Terra do Sonho, Sandman #3


Ah… Uma ocasião para um xerez. O barato, claro. Não vou gastar o bom num merdas como tu.

O texto seguinte pode conter spoilers do livro “Terra do Sonho”, terceiro volume da série Sandman (Formato BD)

Com argumento de Neil Gaiman, ilustrações de Kelley Jones, Charles Vess, Colleen Doran e Malcolm Jones III e cores de Steve Oliff e Daniel Vozzo, Terra do Sonho é o terceiro volume da BD Sandman, que inclui os números 17 a 20 do comic original. Publicada originalmente em 1990, Terra do Sonho chegou a Portugal em outubro de 2016 no âmbito da parceria Levoir/Público.

Mais curto que os dois primeiros volumes, o terceiro álbum retrata quatro histórias isoladas, que têm como objetivo levantar questões morais e paradigmas relacionados ao tema do sonho. Sandman, Morfeu ou Sonho, o Mestre dos Sonhos é aqui também conhecido como Oneiros e participa nos três primeiros contos.

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Capa Levoir/Público

O preço dos sonhos

O primeiro conto, Calíope, apresenta-nos dois escritores. O velho Erasmus Fry recebe Richard Maddoc na sua mansão, onde aborda o bloqueio criativo do amigo. Maddoc teria escrito um primeiro romance de grande sucesso, mas nada mais conseguiu escrever depois disso. Para resolver a questão, Fry oferece-lhe um presente. Leva-o a uma divisão recôndita, onde encontram uma mulher nua, visivelmente maltratada. Fry garante tratar-se de Calíope, a musa que mantém em cativeiro há décadas. Segundo ele, a mesma musa de Homero. Maddoc leva-a para casa e apesar de duvidar da humanidade da prisioneira, viola-a e usa-a a seu bel-prazer. Como por magia, as ideias brotam da sua mente com grande euforia e Maddoc sente-se um homem realizado. Mas tudo tem um preço.

Terrivelmente infeliz, Calíope recebe a visita das três Fúrias que já haviam surgido nas primeiras edições de Sandman, e pede-lhes que a ajudem. As bruxas dizem-lhe que só uma pessoa a pode ajudar: Oneiros, o Senhor dos Sonhos. Calíope mostra-se reticente, porque já se havia relacionado com ele no passado – e, inclusive, tiveram um filho. Quando a convencem, Sandman entra em cena para atormentar Maddoc e salvar a musa cativa.

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Prancha Terra do Sonho (Levoir/Público)

A segunda história, Um Sonho de Mil Gatos, apresenta-nos um pequeno gatinho branco aparentemente bem tratado no seio de uma família feliz. À noite, ele esgueira-se para a rua, onde os gatos se reúnem num concílio. Ali, uma gata vingativa relata a sua experiência. No passado foi acarinhada pelos humanos, mas quando engravidou de um gato vadio, as suas crias foram “despachadas” pelos donos.

Então o seu relato centra-se em Sandman (aqui com a aparência de felino), que surgiu-lhe em sonhos e contou-lhe que, num passado distante, os gatos eram a raça dominante, gigantes que faziam dos humanos seus criados e que os caçavam. Contou-lhe que, certo dia, um humano teve um sonho, em que tudo seria diferente. Reuniu os humanos e fez com que sonhassem com o mesmo. Então, tudo mudou. O passado que eles viveram nunca existiu, e os gatos sempre foram pequeninos e inofensivos. É na tentativa de replicar esse sonho coletivo que a gata os reúne. O resultado, porém, não é o que esperava.

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Imagem Dream Country (Vertigo/DC)

O sonho como maldição

A edição persegue esta toada. O terceiro sonho conto, Sonho de uma Noite de Verão, pode ser visto como uma continuação da história isolada do segundo volume, Homens de Boa Fortuna, onde Sonho e William Shakespeare tecem um acordo para que as obras teatrais de Will se tornem famosas, em troca de duas peças de teatro dedicadas ao Senhor dos Sonhos. Nesta história, William e a sua trupe encontram Sonho num descampado, quando rumavam a uma terra para representar Sonho de uma Noite de Verão. Ele exige que representem a peça ali mesmo, onde as criaturas representadas como personagens são o público presente.

Na última história, Fachada, conhecemos Urania. Ela é uma super-herói imortal com o rosto desfigurado. Por muito que tente manter as aparências e uma vida social ativa, as deficiências físicas destroem-lhe o amor-próprio e o seu desejo é morrer. Quando recebe a visita da Morte, porém, esta mostra-lhe que não lhe pode dar o que deseja. A irmã de Sonho oferece-lhe, no entanto, uma alternativa: Rá, o deus-sol.

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Prancha Terra do Sonho (Levoir/Público)
SINOPSE:

Dividido em quatro histórias, todas elas independentes entre si, Gaiman tão depressa nos leva ao mundo da mitologia grega, apresentando Calíope a musa da eloquência e da poesia, a quem dedica o primeiro capítulo, como ao teatro de William Shakespeare “ Sonho de uma Noite de Verão”, uma fábula fantástica e ambiciosa que transborda de magia. Em 1991, Neil Gaiman (argumento) e Charles Vess (desenhos) ganharam com esta história o World Fantasy Award , prémio para uma história curta, sendo a única do género a ganhar este prémio até hoje e, foi também a última, uma vez que o regulamento foi alterado logo em seguida, para impedir que bandas desenhadas pudessem voltar a ser seleccionadas.

No primeiro capítulo, Calíope a musa inspiradora de poetas e escritores raptada há 60 anos por Erasmus Fry é cedida a Richard Madoc escritor com bloqueio criativo. Calíope serve assim de moeda de troca entre dois escritores que a violam e a usam para que sua criatividade possa deste modo fluir.
Calíope é uma poderosa narrativa de vingança, de libertação e de exploração sexual.

A segunda história – Um sonho de mil gatos – é uma história a partir da perspectiva do mundo vista pelos gatos, quando uma gata se torna líder dos felinos juntando os gatos que vai encontrando no seu caminho e lhes conta como o mundo era antigamente, onde eram os homens que serviam os gatos e não o contrário. Pede-lhes que voltem a sonhar com um mundo de gatos novamente, onde nenhum gato sofra com a crueldade dos homens nem seja morto pelos seus caprichos.
Ninguém voltará a olhar para um gato da mesma forma depois de ler esta história desenhada por Kelley Jones.

No terceiro capítulo do livro temos – Sonho de uma noite de verão – baseado numa das mais famosas peças teatrais de William Shakespeare. Nela Neil Gaiman relata o encontro entre Sonho e a personagem Shakespeare em que este tinha prometido escrever duas peças ao Senhor dos Sonhos se tivesse sucesso como escritor.

No quarto e último capítulo deste volume temos Fachada onde ao invés de Sandman nos é apresentada a sua irmã, Morte. Esta é uma história sobre solidão, tristeza e desespero.

OPINIÃO:

Em Terra de Sonho, Neil Gaiman continua a pincelar a sua tela com toques de artista. Camada sobre camada, conhecemos o propósito da narrativa, os significados secretos que desde o início tentou imprimir na sua obra. Este terceiro volume é um abrupto desprendimento com o que ficou para trás: a narrativa encadeada, a chuva de referências e de arquétipos. Oferecendo quatro histórias isoladas que se afastam do fio de história narrado até ali, enriquece Sandman de uma base simbólica considerável, sempre com o conceito de sonho presente, a espicaçar-nos a mente com uma míriade de perguntas e de suposições. Gaiman explora ao máximo a questão do sonho, dizendo claramente ao que vem.

Se a edição pode ser dividida em quatro contos, pode também ser dividida em quatro pilares que se fermentam num único pensamento basilar: cuidado com o que sonhas. No fundo, Gaiman faz-nos pensar que tudo aquilo que queremos tem um preço, e que nem sempre estamos dispostos a pagá-lo. Na vida, nem tudo tem um preçário e há preços que só conhecemos no pós-consumo. O sonho tem um poder corrosivo, capaz de transtornar e de enlouquecer. Não é o sonho que percorremos na noite, mas o nosso desejo interior que se produz a partir de uma ilusão. É irónico que Desejo seja um irmão de Sonho, em Sandman. Eles estão intimamente ligados, e podem ser – de formas distintas – traiçoeiros. Através de um sonho, um homem pode mover multidões, embora não consiga mover montanhas de modo literal.

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Sandman (Vertigo/DC)

Gaiman oferece ainda um outro conceito. A verdade. A verdade e o sonho parecem antónimos, mas é o sonho que marca, e mais permissivo a permanecer através dos tempos, se for relatado, divulgado, como uma verdade-sombra. O valor daquilo que é escrito é transcendental aos tempos, enquanto a verdade dos factos perde-se com grande facilidade. Por fim, o sonho é visto como uma tragédia. Se um pesadelo pode ser terrível, imaginemos o que será um sonho bom experimentado por alguém sem amor por si mesmo. O horror do que tem torna-se mais vincado, mais palpável, mais tenebroso. Tal conceção pode ser comparável a todas as vivências. O que é visto como maravilhoso aos nossos olhos, pode servir somente para entristecer-nos, rejeitando e diminuindo aquilo que temos. Está na natureza humana sentir o brilho do que não se possui resplandecer como um sol.

A míriade de questões filosóficas levantadas por Neil Gaiman faz deste um volume para refletir na nossa natureza humana e nas peculiaridades do sonhar. Todas as histórias cumpriram o seu papel, mas o imaginário de Sandman continua sem me maravilhar. Saborear a natureza dos Eternos e a bem coberta cama de significados subjacentes foi o melhor que este volume me entregou, a par dos finais deliciosos e macabros. As histórias isoladas serviram basicamente para isso, sem que o enredo tenha avançado minimamente.

Embora a maioria dos ilustradores não sejam os mesmos das primeiras edições, a arte mantém o estilo e a qualidade. Não é do melhor, mas para o ano de criação a competência é reconhecível.

Avaliação: 6/10

Sandman (Levoir/Público)

#1 Prelúdios e Nocturnos

#2 Casa de Bonecas

#3 Terra do Sonho

#4 Estação das Brumas

#5 Um Jogo de Ti

#6 Fábulas e Reflexões

#7 Vidas Breves

#8 A Estalagem no Fim do Mundo

#9 As Benevolentes 1

#10 As Benevolentes 2

#11 A Vigília

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11 thoughts on “Terra do Sonho, Sandman #3

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