Casa de Bonecas, Sandman #2


Estou a chegar através das barreiras que vocês ergueram na mente dele. Estou a chegar, mesmo que o caminho seja árduo e invulgar. Enquanto viajo, admiro o requinte com que construíram este labirinto, admiro as armadilhas e emboscadas que teceram por todo o lado. Foram aprendizes exímios, meus servidores.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Casa de Bonecas”, segundo volume da série Sandman (Formato BD)

Publicado originalmente entre os anos 1989 e 1990, Casa de Bonecas compreende as edições 9 a 16 da banda-desenhada Sandman de Neil Gaiman. O argumento pertence ao prestigiado autor britânico, enquanto as ilustrações ficaram a cargo de Mike Dringenberg, com Malcolm Jones III na arte-final e a colaboração de P. Chris Bachalo, Michael Zulli e Steve Parkhouse.

A banda-desenhada explora tramas em redor dos Eternos, personificações antropomórficas de sensações que constringem os humanos, mas não se podem considerar deuses, embora ajam como tal na mitologia prenhe de arquétipos concebida por Neil Gaiman. É à volta do Senhor dos Sonhos que esta coleção incide, com a chancela da Vertigo e da DC. Casa de Bonecas é o segundo volume da edição publicada em Portugal pela Levoir, em colaboração com o jornal Público.

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Capa Levoir/Público

O amor impossível

O prólogo da edição apresenta-nos um conto passado de boca em boca entre os homens de uma tribo índia, embora essa história pareça ter outro fim na boca das mulheres da tribo. Um pai conta ao filho a lenda sobre a civilização antiga de onde provêm, uma terra com construções de vidro governada por uma mulher que não encontrava nenhum homem digno de a desposar. Mas isso mudou quando certa noite se deparou com um sujeito, que tão depressa como apareceu, desapareceu misteriosamente. Procurou-o até chegar a um deus-ave, que a proibiu de voltar a persegui-lo. Um passarinho, no entanto, deu-lhe indicações para chegar até ele. Esse homem não era, na verdade, um homem, mas sim o Senhor dos Sonhos. Quando ela conheceu a natureza do personagem, renegou-o, uma e outra vez, até se arruinar a si mesma e ao seu império.

A casa de bonecas

Desejo e Desespero são dois irmãos Eternos. Eles são exatamente um espelho do que representam, e lutam pelo poder, mesmo que isso signifique passar a perna aos seus irmãos mais velhos.

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Prancha Casa de Bonecas (Levoir/Público)

Unity Kinkaid foi-nos apresentada no primeiro volume, Prelúdios e Nocturnos, como uma menina aprisionada nos seus próprios sonhos. Ela aparece neste volume como uma senhora idosa que se revela ser a avó de Rose Walker, a rapariga que parece estar no centro de todas as tramas. Rose viaja com a mãe para a Flórida, a terra natal da progenitora. Alojam-se na casa de uma avó desconhecida, a casa de bonecas figurativa que dá título à edição. Rose conhece personagens como o senhorio Hal, o casal Barbie e Ken, as “Fúrias” que já haviam aparecido no primeiro volume e principalmente Gilbert (um personagem com traços do britânico G. K. Chesterton, escritor de quem Gaiman é fã), que salva a rapariga de um grupo de violadores e torna-se o seu “tutor” durante uma série de aventuras. É que a viagem de Rose não é inocente. Ela procura o seu irmão Jed, que foi acolhido por um velho familiar com cara de pai-natal, mas do qual não tem notícias desde que o senhor morreu.

Nesse entretanto, Morfeu regressa ao seu Reino dos Sonhos, e percebe que várias criaturas perigosas – pesadelos – saíram para a realidade, durante as décadas em que esteve cativo. São eles a dupla Bruto e Sebo, o Coríntio (um assassino em série com apetite por olhos) e uma quarta e misteriosa criatura que se revela ser, na verdade, o bondoso Gilbert.

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Prancha Casa de Bonecas (Levoir/Público)

Gilbert e Rose acabam por alugar quarto num hotel reservado para uma convenção, sem que a jovem Rose faça ideia que se trata de uma convenção de serial-killers organizada por Coríntio, que vinha inspirando assassinos a matar “porque sim” já há muitos anos. Quando Gilbert desaparece, deixa um papel a Rose com o nome de Morfeu, para que ela o diga apenas quando necessite de ajuda. E isso acontece quando um criminoso pedófilo a proibe de entrar num baile reservado à convenção e a persegue com a intenção de a molestar. Morfeu surge e salva a rapariga do pedófilo. Posto isto, captura o perigoso Coríntio, já depois de ter caçado os restantes pesadelos.

É neste contexto que descobrimos a ligação entre Morfeu e Rose, e porque é que ela é o vórtice que causou uma perturbação no Reino dos Sonhos. A jovem é neta de Unity com Desejo, o Eterno irmão do protagonista.

Vários momentos paralelos perpassam a trama principal: uma revisualização do conto Capuchinho Vermelho, a história de Lyta e a sua ligação aos restantes e um arco isolado chamado Homens de Boa Fortuna, ambientado no decorrer dos séculos, no qual conhecemos Hob Gadling, um homem que não quer morrer, uma antepassada de John Constantine e ainda William Shakespeare, que garante a imortalidade para a sua obra mediante um acordo com o Senhor dos Sonhos.

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Prancha Casa de Bonecas (Levoir/ Público)
Sinopse:

Neste segundo volume da colecção,o leitor vai conhecer, para além da namorada de Morfeu, a quem o orgulho do Mestre condenou à eternidade no Inferno, mais dois elementos dos Eternos, Desejo e Desespero. O ponto fulcral da história é Rose Walker, cuja simples existência ameaça o equilíbrio entre o Domínio do Sonho e o Mundo Desperto em que vivemos, a casa na Florida para onde ela foi viver, a tal das Bonecas tem habitantes peculiares como o casal Barbie e Kent. No episódio intermédio descobrimos que Morfeu faz um acordo com William Shakespeare, garantindo a imortalidade para a sua obra. Mais uma leitura apaixonante que os nossos leitores não podem perder.

Opinião:

Casa de Bonecas, o segundo volume de Sandman, é um ótimo exemplo do que faltou ao primeiro: coerência, cadeia de acontecimentos, mistérios aliciantes e tramas bem amarradas. Recheada de arquétipos e referências literárias (William Shakespeare, Herman Melville, Charles Perrault e G. K. Chesterton são alguns dos exemplos), o segundo álbum da famosa obra de Neil Gaiman é uma sucessão de acontecimentos tão interligados que constroem um todo bastante satisfatório.

O Senhor dos Sonhos perde o protagonismo para uma série de personagens femininas bem fortes, mas para mim as suas aparições resultam sempre nos pontos altos da narrativa. É um personagem bem oleado e aparentemente poderoso e “sensato?”, que nos cativa às primeiras impressões, muito embora conheçamos as suas monstruosidades. Quanto às mulheres, Rose Walker é o centro da narrativa. A menina infantil e mimada que vai revelando, pouco a pouco, traços de heroína. Mas há também Miranda, a mãe de Rose, Unity, Lyta, Nada e a própria Morte.

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Coríntio (Vertigo)

De resto, nota-se a clara vontade do autor em realçar o conceito de mulher neste volume, seja na forma como é vista através dos olhos dos homens (tentativas de violação são um dos exemplos explorados por Gaiman), na proposta de sacrifício que ela oferece em função dos seus (o sentido de família, espelhado em Nada e Unity), ou até a paixão visceral (os assassinos pelas suas vítimas, Desejo e a complexidade da sua indefinição sexual).

Os mini-contos, como a história da princesa Nada ou o interlúdio Homens de Boa Fortuna foram passagens muito agradáveis, que realçaram o melhor que Neil Gaiman consegue oferecer. Se achei o argumento de Gaiman bem interessante, o trabalho de equipa de Dringenberg e de Malcolm Jones III (ilustração e arte-final) agradou-me mais do que o primeiro volume, embora as diferenças não sejam gritantes e o registo permaneça sombrio. O terceiro volume já está à minha espera.

Avaliação: 7/10

Sandman (Levoir/Público)

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

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11 thoughts on “Casa de Bonecas, Sandman #2

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