A Canção de Susannah, A Torre Negra #6


Eu recuso-me a acreditar nisso. Recuso-me a acreditar que fui criado em Brooklyn simplesmente por causa do erro de algum escritor, algo que acabará por ser corrigido nas segundas provas. Ei, père, estou contigo… recuso-me a acreditar que sou uma personagem. Esta é a porra da minha vida!

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “A Canção de Susannah”, sexto volume da série A Torre Negra.

A Torre Negra é a obra mais visionária do autor Stephen King. A Canção de Susannah, o sexto volume, prossegue a demanda de Roland Deschain, o pistoleiro, em busca da onírica torre, focando-se no estado de “graças” de Susannah Dean.

O contexto

Em 19 de junho de 1999, Stephen King foi atropelado durante uma caminhada a pé. Depois de algum tempo entre a vida e a morte, o famoso escritor do Maine recuperou, embora tenha ficado marcado para o resto da vida, e a sua obra literária também sofreu com o acidente. Um pouco influenciado pelas torrentes de fãs, que tinham pensado perder o seu autor preferido sem que tivesse concluído A Torre Negra, King decidiu pôr um ponto final na série, concluindo-a com mais três livros – Lobos de Calla, A Canção de Susannah e A Torre Negra.

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Susannah Dean (Daria T-s, deviantart)

Stephen King desenvolveu a narrativa e atou pontas soltas, usando a história de Os Sete Samurais como base e parodiando vários blockbusters, como Harry Potter ou Star Wars. Transformou também a data do seu acidente num símbolo da série, usando frequentemente os números 19 e 99 com tremenda frequência na história, fazendo os personagens reconhecerem o seu grande simbolismo. O ka-tet de Roland (o seu grupo unido pelo mesmo destino) tornou-se o ka-tet do 19. Da mesma forma, usa-se de vários recursos mitológicos e personagens de outras obras (como o urso Shardik e a tartaruga Maturin) e usa-os como símbolos de grande poder.

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A Torre Negra (Marvel)

A Canção de Susannah

Lobos de Calla termina com o desaparecimento súbito de Susannah, quando já todos tinham percebido que ela estava a ser manietada por uma entidade demoníaca chamada Mia, ou Mãe, e que estava grávida, fruto da relação sexual com o demónio descrita em Terras Devastadas, que permitiu a viagem de Jake para o Mundo Médio. A Canção de Susannah mostra-nos três focos narrativos distintos. Ao contrário dos restantes livros, este não é dividido por capítulos, mas por estrofes, e cada um termina com uma estrofe da cantiga que dá título ao livro. Susannah e Mia viajam para o ano de 1999 (familiar?), onde se conhecem mutuamente e procuram os seus pontos fortes e fraquezas, tentando demover-se uma à outra dos seus intentos. Os temíveis servos do Rei Rubro – homens vis, vampiros e outros – pretendem colocar-lhes as mãos em cima, para receber a criança que se chamará Mordred. Tal como o personagem da lenda arturiana, destinado a assassinar o seu pai.

Com a ajuda dos índios manni, o resto do grupo consegue atravessar um portal para o nosso mundo, mas qual realidade será mais real? Jake, Oi e o padre Callahan seguem as pistas de Susannah na Nova Iorque de 1999, mas os outros dois têm outra missão. Em 1977, Roland e Eddie voltam a enfrentar Jack Andolini e os homens de Balazar, mas vão também obrigar Calvin Tower a cumprir o prometido (Cal, Calla, Callahan), ou seja, vender-lhes o terreno onde está a Rosa no nosso mundo (onde fica a Torre Negra no mundo de Roland). Depois disso, procuram um tal Stephen King, escritor que parece reconhecer Roland de uma história que havia deixado numa gaveta. Roland hipnotiza-o, instigando-o a continuar a história da Torre Negra. No final do livro, em jeito de autobiografia, King noticia a sua própria morte na tragédia de 99.

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Capa Bertrand Editora

SINOPSE:

Na sua viagem em direção à torre, Roland e o seu ka-tet enfrentam adversidades sem fim: Susannah Dean foi levada por um demónio-mãe e usa a Treze Negra para ir para Nova Iorque. Mas quem é o pai da criança? E que papel desempenha o Rei Rubro nesta história? Roland envia Jake para tentar desviar Susannah do seu terrível destino, ao passo que ele próprio se dirige ao Maine para conversar com um certo Stephen King, autor de Salems Lot: A Hora do Vampiro. Um livro surpreendente que deixará os leitores desesperados pelo capítulo final desta série…

OPINIÃO:

Stephen King conseguiu fazer, neste livro, o que lhe faltou nos anteriores. Condensação. A Canção de Susannah, sexto e penúltimo volume da série A Torre Negra, tem pouco mais de 400 páginas, sem os tempos mortos que eu havia criticado nos livros anteriores. A narrativa, porém, não avançou muito, apesar do ritmo constante e crescente e dos vários encontros saborosos que King nos proporciona – um deles, consigo mesmo.

Commala-vem-ver

A batalha vai agora ser!

E os inimigos dos homens e da rosa

Erguem-se ao anoitecer.

As referências a obras do autor e de outros autores são constantes, como se esta luta contra o tempo desesperante fizesse parte de uma piada privada, como se os deuses se rissem e se divertissem com as desgraças dos personagens. Também encontrei referências ao nosso mundo real, como a palantír aka Treze Negra escondida num cofre secreto sobre o World Trade Center. Aquele humorzinho negro de King, sempre presente.

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Servo do Rei Rubro (pinterest)

A ironia de King não o poupa a si mesmo, e as suas inversões e piadas são constantes. Por vezes, estamos tão imbuídos na adrenalina e no sentimento dos personagens, que não reparamos logo na presença de certas referências. Felizmente, King não se nega a esforços de nos fazer vê-las. É ele quem mais se diverte com as reviravoltas rocambolescas do seu ka-tet. As próprias parcerias (Jake, Oi e Callahan; Roland e Eddie) tomam rumos diferentes do que haveríamos suposto, pertencendo ao rapaz e ao padre o papel principal nos eventos que estão prestes a acontecer, ainda que o pistoleiro deva ter uma função determinante nesse desfecho. O final de A Canção de Susannah foi, em simultâneo, um gancho miserável e saboroso. O impasse para o último volume faz-se através de um prenúncio terrível. O Rei Rubro está de olhos bem abertos, e o desfile de servos malignos começa agora a mostrar o seu rosto. Os personagens do ka-tet estão posicionados para cenas de grande ação, e fiquei de água na boca por ler o livro final desta série.

Avaliação: 8/10

A Torre Negra (Bertrand Editora):

#1 O Pistoleiro

#2 A Escolha dos Três

#3 As Terras Devastadas

#4 O Feiticeiro e a Bola de Cristal

#4,5 A Lenda do Vento

#5 Lobos de Calla

#6 A Canção de Susannah

#7 A Torre Negra

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10 thoughts on “A Canção de Susannah, A Torre Negra #6

  1. Pingback: Lobos de Calla, A Torre Negra #5 – Nuno Ferreira

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  5. Pingback: As Terras Devastadas, A Torre Negra #3 – Nuno Ferreira

  6. Pingback: O Feiticeiro e a Bola de Cristal – Nuno Ferreira

  7. Viva,

    Fico sempre com muita vontade de ler esta saga, já li o primeiro tenho o segundo e até podia arranjar alguem que me empreste os seguintes *assobio* mas com tanta coisa para ler e não gostando muito do escritor por ser algo descritivo fico sempre na duvida, mas a ver se me ponho a ler o 2º volume, pode ser que me motive para ler os seguintes.

    Vejo que este livro mudou um pouco, pelo menos não foi tão descritivo e algumas pontas foram atadas, bom sinal 🙂

    Abraço e boas leituras

    1. É verdade :p É questão de experimentares. O livro isolado, o 3.o e o 4.o são os mais difíceis de ler, mas todos eles têm cenas muito fixes. Já só me falta um livro para terminar

  8. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #8 – Nuno Ferreira

  9. Pingback: Estive a Ler: A Torre Negra, A Torre Negra #7 – Notícias de Zallar

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