o apoio do guerreiro, se quiser reunir de novo uma força saxã capaz de entrar em combate com o inimigo…

OPINIÃO:

Segundo volume de uma série ainda a ser escrita, já com dez publicações, O Cavaleiro da Morte de Bernard Cornwell é um dos romances históricos mais notáveis que já tive a oportunidade de ler, digo eu como quem tenta, por palavras simples, divulgar a grandiosidade deste épico. Uma nota simples que não faz jus à catadupa de vezes que dei por mim a sorrir durante a leitura, perante a maliciosa ironia do autor britânico. Cornwell deixou-me de queixo caído.

Por muito altas que fossem as expectativas, após o primeiro volume, nada me teria preparado para isto. Surpresa atrás de surpresa atrás de surpresa. Mais consistente e linear que O Último Reino, que servira sobretudo para mostrar o crescimento do herói e contextualizá-lo, O Cavaleiro da Morte foi uma teia de acontecimentos genialmente tecida, e a descrição de batalha rigorosa do primeiro volume ganhou textura e tornou-se ainda mais palpável.

O destino é inexorável.

A descrição acima da sinopse relata uma série de acontecimentos muito bem escritos e planeados, que só por si faria deste um livro incrível. Acontece que isso apenas é o princípio de uma história repleta de reviravoltas e de sentimentos à flor da pele. Tenho lido algumas opiniões sobre Bernard Cornwell, unânimes, mas ele não é apenas um excelente contador de histórias ou bom narrador de batalhas. Ele sabe envolver e emocionar. E sabe surpreender.

A Batalha de Ethandum que opôs Alfredo a Guthrum foi real, assim como alguns dos seus protagonistas, embora a maioria dos personagens, incluindo Uthred e Svein, seja meramente ficcional. A falta de recursos históricos induziu no autor a liberdade de criar, e que bem que ele criou, a partir de um acontecimento histórico que marcou a Inglaterra. Loucamente credível, Bernard Cornwell coloca-nos no tabuleiro de jogo, e diverte-se a fazer deslizar as suas peças.

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Uthred de Bebbanburg (Joleoo em deviantart)

Falar dos personagens exigiria um enorme testamento. Uthred de Bebbanburg, Uthred Uthredson ou Uthred Ragnarson, o nosso protagonista é um verdadeiro idiota. É imberbe, insensato e tolo, mas é impossível não gostar dele, mesmo quando muda de lado à última hora. Também Alfredo é um dos personagens que mais cresceu neste livro. Descrito com credibilidade, é por vezes ainda mais insensato que Uthred, e os dois acabam por ser a consciência um do outro, mesmo quando o que sentem entre eles é desprezo.

Um elenco de personagens incríveis é-nos apresentado com riqueza de detalhes: Leofric, Steapa, Wulfhere, Ragnar, Iseult, Svein, Alewold e tantos ficam ainda por falar. O hilariante Padre Pyrlig, cuja adição foi uma lufada de ar fresco para a narrativa, o pedante AEthelwold que deveria ser rei por direito hereditário, ou os dois Odda, que ganham um papel de destaque em Defnascir. E aqueles que acompanham Uthred desde o início: Brida, a antiga amante de Uthred que agora acompanha Ragnar, tem um papel pequeno mas importantíssimo neste volume, simboliza a fraternidade entre inimigos irmãos e Beocca, que ainda me faz lembrar o Phillip de Os Pilares da Terra com o seu sentido paternal, simboliza o conservadorismo e a misericórdia da Igreja.

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Senhor nórdico (pinterest)

Não encontro falhas dignas de destaque neste livro. Deixo, no entanto, uma pequena nota para os pequenos erros de edição, que não prejudicaram a leitura. Aconteceu tropeçar em Leofroc (Leofric) ou Wildrith (Mildrith), como no primeiro volume foi frequente ler tanto Alfred como Alfredo. A nota de autor faz referência a este livro várias vezes como O Cavaleiro Branco, em vez de O Cavaleiro da Morte. Aparte isso, elogio o grande trabalho de tradução e edição, como é apanágio da editora. Que venha o próximo.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 9/10

Crónicas Saxónicas (Saída de Emergência):

#1 O Último Reino

#2 O Cavaleiro da Morte

#3 Os Senhores do Norte

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9 thoughts on “O Cavaleiro da Morte, Crónicas Saxónicas #2

  1. Pingback: O Último Reino, Crónicas Saxónicas #1 – Nuno Ferreira

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #8 – Nuno Ferreira

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