Estou no Wattpad #9


Olá a todos! Já está disponível no Wattpad o nono capítulo do meu livro de leitura online Língua de Ferro: Um Sacana Qualquer, e como é hábito, irei partilhá-lo também aqui. Enquanto Mario Bortoli move as suas peças em Rhove, Língua de Ferro está nas mãos de Marovarola, que parece empenhado em atacar Lucilla e roubar-lhe a coroa de acanto. Serão dois dos homens mais lendários de Semboula capazes de destruir o coração do Império? Quais serão as verdadeiras intenções de Língua de Ferro? Muitas surpresas estão reservadas neste novo capítulo. Divirtam-se.

Capítulo Nove: A Companhia dos Ossos

“A primeira vez que olhei para ela ficou-me gravada na memória para todo o sempre. Ela era tão selvagem como a brisa agreste do deserto rezoli; ágil e imperial como uma leoa. Tinha os olhos cheios de fúria e uma enorme espada na anca esquerda, ainda maculada pelo sangue dos seus inimigos. Os braços esguios e brilhantes cruzaram-se à sua frente. Os lábios eram vermelhos, entreabertos num arquejo quando fixou o meu olhar. Lucilla. A mulher do homem que mais amei. A mulher que mais amei nesta vida. Atrás dela apareceu Agravelli, um guerreiro terrível, uma mente volúvel.”

Sylia Má era o nome da região que se espraiava ao redor da grande cidade de Chrygia, mas tinha um governo autónomo. Há três décadas, os ministros de Cacetel reindivicaram para si porções de terreno quando a Batalha do Olho Negro chegou ao fim e o dissidente Ramur de Terra Árida foi empalado pela lança de Braga, o lendário general do Imperador. Títulos e honrarias foram distribuídos em partes iguais, mas Sylia Má permaneceu nas mãos dos dois filhos de Ramur, Egal e Gepino.

Foram encetados acordos e tréguas, e Sylia Má tornou-se a sombra da capital, cenário de guerra entre fações opostas, terreno de jogo de expatriados e rebeldes. Nas suas casas de chá abriam-se passagens secretas para câmaras ainda mais secretas, onde conspiradores urdiam tramas contra o Império. Sylia Má tinha isenção de impostos, como o acordado por Cacetel para impedir um motim às portas da cidade. A burguesia de Chrygia sempre se insurgira contra a passividade de Cacetel, mas o Imperador tinha um interesse secreto em manter Sylia Má com vida, um útero de clandestinidade e insurreição. Eram lá que se realizavam os acordos mais importantes. Era lá que os rebeldes se julgavam seguros. Era lá que ele os tinha sob rédea curta, sob os olhos esquivos dos seus espiões. Era lá que vivia o seu filho, que optara por uma vida desregrada depois de sucessivos conflitos com o pai e os seus tutores. O filho do Imperador chamava-se Agravelli e viria a tornar-se um dos lendários Doze Vermelhos. Foi também naquela zona inóspita, pavimentada de lama e fezes, que nasceu a lenda em que se tornara Landon X.

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Dune (Mark Molnar)

Língua de Ferro caminhava sob o peso obsceno de uma grossa pele de cabril, cujas costuras internas albergavam um arsenal de trinta facas e dois chicotes de couro. Apalasi estava embainhada às costas, debaixo do casaco. Com um olhar furtivo, olhava para a esquerda e para a direita, com o cabelo azul-turquesa a menear-se pesadamente sobre os ombros. Caminhava como um escravo atrás de um camelo, onde Marovarola se pavoneava, nada discreto, com um casaco de penas lilases. Soltava comentários entredentes e não se coibia a provocar todos os comerciantes e compradores com que se cruzavam nas apertadas vielas de Riis, o bairro mais movimentado de Ccantia, a cidade-sombra. A localidade mais variegada e popular de Sylia Má.

Arranha-céus inclinados pareciam desfazer-se. Pontes de corda pendiam entre os edifícios. Dejetos e entulho polvilhavam as ruas, que se multiplicavam, sombrias e estranguladas, à esquerda e à direita. A pouca comida disponível vinha das lojas de beneficência ou era roubada aos burgueses que frequentavam o bairro, em busca de drogas ou prostitutas. Os habitantes iam desde mulheres da vida, tão magras que se distinguiam as costelas na sua pele como teclas de piano, a ladrões menores, como crianças maltrapilhas escondidas nos buracos mais recônditos, até aos ladrões maiores, reis do crime sentados nas suas secretárias sofisticadas a planear a organização da cidade. A maioria das vezes, estes senhores do crime eram aqueles que governavam os bairros febris de Ccantia.

― Procuro Agravelli ― disse Marovarola quando chegou à casa sob um toldo amarelento, com as suas mãos debaixo dos braços e um olhar arrogante. O homem baixo e escuro e sujo, com um colete entreaberto a desvendar mechas de pelos esbranquiçados, parecia tentar conter algumas lágrimas. Tinha cerca de cinquenta anos, mas parecia mais velho. Marovarola desceu do camelo e ofereceu as rédeas a um rapaz que os seguia com uma cascata de cabelos louros e roupa esquálida. Voltou a dirigir-se ao homem e disse as palavras mágicas: ― Pelas nádegas de Kalila.

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Street fantasy (pinterest)

Seguiram o homem por uma taberna de madeiras velhas, quase ao abandono, e tomaram um corredor nu e velho, com madeira a apodrecer, ferrugem nos metais e cal a descascar. Ao fundo do corredor ficava uma porta de madeira vergada para dentro, como se um violento murro a tivesse atingido ao centro. O homem abriu a porta e entraram num cenário escuro e fumarento. A sala não tinha janelas e a única luz era a de uma vela acesa, ao centro de uma enorme mesa redonda. Onze homens estavam sentados à sua volta, a fumar cigarros e a jogar às cartas.

Vestiam bom algodão e bom linho, em cores discretas. Um sexagenário tinha um bigode repenicado que cofiava a cada três segundos. Cinco deles eram largos e de expressões sombrias, na casa dos cinquenta anos. Todos tinham cabelo escuro, uns mais longos que outros, havia os que tinham escamas no pescoço, um usava lunetas, um usava barba. Para além deles, havia um sujeito bastante gordo que ria-se muito e com frequência. Dois outros eram gémeos, altos e esguios como uma vara. Rugas de expressão sublinhadas, narizes afilados. Um era louro, jovem e arrogante; e ao contrário dos demais, que envergavam cinzento e negro, vestia de branco. O último era ruivo, na casa dos quarenta anos. Sorria um sorriso brilhante, sublinhado pelo incisivo de prata. O seu casaco era bom algodão cinzento, e as calças do mesmo material. Olhou por cima do ombro, afastou um charuto dos lábios e sorriu. Agravelli.

― Pelas nádegas de Kalila ― disse. ― Marovarola, estava à tua espera. Nem queria acreditar quando, depois de tantos anos, me enviaste uma mensagem. Dei instruções a Seji para que te trouxesse imediatamente à minha presença. E esse que vem contigo? Ah, Leidviges! Nunca pensei voltar a ver-te vivo…

Os homens à sua volta pareceram não dar qualquer importância aos recém-chegados, concentrados na sua jogatana. Durante breves segundos, só se ouviu o retinir das peças de marfim sobre o tampo envernizado da mesa. Nem sequer Agravelli se ergueu. Aconteceu tudo demasiado depressa.

O criado chamado Seji foi buscar mais duas cadeiras e eles sentaram-se entre os restantes. Observaram em silêncio cada jogada, até que, no fim, foi Agravelli quem venceu. Mal terminou o jogo, todos os olhares recaíram em Marovarola e em Língua de Ferro. Ele sabia quem eles eram.

A Companhia dos Ossos.

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Black Company fan art (samshank)

Agravelli Domasi era o líder deles. Um velho amigo. Não podia ter mudado mais desde a última vez em que o vira. Perdera massa muscular, ganhara rugas e confiança. E um dente de prata. Mas aquele olhar cínico era o mesmo. Língua de Ferro sabia do seu passado como líder de rebeldes, pirata e estuprador. Sabia também que era filho do antigo Imperador, Cacetel. E que conhecera de perto Lucilla.

― Leidviges Valentina ― sussurrou. ― Conhecido no mundo como Língua de Ferro. O traidor dos Doze Vermelhos. Foste tu o responsável pelo ideal em que se fundeou o novo Império. O responsável pela queda do meu pai.

Língua de Ferro fungou.

― Eras inimigo do teu pai. Não tive qualquer participação na sua queda.

― Diretamente, talvez ― disse o jovem louro. ― Mas a responsabilidade de tudo o que aconteceu é sua. Toda sua.

O rapaz dizia aquilo com uma combinação terrível entre desespero e desdém. Língua de Ferro deslizou o olhar entre o rapaz e Agravelli e percebeu as semelhanças. Tayscar, sem dúvida.

― O teu filho cresceu, Agravelli. Não sabia que o tinhas incluído na irmandade. ― Ele estava para lá do vigésimo aniversário, mas tinha ares de menino. ― Eu não tenho a certeza se quero fugir a qualquer responsabilidade ― disse com ousadia. ― Tenho as costas largas.

Uma dezena de respostas jorrou dos olhares febris à sua volta. – Foste tu quem traiu os Doze Vermelhos, Foste o tutor daquela maldita puta e Podes estar feito com ela e a encobri-la – , mas somente Agravelli se expressou. Soltou um suspiro forçado.

― Há quanto tempo sabem que é Luce quem está à frente do Império? ― perguntou.

― Dzanela passou por cá ― revelou o sexagenário de bigode. Podia passar por um banqueiro com facilidade. Talvez por um homem do Império. Não o era. Ganhara um bigode grisalho e roupas boas e lavadas, mas continuava a ser Brovios, Donatello Brovios, um dos Doze Vermelhos. ― Devias tê-lo visto. Parecia que tinha sido regalado pelo sol.

― Radiante?

― Não ― disse o velho. ― Paramentado de branco, com as súmulas do Império.

― Compreendo.

― Veio ter connosco ― disse Agravelli, com uma expressão preocupada. ― Disse que tinham o irmão dele. Pediu-nos ajuda.

Língua de Ferro remexeu-se no assento acolchoado.

― Dzanela está morto, e o irmão dele, se estiver vivo, nas mãos de Bortoli ― disse Marovarola. Os seus olhos varreram a sala, cobertos de pesar. Língua de Ferro suspirou pesadamente.

― Acho que ainda não compreendi uma coisa ― disse. ― Todos vocês julgam que eu sou o responsável pela conquista de Lucilla e pelo que está a acontecer. Com Landon X, o mundo ficou mais pequeno, mais apertado, um monopólio a que nem as sociedades mais marginais conseguem escapar. Todos estão dependentes do Império, algo que não acontecia quando Cacetel estava no poder. Julgam que a responsabilidade é minha, não é? E, ainda assim, nenhum de vós moveu uma mão para me esmurrar. Sou assim tão assustador?

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Garrett Master Thief (DeviantArt)

Agravelli soltou um esgar de desdém e enrugou a testa.

― Agradece a Marovarola. Permite-me apresentar-te os restantes elementos da nossa assembleia. ― Apontou para os cinco sujeitos sisudos: ― Doga, Temella, Samo, Birge, Venezo e Cugo. Todos eles infiltraram-se em Ccantia. Nos lugares notáveis. Notários, secretários, advogados ou banqueiros. Os gémeos são Patto e Ganorra, relojoeiros de profissão. Todos eles bons burlões. ― Os sujeitos sorriram com confiança, de cada vez que eram nomeados. ― O meu filho Tayscar infiltrou-se na guarda da cidade, supostamente leal ao rei do crime, Averze. Brovios dispensa apresentações, não é assim? É o vice-governador. Quanto a mim, não mais que um ex-soldado, atual taberneiro. Embora todos nesta cidade saibam bem quem eu sou.

― Achamos que estamos a ser perseguidos por alguém que não hesitaria em degolar-nos a meio da noite ― adiantou Brovios. ― Marovarola, ainda que isso me impeça de ter uma noite tranquila, espero que bastem algumas simpatias partidárias para que possamos confiar em ti. Qual é o teu plano?

Marovarola sorriu, divertido. Finalmente, a tua hipótese de brilhares, pensou Língua de Ferro.

― Vamos explodir a cidade ― disse, como quem diz que vai comprar um queijo.

Os olhares caíram em si como flechas.

― Como assim?

― Num sentido figurado, claro está. Provocamos um rebuliço na cidade, alguns pequenos roubos pouco discretos, algumas gargantas cortadas, os vossos maiores inimigos silenciados, e Língua de Ferro no centro da confusão. Os guardas do Império aparecem, mas Língua de Ferro socorre-se com a defesa de Ccantia. A jurisdição da cidade tem leis próprias, não é verdade? Os julgamentos ocorrem em Chrygia, a capital do Império, é lá que vamos ter um dos nossos advogados a defendê-lo. E é lá que Língua de Ferro irá enfrentar Luce. Estaremos lá. Estaremos lá para o libertar e um motim irá desflorar na capital, quando os próprios chrygianos perceberem que foram enganados pela face por detrás de Landon X. Eu encarregar-me-ei de espalhar os rumores.

Língua de Ferro gostava do plano. Recordava-se do que tinha urdido com Marovarola. Usá-los como infantaria. Aos olhos da Companhia dos Ossos, a infantaria seria ele. Mas sabemos que as coisas serão diferentes. Muito diferentes. Sorriu.

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Cenário de RPG (pressfire)

― O que nos garante que o traidor irá enfrentar Lucilla? ― perguntou Brovios, revirando o bigode.

― Arrancar-lhe-ei a cabeça ― garantiu Língua de Ferro.

― Língua de Ferro vai arrancar-lhe a cabeça ― salientou Marovarola, com uma gargalhada. ― E se não acreditam nisso, então certamente não se irão importar que ele seja atirado aos leões do Império. De qualquer forma, ele irá colocar-nos dentro do Palácio. Ficamos fraquinhos ao ponto de temer Língua de Ferro? Ou ao ponto de temer os guardas do Império?

― Há Eduarda ― deixou escapar Venezo, o homem de lunetas, talvez o advogado do grupo. Embora não o seja, percebeu Língua de Ferro. Independentemente da profissão em que se especializaram, eles são guerreiros, todos eles. Não são o que parecem. Guerreiros e ladrões. A Companhia dos Ossos.

― Sim ― disse Língua de Ferro. ― Anéis da Morte não quer nenhum advogado de Ccantia. Anéis da Morte quer Língua de Ferro. E tê-lo-á.

A ideia ficou a pairar nos rostos apreensivos da Companhia dos Ossos. Marovarola sorriu para Língua de Ferro, confiante.

― Bem, meus senhores ― disse Marovarola, saltando do assento de forma teatral. ― Eu e Valentina vamos procurar um sítio para pernoitar. Entraremos em contacto brevemente, garanto-vos.

Língua de Ferro ergueu-se do assento e seguiu Marovarola em passos calmos. Estudou cada rosto à sua passagem. Ninguém pareceu mover-se ou dar mostras de querer adiantar algo mais. Os dados voltaram a rolar e o estalar de cartas de madeira voltou a ouvir-se quando fecharam a porta da sala sombria. Língua de Ferro não sabia bem o que pensar sobre aquele estranho grupo e sobre os homens sombrios. Confiava tanto neles, como confiava em Marovarola, mas tinha o seu próprio plano, para o caso de tudo correr demasiado mal. Todos eles queriam fazer pagá-lo pela traição, mas ainda era cedo. Não duvidava que uma armadilha estava a ser-lhe preparada, mas antes, queriam apanhar Lucilla. Esse era o seu trunfo.

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Mesclaram-se na confusão exuberante de camelos, homens e mulheres. As ruas transitadas do bairro Riis estavam impregnadas com o fedor a sarjetas, a urina e a suor. Havia comerciantes a negociar relíquias, frutas e legumes. Havia prostitutas com grandes capas a entreabrirem-se à sua passagem. Havia miúdos que tanto funcionavam como moços de recados, como pequenos espiões. Uma menina esticava o braço para seguir a mãe, que a conduzia em passos apressados. Quando ela virou o rosto para Língua de Ferro, ele viu que os seus olhos eram brancos. A rapariga era cega, mas pareceu assustar-se com a presença de Língua de Ferro.

O que é isto?, perguntou-se.

A mãe forçou-a a andar mais rápido e ele também acelerou o passo, mas quando Marovarola lhe sacudiu o ombro, desviou milimetricamente o seu olhar da rapariga, e nunca mais a viu.

― Não estou a acreditar no que estou a ver ― disse Marovarola. ― Quem disse que os deuses morreram? Ahahah! Eles troçam de nós, Valentina. Eles troçam de nós.

Quando Língua de Ferro voltou o olhar para onde Marovarola concentrava a sua atenção, foi acometido de um súbito arrepio. Eles troçam de nós.

De punhos e tornozelos atados, sentada em cima de um camelo com as costas voltadas para a cabeça do animal, estava uma mulher nua. Língua de Ferro não precisou de dois segundos para reconhecer a escrava. Não é uma escrava. Era Luce.

Eles troçam de nós.

Para ler pelo Wattpad:

Sinopse | Capítulo Um | Capítulo Dois | Capítulo Três | Capítulo Quatro | Capítulo Cinco | Capítulo Seis | Capítulo Sete | Capítulo Oito | Capítulo Nove

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2 thoughts on “Estou no Wattpad #9

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