Estou no Wattpad #7


Olá a todos! Estou de volta com mais um capítulo da vossa história de fantasia preferida, Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, a história de um Império construído com base numa traição. Aproveitem a leitura, o próximo capítulo só sairá na segunda semana de novembro. Até lá!

CAPÍTULO SETE: ALIADOS

“Bortoli sempre foi o meu maior oponente dentro dos Doze Vermelhos. Ninguém sabe ao certo como é que ele começou. Alguns dizem que era contrabandista de ópio nos portos de Veral e Tilania. Um dia contou-me que fora um pequeno ladrão, em tempos idos. Dooda não gostava muito dele, mas no fim todos o aceitaram, uns dez anos antes de eu aparecer nas vidas deles. Era fanfarrão e ganancioso, mas essa era uma característica muito comum entre os Doze. Gabava-se de ter ludibriado Marovarola nos dados. Todos achavam que o seu sucesso se devia à lábia, e podiam até ter razão, mas depois que os traí, ele foi o único que me conseguiu deter… momentaneamente. Mario Bortoli fora um grande guerreiro, nos seus tempos dourados. Esmurrou-me umas três vezes antes de o conseguir imobilizar, mas não havia homem neste planeta capaz de me pôr travão, e eu destruí a sua virilidade com as armas que tinha. Os meus próprios dentes. Dizem que se tornou um medroso depois disso. Se eu estivesse na posição dele, creio que me teria acontecido o mesmo.”

A Batalha de Rhove ainda ia a meio quando Empecilho ouviu um tiro, virou-se e viu a cabeça de Segen explodir numa confusão de sangue e miolos. Uma força militar composta de rhovianos atacou o grupo estacionado no topo de uma coluna pedregosa, com todas as suas forças. Os cabrões dos selvagens estão munidos de armas de fogo, pensou Empecilho, quando levou uma mão ao cinto e desembainhou uma alfange de vinte centímetros, com uma mão sem pontas de dedos. Os Doze Vermelhos bateram-se bem, apesar do fator surpresa e voracidade dos inimigos. A coisa durou meia hora. Quando os jovens seguidores de Dooda Vvertagla começaram a morrer como peças de dominó, o jovem Catata LaCelles, batizado por Língua de Ferro como Empecilho, pegou em Ravella – que já se havia libertado e empunhava agora uma espada manchada de sangue na mão direita – e fugiu. Encontraram Allen entre os desertores, o que não o surpreendeu. Allen era um ator, não um guerreiro.

Os rhovianos perseguiram-nos por milhas, mas a descida da colina fora fácil para as pernas ágeis de Empecilho e Ravella, e quando haviam encontrado Allen, este acenou-lhes para um camelo que os aguardava no vale. Os olhos do homem que o mundo julgava chamar-se Landon X brilhavam de esperança, mas essa esperança foi-lhes barrada quando lá chegaram. Um grupo de rhovianos sitiou-os, montados em algo que parecia o cruzamento de um diabo com uma cabra, com uma pelagem esquálida e cinzenta.

Empecilho crescera na podridão, talvez por isso nada daquilo lhe fosse estranho. Via corpos a boiar em poças de sangue, via homens a defecar a céu aberto, e membros dos Doze Vermelhos a parlamentar com rhovianos. Traidores, pensou. A traição fazia parte da identidade dos Doze Vermelhos, então, deu-se conta Empecilho, ao lembrar-se das palavras amargas de Língua de Ferro. Participaram na retirada do exército para o forte além das muralhas, conduzidos por grossos cordões de cânhamo atados ao pescoço, e quando passaram pela torre de vigia, avistaram a fortaleza. Havia quintas à sua volta, todas elas protegidas por altas paliçadas bem reforçadas, e Empecilho abriu a boca de estupefação, tal a monstruosidade daqueles vedames. Uma rede de estradas sulcadas na pedra estendia-se entre elas e o forte, e para além dele. Afloramentos de rocha erguiam-se a toda a volta, e havia pequenos campos de cultivo e casinhotas de pastores. Não se viam por ali camelos, mas aqueles estranhos bichos que ouvira chamar de karroush, mas que preferia chamar cabris. Havia habitações de colmo, vime e argila, e algumas eram já escaladas por musgo. A humidade ali era mais acentuada, e Empecilho jurou que havia de gostar de ali estar. Mas não gostava, por uma única razão. Era coagido a isso.

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Final Fantasy – artstation.com

Entraram por um longo portão feito de troncos de madeira e unido por cordames, sobre o qual ficava um adarve de madeira onde homens de rostos beligerantes exprimiam esgares de desagrado perante o recuo estratégico dos seus exércitos. Transpostos os portões, tão vigorosos como ruidosos, observaram que o interior não era muito diferente do exterior. Ali podiam encontrar ourives, oleiros e cuteleiros a representar os seus ofícios, quer à porta das suas casas, quer nas praças amplas onde se fazia mercado. O mugir de bezerros (ou coisas diabolicamente parecidas) enchia-lhe os ouvidos, e o mau-cheiro dos selvagens e dos seus animais, o olfato. Havia venda de couro e de manteigas, escultores de peças em madeira e ferreiros. Mel, azeite e tinturas também eram negociados, e era frequente haver bargatas e regateios entre vendedores e fregueses. Não havia disciplina entre os soldados. Empecilho perguntou-se diversas vezes por que razão eles não tinham sido mortos como os Doze Vermelhos que não os haviam atraiçoado; desses, só Empecilho, Ravella e Allen foram poupados.

Inicialmente, o jovem temeu que reconhecessem a sua identidade – afinal fora sobrinho-neto de um pretor –, mas depressa concluiu que os rhovianos tinham ordens para fazer prisioneiros, e os mais frágeis eram as escolhas óbvias.

Aproximavam-se do quartel-general de Rhode, um pavilhão quadrangular em madeira velha, quando Ravella apontou para os homens que circulavam à sua volta.

― Ali, tribais!

Empecilho voltou o olhar para onde a uraniana apontava, e distinguiu a tez negra dos indivíduos, as bocas desdentadas e as sandálias de couro. Depois o mundo rodopiou como um peão, quando o homem que o coagia o rasteirou, grunhindo num idioma absconso. Demorou algum tempo a recompor-se. Havia homens mais bem armados, quando se aproximaram de uma galeria escavada na pedra, que dava acesso ao pórtico do quartel-general. Alguns usavam pesadas armaduras, muito bem polidas, e havia outros com armas de fogo.

― Bacamartes ― segredou-lhe Ravella, com os braços sujos de terra.

Os rostos desses homens eram menos compactos que os dos rhovianos, e as suas colorações menos carregadas. Tinham capas bem tingidas e elmos de couro cosidos, engrinaldados com flâmulas negras para ocultar as costuras. Os escudos eram de bom vime com umbos de metal, mas tinham pouco mais que vinte centímetros de diâmetro. Alguns traziam-nos acoplados aos ombros, outros presos às costas, onde bandoleiras de bom couro transportavam espadas, lanças e até espingardas.

Ouviram-nos falar. Rezolis, percebeu Empecilho, curioso para perceber como os rhovianos haviam conseguido tais aliados.

O telhado do pavilhão era muito alto, sustentado por troncos de madeira e em toda a área entre o cimo do telhado e o topo dos troncos havia formas esculpidas em madeira, que representavam grandes homens desbaratando os inimigos sob os cascos dos seus cabris. Os homens de madeira traziam lanças de madeira e usavam elmos de madeira com flâmulas de madeira. Algumas delas tinham desaparecido ou rachado com a humidade. Ravella fez um gesto obsceno para as figuras, pelo que um dos rhovianos a empurrou para a frente com uma chuva de impropérios e gafanhotos.

Entraram a medo, mas nada os havia preparado para o que estavam prestes a encontrar.

― A humilhação dos deuses ― sussurrou Allen com os olhos ampliados de horror.

Dez corpos pendiam de uma trave de madeira, enforcados. Os seus rostos lívidos ainda exprimiam feições acossadas pelo medo, num corredor amplo que conduzia a um amplo tablado de madeira, onde homens bebiam, comiam e fornicavam, em volta de umas duas dezenas de mesas. Entre elas estava Garya, o senhor de Rhove. Era um homem alto e esguio, com um ventre suave e escuro cheio de cicatrizes e pernas longas. Não teria mais de trinta anos, mas a expressão não era amigável. Não conseguia exibir um sorriso, apesar de fazer chocar canecas contra canecas e ter uma mulher sentada em cada perna. No entanto, quem os recebeu foi outro homem.

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Dune – pinterest

Com uma gentileza falseada e maneirismos exagerados, Mario Bortoli , O Mecenas, saiu das sombras sob um longo toco de vela, acesa e bruxuleante, e aproximou-se dos prisioneiros. Envergava uma casaca cheia de botões e calças lisas e claras. Sondou-os, um a um, e após a avaliação inicial, dirigiu-se a Empecilho com uma voz de barítono:

― Tu!!! Os rhovianos garantem que Língua de Ferro estava em campo de batalha, do lado do Império. Eu não queria acreditar que aquele bastardo me havia traído de novo, mas agora… agora que te vejo. Sim, miúdo, tu… Mario Bortoli não esquece uma cara, já devias saber isso.

O que Empecilho agora sabia, era que Bortoli financiara a compra de armas de fogo aos rhovianos, em troca de uma aliança. Isso, pelo menos, era transparente como água.

― Língua de Ferro? ― tartamudeou.

Um rhoviano pontapeou-lhe a dobradiça do joelho, e Empecilho caiu para a frente.

― Esperem, esperem… Deixem-no falar ― grunhiu Bortoli, ameaçando o rhoviano com o olhar.

― Não vejo Língua de Ferro há muito, senhor… Há muitos homens parecidos. Se Língua de Ferro estivesse aqui, não acredito que defendesse as cores do Império.

Bortoli soltou uma gargalhada, dando palmadinhas no abdómen proeminente.

― Então é isso? E os homens que vos acompanhavam? Os Doze Vermelhos, não é?

Empecilho franziu os malares.

― Acredita que os Doze Vermelhos estavam a combater pelo Império?

― Acredito que os Doze Vermelhos estão mortos. Eu próprio pertenci aos Doze Vermelhos, e sei que a sua missão consiste em atuar por quem pague mais. Língua de Ferro segue o mesmo raciocínio. O que me leva a concluir que estavam a combater pelo Império.

Empecilho não sabia como rebater aquilo.

― Tínhamos um acordo, Bortoli. Língua de Ferro é um homem para quem a palavra conta muito.

― Não conheces Língua de Ferro, garoto. Não tanto quanto eu.

Naquele momento, o próprio Empecilho ficara dividido. Sabia que ele tinha razão. Língua de Ferro combatera pelo Império, e não conseguia perceber porquê. Mas as suas ordens foram claras. Juntar os Doze Vermelhos que ainda subsistiam, e Mario Bortoli era um deles.

― Há quanto tempo deixou Rezos, Bortoli? ― perguntou com arrogância.

Bortoli riu-se da sua petulância, mas respondeu:

― Desde que soube da revolução que aqui se havia instalado. Só unidos, conseguiremos derrubar o Império. Não tenho fé no vosso líder.

― Ele tem um exército, Bortoli! Libertou os prisioneiros do Império.

Mario Bortoli ergueu um braço para as mesas apinhadas de gente. Foi só ali que Empecilho reconheceu alguns rostos. Opyas Raymon, o homem que partilhara consigo e com Língua de Ferro a cela na Prisão, agora conhecido como Boca de Sapo, estava entre eles, e afastado dos restantes, sentado num banco de madeira e envolvido em sombras, o homem cego que alegara ter morto os deuses. Vestia um colete bege entreaberto e calças de couro surrado. Mesmo sem ver, o homem parecia concentrar neles a sua atenção, com especial foco em Ravella, a uraniana.

― Como vês, eles estão comigo.

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Os três prisioneiros foram conduzidos por mãos cruéis até a um barracão nas imediações, encerrado com uma porta e travões de madeira assim que nela entraram. A sala era pequena e não fruía de qualquer mobiliário ou adereço. Humidade escorria pelas paredes de madeira. Não duvidavam que por detrás daquelas paredes haviam guardas, preparados para qualquer tentativa de evasão. Sabiam também que a única coisa que os prendia à vida, ou pelo menos julgavam, era poder contribuir para a denúncia de Língua de Ferro.

― O que é que vamos fazer? ― perguntou Ravella.

Empecilho sentou-se no chão de terra e voltou o olhar para Allen, que permanecia calado e taciturno.

― Dar-lhes o que eles querem ― sussurrou. ― Dizer que Língua de Ferro lutou contra eles. Pelo Império.

― Tê-lo-ia feito se soubesse que Bortoli e Raymon estavam com os rhovianos? ― perguntou Empecilho.

― Provavelmente ― disse Allen com desagrado. ― Língua de Ferro deu-nos uma tarefa, apenas para cumprir com a sua palavra. Ele não quer saber mais de guerras, e nunca quis saber de justiças ou de liberdade. Ele agora sabe quem manda no Império. E vai querer um passaporte para Chrygia, e resolver os assuntos que tem pendentes, o mais rápido possível.

― Lucilla ― disse Empecilho com um suspiro, e Ravella e Allen entreolharam-se.

― O que sabes tu sobre isso? ― perguntou Allen com um rosnido.

― O que ele me contou ― disse. ― Que é ela o rosto por detrás de Landon X. O L. O elo de ligação. Ela pertenceu aos Doze Vermelhos, sabem? E era a mulher de Dooda Vvertagla.

Allen pareceu engolir algo de difícil ingestão. Pôs as mãos na cintura e caminhou em círculos, de um lado para o outro, até que parou de frente para Empecilho.

― Língua de Ferro traiu os Doze Vermelhos por causa dela. Bortoli sabe disso. Todos sabem disso. Se ele tem acesso a essa informação, até que ponto Língua de Ferro não terá mesmo virado a casaca e rumado a Chrygia para tomar o poder? L. era amante dele. Foi aprendiz dele. Até que ponto podemos confiar neste mercenário filho da mãe?

Ravella ergueu-se. Parecia indignada, pronta a agredir Allen, mas depois voltou-se para Empecilho com os olhos cheios de raiva.

― Eu amava-o, miúdo.

Aquilo não fazia sentido.

― Língua de Ferro?

― Esse canalha? Claro que não. Eu fui escravizada aos seis anos, e tinha sete quando saí do Urão. Quando Rivia me comprou, já tinha passado pelas mãos mais terríveis. Rivia não foi um dono melhor, embora me tratasse como uma esposa. Quando Regan chegou a Selaba, vinha muito ferido, e fui incumbida de cuidar dele. Tratei-o o melhor que pude, e então ele olhou-me como nenhum homem me olhara. O terrível Dzanela dos Doze Vermelhos era um homem bom, Empecilho. ― Virou-se para Allen. ― O teu irmão tratou-me como nenhum outro, e apaixonei-me por ele. Foi por isso que eu quis juntar-me a Língua de Ferro. Para vingar a morte de Regan. E não vou descansar enquanto não o conseguir. Se essa Lucilla é a responsável pelo que lhe aconteceu… ― Fechou os olhos. ― Se não acontecesse, provavelmente nunca o teria conhecido, mas ainda assim… Se Língua de Ferro se unir a essa cabra, matá-lo-ei com as minhas próprias mãos.

O deslocar de ripas de madeira e o som de palmas a bater em palmas fizeram-se ouvir antes da porta se abrir. Bortoli e alguns rhovianos aproximaram-se, fitando de alto a baixo os prisioneiros.

― Muito bem, muito bem. Parece então que estamos do mesmo lado, e nutrem algumas dúvidas sobre o caráter do vosso Língua de Ferro. Vou dar-vos o benefício da dúvida. Colocar-vos-ei ao meu serviço, e contar-me-ão tudo o que sabem. Sobre os planos de Leidviges Valentina. E sobre Lucilla. Já eu, contar-vos-ei tudo sobre o nosso passado em comum.

Os três prisioneiros entreolharam-se, surpreendidos, e voltaram a sua atenção para Mario Bortoli, incertos sobre se teriam agora tornado seus aliados.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um: A Prisão | Capítulo Dois: Os Doze Vermelhos

Capítulo Três: Hereges | Capítulo Quatro: Veza | Capítulo Cinco: Mentiras

Capítulo Seis: A Batalha de Rhove | Capítulo Sete: Aliados

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