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Viva! Já está disponível na plataforma Wattpad o oitavo capítulo do meu livro de literatura fantástica, Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer. Língua de Ferro separou-se dos seus homens e foi surpreendido na Batalha de Rhove por um velho conhecido. Enquanto isso, Empecilho, Allen e Ravella foram aprisionados pelos rhovianos e encontraram Mario Bortoli em Rhove. As peças começam a encaixar-se e a cada capítulo, uma nova surpresa. Preparados para Um Voto de Confiança? Espero que gostem.

CAPÍTULO OITO: UM VOTO DE CONFIANÇA

“Obba foi o Vermelho que menos temi. Apesar da sua extraordinária técnica de combate corpo a corpo, não era muito esperto. Consegui derrotá-lo em todos os treinos que me desafiou, e matei-o da única vez em que lutamos a sério. Era excelente no manuseio de maças de armas, e sabia usar arco e flecha, o que era coisa rara entre nós. Quando os traí, foi dos poucos que me perseguiram. Fintei-o uma dúzia de vezes, certo que não era inteligente para me seguir o rasto. Mas viriam outros depois dele. Agravelli, por ventura. Marovarola, provavelmente. Foi por isso que o matei. Para não deixar rasto.”

― Lembras-te de Obba? ― perguntou Marovarola, com os seus olhos febris. Depois despejou-lhe um balde com água para cima, e Língua de Ferro balbuciou. Estava de joelhos, com as mãos e os pés atados a cordame e um bocado de pano húmido na boca. Vestia somente uma bragadura de linho encardido. Encontravam-se num casario abandonado, pelo que parecia, e o homem esguio de pernas arqueadas que cirandava com uma fluidez elegante e maneirismos aristocráticos à sua volta era Dagias Marovarola. Um dos irmãos que traí. Doía-lhe a nuca como os malditos infernos, e a língua parecia cortiça. Fora Marovarola quem lhe dera uma valente pancada, com um bastão de madeira, e o levara para ali. ― Tu, o mercenário, o desgraçado que nos traiu, a lutar pelo Império? A lutar por Landon X? Que espécie de escória és tu?

Língua de Ferro tentou falar, mas tinha a boca dormente e entorpecida pelo pedaço de pano. Reparava agora que Marovarola tinha um ferro de ponta em brasa na mão esquerda e vestia umas calças em pelica e jaqueta de algodão em mau estado. O torso era musculoso e magro e o rosto angular e escuro, emoldurado por uma cascata de cabelos negros e sebosos. O homem arrancou-lhe o pedaço de pano da boca e Língua de Ferro cuspiu. Tinha as vias respiratórias cheias de água e porcaria.

― Marovarola. Por onde tens andado, filho da mãe?

― Isso importa? Sou eu quem faz as perguntas.

― Se queres saber porque eu lutava pelo Império, terás de te esforçar mais do que isso.

Marovarola olhou, de uma forma que quase parecia casual, para o ferro em brasa, e explodiu numa gargalhada.

― Achas que sim? Achas mesmo, Leidviges Valentina?

― Acho que capturaste o homem errado. Ou fizeste a pergunta errada.

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Piratas das Caraíbas fan art (piratesofcaribbean)

― E qual é a pergunta correta?

― Porque é que traí os Doze Vermelhos.

Marovarola não pesou a questão.

― Porque é que traíste os Doze Vermelhos?

A resposta também não se fez esperar.

― Porque era jovem e apaixonado. Porque vocês eram um bando de cretinos que passavam o dia a medir pilas. Estava farto disso. Farto de vocês.

― Por causa de um par de tetas. Confessa, Valentina!

― Lucilla era mais do que isso. Quis fugir com ela. Ser mais bem pago pelos meus serviços. Conceber uma agência de influências secretíssima, chegar ao poder. Arrancar a cabeça a Cacetel e sentar-me no trono de acanto.

Os olhos de Marovarola piscaram.

― Que pretensão. E Maggia?

― O rapaz era o bode expiatório. Um simples moço de recados. Enviei-o para Cooper Ravoli, o homem que me pagou para dizer onde vocês estavam escondidos. Ravoli trabalhava para Cacetel, mas isso só eu e mais uns poucos sabíamos. Deixei Maggia com o grupo e ensinei-o nas nossas artes, para que quando eu e Lucilla fugíssemos e os homens de Ravoli nos apanhassem, ficasse ele com a responsabilidade moral da vossa captura. Mas os homens de Ravoli chegaram cedo de mais. Vocês resistiram, e Bar e Vivelma morreram. Vi como tu me olhaste. Já sabias que tinha sido eu o culpado. Não havia retorno, precisava fugir. Bortoli apanhou-me a confessar o plano a Luce e enfrentei-o, assim como a todos os que se colocaram no meu caminho. Obba foi só um homem que matei. Correu tudo mal e capturaram Lucilla. Tu capturaste Lucilla. Pensei por muito tempo o que lhe poderias ter feito.

Marovarola sorriu.

― Lamento não a ter morto. A cabra fugiu-me antes que tivesse oportunidade de a degolar. Nunca mais a vi.

Língua de Ferro fitou o solo com a expressão de quem nunca tenha visto coisa mais vulgar. Parecia comprometido.

― Encontrei Dooda, mais tarde ― confessou Língua de Ferro. ― Contei-lhe tudo e ele perdoou-me a traição. O novo Imperador, Landon X, chegou ao poder, depois da Seca. Dzanela entrou em contacto comigo. Acreditei que havia ultrapassado a minha traição e aproximei-me, e quando o fiz, apunhalou-me pelas costas. Entregou-me ao Império e fui parar à Prisão. Hoje sei que Dzanela estava coagido pelo Império porque tinham o irmão dele. Também sei que Dzanela está morto e Lucilla está viva. É ela a mente por detrás da figura Landon X. O Imperador que surge em público é um fantoche: Allen, o irmão de Dzanela, que tenho em meu poder. Controlei a Prisão e matei Don Michelle. Fiz aliança com Dooda e ele morreu, e quando morreu foi ele quem me contou que Luce estava viva. Prometi o Império a Bortoli e liderei os novos Vermelhos de Dooda, e tu pensas que eu estava realmente a lutar pelo Império.

Marovarola estava apenas a sorrir.

― Presumindo que tudo o que me dizes é verdade… o que me impede de pensar que não pretendes juntar-te a Lucilla?

Língua de Ferro sorriu:

― É mesmo isso que eu pretendo fazer. Arrancar-lhe a cabeça e ficar no seu lugar. A cadela traiu-me.

Marovarola pousou o ferro e dobrou-se atrás de Língua de Ferro, desamarrando-o.

― O que estás a fazer?

― Tudo o que contas pode ser verdade, e ter sido um embuste preparado entre vocês os dois. Estou a desamarrar-te. Vou dar-te a cabeça dela, perceber as tuas verdadeiras intenções. Sim… Valentina, vou mostrar-te uma coisa, contar-te o que tenho feito. Talvez ambos queiramos o mesmo. Talvez ambos nos tornemos amigos ou nos matemos um ao outro. Mas Landon X, seja ele quem for, não viverá até à próxima estação.

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Irmandade (huaban)

Marovarola colocou Língua de Ferro em pé com um puxão e olhou-o com um reflexo de diversão. Língua de Ferro podia tentar cabeceá-lo ou esmurrá-lo e fugir dali enquanto se recompunha. Isso de nada lhe adiantava. Marovarola plantara nele a curiosidade – como era engenhoso nessas coisas. Para além disso, conhecia a perícia física do sujeito. Marovarola estava mais velho, era certo, mas continuava jovial como sempre, com aquele sorriso de quem troça do mundo, e uma velocidade de movimentos inominável. Como se lhe estivesse a ler os pensamentos, disse:

― Deves estar demasiado dorido, mas não te esqueces da massa em que fui feito.

― Em que fomos feitos ― acrescentou Língua de Ferro. Marovarola tinha razão. A cabeça doía-lhe e o mundo ainda parecia oscilar à sua volta.

― Bati-te com força, sabendo que eras dos duros. Uma pancada mais leve não teria produzido efeito. Só tive de me esconder e levar o teu corpo comigo.

Língua de Ferro sorriu, como quem não acredita que ele tenha conseguido fazer tudo aquilo sozinho.

― Vi-te a lutar pelos rhovianos. Estás com eles? ― Marovarola soltou uma risadinha.

― Uma aliança momentânea. Alguns deles foram bem pagos para me fazer uns favores.

O salteador passou à frente de Língua de Ferro e caminhou para uma escadaria de pedra. Língua de Ferro reparou agora que estavam numa adega. Prateleiras de betão com vinhos mais antigos do que eles preenchiam as paredes. Eram oriundos de um tempo fausto, quando a água não era tão preciosa. Logo considerou a ideia que os amigos de Marovarola não seriam tão pouco poderosos como pensara, e seguiu-o pela escadaria abaixo.

O lugar por onde Marovarola o conduziu era um riquíssimo salão crivado de pipas de vinho em maturação, e ao centro dessa imponência de antanho ficava uma longa mesa de pedra com tampo de marfim, reproduzindo o atlas de Semboula. A sala estava deserta, mas os cadeirões de mogno com espaldares de marfim eram quinze, e havia uma garrafa de Veza 3026 em cima da mesa, com dois altos copos de cristal ao seu lado.

Quando se aproximaram, Língua de Ferro encontrou com o olhar várias figuras trabalhadas em marfim, qual peças de um jogo de xadrez. Eram treze peças, as reproduções exatas dos Doze Vermelhos originais. E eu também, percebeu, ao ver a sua figura refletida num pedaço de pedra polida, com não mais que cinco centímetros de altura. Não é uma reprodução fiel, mas assemelha-se. A expressão austera, os braços grossos, Apalasi à cintura.

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Peças de xadrez (mysticalpassage)

Reparou também que o atlas pintado na mesa não tinha mares. Não é tão antigo quanto tinha julgado. Marovarola abriu a garrafa com um tinido que ecoou pelas paredes e vazou para os dois copos. Vinho tinto. Quando lhe ofereceu um copo, Língua de Ferro declinou com um gesto.

Marolvarola sorriu.

― Pensas que quero envenenar-te?

― Sei que se o planeasses fazer, não mo dirias.

― Sabes que não é essa a minha intenção.

― Não, Dagias Marovarola. Não sei. Bebe o teu vinho e conta-me o que tens para me contar.

O homem sorveu o seu vinho de um só trago. Depois, pousou o copo sobre a mesa, fazendo um clique delicado que se repercutiu por toda a sala. Ampla, fria e ressonante.

― Depois que os Vermelhos se separaram, passei por um mau bocado. Juntei-me aos Maus Rapazes durante uns tempos e tornei-me seu líder. Pilhei quartéis, forniquei sacerdotisas e fui enchendo os bolsos. Um certo dia, numa estalagem em Corténia, ouvi o meu nome da boca de um oficial. O Império estava à minha procura e eu não sabia porquê. Não forjei a minha morte, porque chamaria facilmente a atenção, mas desapareci do mapa. Parei com as minhas atividades por uns tempos. Esperei num anexo uma semana, aluguei uma cave por três meses. Viajei sozinho durante um ano. Aqui e ali, ouvia que estavam à minha procura. Certo dia, conseguiram apanhar-me o rasto. Para minha sorte, não foi o Império, mas alguém que sabia que o Império me perseguia. Cesare LaCelles.

Língua de Ferro engoliu em seco ao ouvir o nome do tio de Empecilho.

― Contou-me sobre Lucilla. Ele sabia dela, porque mantinha um espião dentro do Palácio. Esse espião acabou morto, assim como Cesare. As suas terras e pertences foram confiscados pelo Império. Mas esta adega onde eu me mantive escondido… Nunca ninguém soube nada sobre ela. Aqui, escondida no deserto, tão perto de Rhove. Aqui fiquei, até que as minhas ideias para parar Lucilla ganharam forma. Fui eu quem cantou trovas de horror em Rhove, e inspirei a população contra o Império. Por vezes disfarcei-me de mendigo cego, por vezes de filósofo. Nunca regressei à adega sem limpar o rasto e esperar um par de dias. Sei que o Império tem espiões e aliados por todo o lado.

― Então a rebelião é coisa tua.

― Sim, e não só. Trouxe Bortoli para esta causa.

― Bortoli? ― Aquilo inquietou Língua de Ferro.

Marovarola contraiu as maçãs do rosto, divertido.

― Consegui que os rhovianos se aliassem a ele. Chegou há menos de uma semana.

Debruçou-se sobre a mesa e derrubou as figuras dos Doze Vermelhos originais que haviam falecido. Dooda, Obba, Vivelma, Bar, Remellia, Skote, Dzanela. O tinido das peças a cair ecoou no teto de pedra, do qual pendiam duas coroas de velas acesas, e as peças rolaram pela mesa até pararem, estancadas umas nas outras ou caindo no chão, onde continuariam a rolar até parar.

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Final Fantasy (fanpop)

Dooda, que se sacrificou para salvar Língua de Ferro.

Obba, que morreu ao perseguir Língua de Ferro.

Vivelma, que morreu numa emboscada planeada por Língua de Ferro.

Bar, que morreu para salvar Marovarola, na mesma emboscada planeada por Língua de Ferro.

Remellia e Skote, que morreriam mais tarde às mãos de Ravoli, culpa de Língua de Ferro.

Dzanela, morto às mãos de Lucilla, ela própria resultado do trabalho de Língua de Ferro.

A culpa a torcer-se como uma lâmina no seu coração. A expressão facial inalterada, tentando revelar-se um homem feito de aço. Marovarola circunscreveu a mesa e colocou os que ainda viviam nos lugares onde se encontravam. Bortoli em Rhove. Língua de Ferro e o próprio Marovarola ali perto. Lucilla em Chrygia, a não mais que três montanhas de distância. Brovios e Agravelli nas imediações.

Marovarola inspirou fundo, como se sentisse realizado por aquilo que fizera.

― Bortoli não me falou desta aliança ― sussurrou Língua de Ferro. ― Não confio nele.

― Nem eu ― disse Marovarola. ― Como não confio em ti. Porque queremos todos o mesmo, no final. O mesmo que Lucilla. Se ela conseguiu, qualquer um de nós conseguirá. É por isso que, antes que qualquer um de nós se mate, vamos matá-la a ela. As peças estão onde devem estar.

Língua de Ferro estudou o tampo da mesa.

― Agravelli e Brovios continuam juntos.

― Sim ― disse Marovarola, como uma constatação do óbvio ― , e calculo que pretendam o mesmo que nós.

Língua de Ferro sorriu.

― Estás feito com eles…

― Como estou feito com Bortoli ― confessou. ― E agora contigo, embora me pareça que tenhas sido aquele com quem tenha sido mais transparente, o que gera um paradigma. Afinal, se foste tu aquele que nos traiu, porque raio haveria de te dar um maior voto de confiança?

― Porque sabes que eu sou uma peça-chave para derrotar Lucilla. Terei de confiar em ti para entrar nisto, e para isso, precisas produzir confiança. Não acredito em ti, Marovarola. Nem sei se esta adega é o teu esconderijo, ou se foi propriedade de LaCelles. Sei, no entanto, que o teu plano agrada-me. Vamos usar Brovios e Agravelli como a primeira vaga de ataque. A nossa… infantaria.

Marovarola sorriu para ele, divertido, antes de voltar a encher o copo de vinho e emborcá-lo. Respirou fundo e disse:

― Sim. E depois, que entre a cavalaria…

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um: A Prisão | Capítulo Dois: Os Doze Vermelhos

Capítulo Três: Hereges | Capítulo Quatro: Veza | Capítulo Cinco: Mentiras

Capítulo Seis: A Batalha de Rhove | Capítulo Sete: Aliados

Capítulo Oito: Um Voto de Confiança

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