As Primeiras Quinze Vidas de Harry August


Concordo, não somos deuses. Mas, Harry, isto é o que fará de nós deuses, o que nos dará a visão do Criador. Esta pesquisa poderá desvendar os segredos do infinito.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “As Primeiras Quinze Vidas de Harry August”

Claire North é um pseudónimo da britânica Catherine Webb, um jovem talento da literatura especulativa. Nascida em 1986, Webb lançou o primeiro romance aos 14 anos. 2014 marcou o lançamento da sua primeira obra no segmento Ficção Científica, o livro de que hoje vos falo.

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Catherine Webb/Claire North

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August é a história de um homem incomum. Um homem que não compreende as suas faculdades e aquilo que pode fazer com elas. Harry nasce em 1919 e é um menino ruivo, o fruto de uma violação. A mãe morre durante o parto. Sem ser reconhecido pelo pai biológico, um nobre orgulhoso chamado Rory Hulne, Harry é criado por um casal humilde, Patrick e Harriet August, e a verdade sobre as suas origens é-lhe vedada.

Harry percorre a Segunda Guerra Mundial como soldado de infantaria, regressa a casa para tomar conta das tarefas do pai, e morre aquando da queda do Muro de Berlin, com um problema de saúde grave: mieloma múltiplo, que se espalha pelo corpo até que este deixa de funcionar. Tudo isto seria normal, se Harry não voltasse a nascer de novo em 1919, e por volta dos seis anos capacita-se de tudo aquilo que lhe aconteceu na vida passada. Só na terceira vida Harry descobre que é filho de Hulne. As datas de nascimento são sempre as mesmas. As datas de morte variam, mas as causas são geralmente similares. A pouco e pouco, Harry percebe mais. Não é o único a possuir o dom.

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Imagem de um Ouroborus. A serpente que morde a própria cauda, simboliza o início que segue-se ao fim (a2ua)

Existe um clube a funcionar nas grandes cidades mundiais, onde as pessoas com este dom de recordar as vidas anteriores encontram-se em tertúlias e discutem os assuntos de sempre. O Clube Cronus. A política deste grémio consiste em não interferir nos destinos do mundo, ainda que, de uma forma ou de outra, venham a desempenhar um papel. Harry fica a saber que é um kalachakra, ou ouroboriano, e as pessoas que não possuem o dom, são chamadas de lineares. Harry conhece pessoas como Virginia, Charity ou Akinleye, recebe a visita da pequena Christa num quarto de hospital e ela diz-lhe que o mundo vai acabar, e Richard Lisle faz de magarefe com prostitutas.

Vida após vida, Harry arranja defesas. Consegue deixar os pais adotivos e juntar-se ao Clube logo que a idade o permita, arranja mecanismos para assassinar Richard Lisle antes que ele retalhe Rosemary e outras profissionais do sexo, ouve histórias sobre Victor Hoeness, o pecador ouroboriano que interferiu nos destinos da Humanidade e finalmente dá de caras com Vincent. Vincent Rankins, um amigo de longa data que o convence a desempenhar o papel que lhe é vedado. Usar os seus conhecimentos avançados para compreender o mundo com a mente de Deus.

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Harry August (ntere)

Harry ajuda Vincent a construir um aparelho científico. O espelho quântico. Os olhos do Criador. Em determinado momento, Harry põe as mãos na consciência e percebe que Vincent é um alvo a abater. Tudo o que ele faz vai contra a missão e a doutrina do Clube Cronus, e só Harry o pode impedir. Harry morre de diferentes causas em várias vidas, e só do mieloma múltiplo, quando as causas brutais não antecipam o último suspiro. Vincent tortura-o, certa vez, para o fazer esquecer de tudo o que fizeram, mas isso não resulta, e só mais tarde Harry percebe porquê. Mesmo entre os kalachakras ele é especial.

Os kalachakras recordam-se de vidas anteriores, mas com o passar das vidas, o que ficou muito para trás vai ficando nublado, até chegar ao esquecimento. Estão também sujeitos a lavagens mentais que se traduzem em esquecimentos, e nas vidas seguintes apenas fiapos de memórias surgem-lhes e atormentam-nos, o que os conduz pontualmente a consultas com psicólogos e aos sanatórios. A Harry, isso não pode acontecer, uma vez que é um mnemónico. Os mnemónicos mantêm viva a memória de todas as vidas, como se fossem vividas ontem. Vincent não sabe disso. Vincent pretende dominar o mundo. Vincent extermina a maioria dos ouroborianos e exingue os Clubes Cronus. Apenas Harry o pode parar. O seu amigo. O seu inimigo. O mundo está à beira do fim.

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Capa Saída de Emergência

SINOPSE:

Harry August não é um homem normal. Porque os homens normais, quando a morte chega, não regressam novamente ao dia em que nasceram, para voltarem a viver a mesma vida mas mantendo todo o conhecimento das vidas anteriores. Não interessa que feitos alcança, decisões toma ou erros comete, Harry já sabe que quando morrer irá tudo voltar ao início. Mas se este acumular de experiências e conhecimento podem fazer dele um quase semideus, algo continua a atormentar Harry: qual a origem do seu dom e será que há mais pessoas como ele?
A resposta para ambas as perguntas parece chegar aquando da sua décima primeira morte, com a visita de uma menina que lhe traz uma mensagem: o fim do mundo aproxima-se.
Esta é a história do que Harry faz a seguir, do que fez anteriormente, e ainda de como tenta salvar um passado que não consegue mudar e um futuro que não pode deixar que aconteça.

OPINIÃO:

Este As Primeiras Quinze Vidas de Harry August, de Claire North, foi uma agradável surpresa. Não só dá uma nova roupagem à ideia de viagens no tempo e reencarnações, como nos coloca a pensar na vida e naquilo que fazemos dela. Com um brilhante prefácio de Inês Botelho, a edição portuguesa da Edições Saída de Emergência é um todo bem cuidado, e uma lufada de ar fresco no que ao género diz respeito.

Mas ele ainda não tinha feito isto.

Será que Richard Lisle poderia ser salvo?

A voz de Vincent, o meu aluno, enquanto estamos sentados no meu escritório em Cambridge, a beber whisky.

A autora alia conhecimentos científicos e históricos para compôr um romance ousado e original. Ficção científica credível, sem recurso a máquinas do tempo, naves espaciais ou objetos caídos do céu. A narrativa de Claire North é tão bem oleada, que quase acreditamos nela. E se a ideia de tempo estivesse errada e não fosse um rio fluído que corre numa direção, mas sim um espaço limitado, a que cada um tem direito? Harry pode estar em 1919 com conhecimentos de 2004, mas não consegue chegar a 2016, por exemplo. O conceito é aliciante. Mais, empolgante.

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Flyer Saída de Emergência

Confesso que a minha empolgação perdeu força. Não que o livro não seja tão bom como o relato acima indica. As Primeiras Quinze Vidas de Harry August misturam o conventual com o moderno, uma narração coesa e escrita carismática nas mãos de uma autora que já me convenceu. Os capítulos são curtos e rápidos, o que facilita a leitura compulsiva do livro, mas a narração na primeira pessoa faz o protagonista saltar de vida para vida, como alguém que conta uma história e perde o fio à meada, o que por vezes gera alguma confusão, e por outras cria ganchos e interlúdios geniais. O suspense é um dos pontos fortes do romance.

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Ilustração da capa original (amazon)

Um dos pontos negativos foi o percurso que o livro tomou, seguindo clichés de histórias de ação e tornando-se uma narrativa que facilmente poderá ser adaptada a um blockbuster de cinema. Talvez estivesse à espera de algo menos expectável, suponho. A época em que os personagens vivem também não é das minhas preferidas, e gostaria de ver mais acontecimentos e desenvolvimento dos personagens, do que a narração pela rama das histórias contadas. Creio que todos gostamos mais que nos mostrem do que nos contem como foi. Ainda assim, é um ótimo livro e uma abordagem completamente nova e deliciosa aos temas apresentados. Mais do que o curso narrativo, que não me agradou por aí além, fica a originalidade e a escrita. Uma jovem autora e um talento enorme. Claire North é já um nome a não esquecer.

Este livro foi cedido em parceria com a editora Saída de Emergência.

Avaliação: 6/10

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5 thoughts on “As Primeiras Quinze Vidas de Harry August

  1. Viva,

    Espero que esteja tudo bem contigo, ainda temos que falar melhor que sei que tiveste ai uns dias fantásticos por Itália 😀

    Estou a acabar de ler o livro, depois venho aqui comentar melhor para ver se temos opiniões identicas 😉

    Abraço e boas leituras

      1. Oie,

        No fundo partilho a tua opinião um bom livro mas que nos deixa um pouco baralhados na forma como é narrado mas o final embora possa ser previsivel acabei por gostar bastante.

        Uma escritora a seguir, caso venham a ser publicados mais livros 😉

        Abraço

  2. Pingback: Resumo Trimestral de Leituras #8 – Nuno Ferreira

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