Prelúdios e Nocturnos, Sandman #1


Por um breve instante, Roderick Burgess sente medo. E considera a audácia do seu acto: Capturar a morte. Capturar a derradeira…

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Prelúdios e Nocturnos”, primeiro volume da série Sandman (Formato BD)

2016 foi um ano de ouro para as bandas-desenhadas publicadas em português de Portugal. Depois de V de Vingança, Watchmen e outros ex-libris do género, chegou a vez da icónica Sandman de Neil Gaiman chegar ao nosso país pelas mãos da Levoir. Se Sandman foi um segmento recorrente da DC entre 1974 e 1976, a antiga personagem sofreu um refresh pelas mãos do célebre autor britânico, depois de uma iniciativa arrojada da DC e da sua editora Karen Berger, que havia declinado várias propostas de Gaiman. A ideia do autor para Sandman convenceu-a. Depois, convenceu o mundo.

O primeiro número da revista foi datado de janeiro de 1989, embora a edição em capa dura intitulada Prelúdios e Nocturnos (que inclui os números 1 a 8) tenha sido publicada somente em 2003. Sam Kieth, Mike Dringenberg e Malcolm Jones III são os ilustradores deste primeiro fascículo.

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Capa Levoir/Público

Quem é Sandman?

Sandman, Sonho ou Morfeu, o personagem central da obra é um Eterno, ou seja, uma figura que representa diversos estados do ser humano. Também é chamado de Senhor dos Sonhos. Destino, Morte, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio são exemplos de outros Eternos que frequentam o universo de Neil Gaiman.

Prelúdios e Noturnos mostra-nos a captura de Morfeu, através de um ritual realizado por Roderick Burgess, um ocultista que procurava invocar a sua irmã Morte – embora tenha falhado o alvo – quando tentava alcançar a imortalidade. O protagonista permanece aprisionado durante setenta anos, até ver-se diante da oportunidade de fugir à redoma de vidro onde o haviam aprisionado. Inicialmente, Sandman vê-se dominado pela ânsia de vingança, embora acabe por se organizar na busca dos seus objetos mágicos: uma bolsa de areia dos sonhos, um capacete e um rubi de sonhos.

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Prancha de Prelúdios e Nocturnos (Levoir)

Em busca dos objetos mágicos.

As personagens Caim e Abel são apresentadas numa sequência de encontros e desencontros após a fuga de Morfeu. Eles desenvolvem a compreensão do protagonista e os portais entre os mundos. Para encontrar as suas ferramentas de poder, ele precisa da ajuda de John Constantine, o personagem criado por Alan Moore que é presença célebre no mundo da DC Comics.

Enfraquecido pelos anos de clausura, conhece uma viciada em sonhos em pó, três arquetípicas bruxas (que me fazem lembrar tantas outras), que apelida elogiosamente como Três Graças, as cárites da mitologia grega, e acaba por cair no Inferno, onde enfrenta vários obstáculos, entre eles o personagem da DC Etrigan e um poderoso demónio cheio de estilo, até chegar ao próprio Lúcifer.

A história chega ao zénite com a aparição de John Dee, que não é mais que o famoso Doutor Destino. Dee foi aprisionado pela Liga da Justiça no Asilo Arkham, mas Morfeu usa-o como ferramenta para alcançar o último objeto – o rubi. Dançando de forma errónea nos seus sonhos, persegue o vilão desfigurado e as suas vivências tenebrosas, morte e desolação, até a um sonho em que Dee se funde com a figura do imperador romano Júlio César e acredita ter sonhado que violara a própria mãe. Sonhos dentro de sonhos dentro de sonhos, uma chuva de referências e analogias. O livro termina com a aparição de Morte, a irmã mais velha do protagonista.

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Prancha de Prelúdios e Nocturnos (Levoir)
SINOPSE:

No primeiro volume da série, descobrimos Morfeu prisioneiro de uma cabala de ocultistas que pretendiam capturar a sua irmã, Morte. Após setenta anos de cativeiro, o Mestre dos Sonhos vai conseguir finalmente recuperar a sua liberdade, mas para recuperar o poder perdido, terá de embarcar numa busca pelos objectos que o simbolizam, cujo rasto, ao fim dessas décadas, será difícil de seguir, e que o levarão a encontrar Lúcifer, o Senhor dos Infernos, John Constantine e a própria loucura.

Argumento de Neil Gaiman e ilustrações de Sam Keith, Mike Dringenberg e Malcon Jones III

OPINIÃO:

Um livro a que reconheço imensa qualidade, mas que não me encheu as medidas. Prelúdios e Nocturnos é o primeiro volume da coleção Sandman, publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público. Já tinham sido publicados pela Devir alguns números da “menina” de Neil Gaiman, mas a coleção foi abandonada e é agora resgatada pela Levoir, com lançamentos periódicos estabelecidos da Edição Integral.

A primeira história de Sandman é uma viagem febril por mundos paralelos, culturas, religiões, reverberâncias do nosso imaginário coletivo e, claro, um sem fim de referências literárias e musicais, pontuadas por aparições de diversos personagens da DC. A escrita de Neil Gaiman é fenomenal, ponto assente. A delicadeza e subtileza da sua narração é magia para qualquer leitor. Quanto ao seu imaginário, confesso, não sou fã.

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Sandman (Vertigo/DC)

Este volume inaugural pode ter servido como preâmbulo para o que virá, mas mostrou somente uma grande amálgama de histórias entrançadas que permeiam uma história maior: a busca do protagonista pelos objetos mágicos que necessita. O primeiro passo de Morfeu no nosso mundo. O humor está sempre presente, basicamente assente no descrédito e na humilhação de personagens, mas não me fez rir e não consegui sentir empatia para com a maioria dos personagens de Gaiman, apesar de gostar bastante da sua escrita. O protagonista foi dos poucos personagens de que gostei. Uma quebra de paradigma num mundo sobrelotado de super-heróis.

“The greatest epic in the history of comic books” – Los Angeles Times Magazine

A arte apresenta um estilo sombrio propício à cena, uma diagramação simples e um traço forte, usando técnicas como o Art Deco e o Art Noveau para refletir o clima bafiento que a história de Gaiman confere à cena. Ainda assim, não foi uma ilustração muito apelativa.

No seu todo, reconheço grande qualidade à profusão de referências e significados. Sandman é uma orgia de pop e mitologias, uma intricada teia de ocultismo com a marca de qualidade Vertigo. Infelizmente, não me apaixonou, mas tenciono continuar a ler.

Avaliação: 4/10

Sandman (Levoir/Público)

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

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11 thoughts on “Prelúdios e Nocturnos, Sandman #1

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